A Casa das Tristezas Indecifráveis [História de Terror]

A Casa das Tristezas Indecifráveis História de Terror mundo sombrio

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Dava uma tristeza só de olhar para a residência. Apesar de velha, com a maioria das portas e janelas fechadas com tijolos, estava bem conservada e tinha ainda uma certa sofisticação.

Era mais um imóvel que meu pai, na sua sanha de acumular bens, tinha adquirido. Fora construída no final dos anos oitenta ou começo dos anos noventa, pelo que eu sabia. Pertencera a um empresário que a construíra para ser usada como um imóvel de férias.

Era próxima da praia e se destacava como uma construção imponente naquele lugar de construções mais simples. Haviam me dito que fora usada como um clube privado e que por isso o empresário recebera o apelido de Barão. Casa ou casarão do Barão, tinham-na denominado os nativos. Festas e comemorações badaladas tinham acontecido na residência. E os exageros comemorativos tinham alimentado a imaginação das pessoas por ali.

Diziam que os ricaços com suas festividades voluptuosas atraíam o mal. Eram incontáveis os pecados! Mesmo em épocas em que a casa estava fechada, davam conta de vultos e espectros tenebrosos que acenavam das janelas do alto.

No seu auge, contavam que um dia, um taxista fora interpelado pelo vigia da casa. O encarregado de proteger a residência, foi atender um taxista que está já há alguns minutos parado diante do portão da casa. O motorista disse que esperava uma mulher que trouxera, que entrara na residência apenas para pegar a bolsa e realizar o pagamento. O vigia então fala que não há ninguém na casa além dele. O taxista duvida, o outro o convida a entrar e conferir. O profissional da direção aceita.

Eles andam pela casa silenciosa, súbito sentem um pavor. Os homens ficam um tempo conversando, especulando sobre o que aconteceu, concordando que há algo estranho ali e concluem que a mulher se tratava de um fantasma. O taxista vai embora se benzendo, o vigia pede demissão.

Para mim, isso não passa de uma adaptação de uma lenda urbana bem conhecida. O que dá pra saber de fato é que as pessoas ao redor da residência a temem de verdade. Mesmo os mais céticos não gostam do imóvel.

Sua fama de assombrada está ligada a um passado de comemorações. Algo estranho. Pois ninguém morreu na casa, nem se sabe de outras perturbações como rituais estranhos ou violação de terrenos sagrados. Se bem que para esta última possibilidade só se pode especular. Afinal era uma região litorânea onde viveram muitos povos.

De qualquer maneira, sequer os clichês sobre casas assombradas existem aqui. Mas eu olhava para casa e sentia uma tristeza imensa, um mal-estar difícil de descrever. Cabia a mim reforma-la, ajudar junto ao meu pai seu destino. Seria melhor revende-la? Alugar? Mantê-la para nosso próprio uso?

Diligentemente realizei a tarefa. E infeliz e estranhamente não consegui me livrar da sensação estranha que me tomava toda vez que estava na casa. Mas resisti e continuei frequentando a casa quando esta. naturalmente se tornou um espaço de lazer para minha família e amigos.

Eu me divertia e me distraia muitas vezes sob seu teto, embora incontáveis vezes me surpreendesse tomado de uma profunda melancolia e pensamentos negativos. E isso acontecia independente do momento, por mais lúdico que este fosse.

Durante um alegre bate papo tomando cerveja, eu me pegava pensando nos males do álcool e quem da turma ali sucumbiria aos seus infortúnios. Um acidente de automóvel? Uma cirrose? Violência doméstica? Eram esses os pensamentos que invadiam minha mente.

Toda vez que estava lá esperando amigos que estavam a caminho, eu ficava imaginando se recebesse um telefonema me informando um terrível acidente. A casa parecia alimentar em mim um pessimismo e morbidez inevitável. Mesmo após um dia contente e distraído, eu tinha pesadelos à noite naquela casa. Eu me recriminava inúmeras vezes por aquela cisma. Dizia para mim mesmo que o culpado daqueles sentimentos era eu mesmo e não a residência. Que só despertava senso de festividade e nada mais.

Uma ocasião, porém, depois de receber diversos grupos de amigos, passar momentos agradáveis na praia, uma pessoa morreria na casa. A esposa de um amigo, que lutava já há alguns anos contra a depressão. Ela foi encontrada morta na cama pelo companheiro. Ao seu lado, sob as cobertas, as cartelas de remédios vazios. Ela tomara incontáveis comprimidos a noite, silenciosamente ao lado do marido. Foi um espanto muito grande o fato dela ter escolhido aquele momento e lugar para tirar a própria vida. Eu não disse nada a ninguém, porém tinha certeza de que a casa tinha tudo a ver com isso. O que quer que havia nela, levou ao extremo àquela tristeza.

Eu me afastei da residência. Deixei mesmo de ir a importantes comemorações realizadas lá. Fiquei inventando desculpas, fingindo mal-estares para faltar aniversários e outras recepções festivas. Tentei convencer meu pai a vender a casa sem sucesso. Tudo continua como está. Se esta fosse uma obra de ficção, findaria agora com alguma revelação terrível, mas não é o caso. Minha narrativa termina sem uma conclusão ou desfecho, exceto a de que há algo que me deixa profundamente infeliz ali. Algo que as pessoas sentem e procuram evitar expressar.

Por: Jorge Raskolnikov

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