A Casa dos Condenados [História de Terror]

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Éramos sete até 1990, quando formamos um círculo ao redor de uma garrafa de vidro, que decidia, através de uma famosa brincadeira, revelar segredos ou pagar alguma prenda: verdade ou desafio?

Sete amigos unidos, do interior de Minas Gerais, a cidade pequena porém conhecida por uma lendária casa mal assombrada. O lugar era um pouco afastado do restante da população, mas tinha alguns vizinhos e estes relatavam ver e ouvir coisas estranhas ao redor daquela casa.

Na brincadeira de um Sábado à noite, após uma sessão de bebedeira, Ralph na sua vez de escolher uma consequência, deixou-nos em um profundo estado temporário de silêncio.

A consequência para Edu era nada menos do que desafia-lo a passar uma noite sozinho na casa assombrada, conhecida por amaldiçoar quem ali entrasse, pelo menos era o que diziam os próprios donos da propriedade que era na zona rural.

Na nossa brincadeira, Edu, que além de não acreditar em histórias sobrenaturais, nunca dava o braço a torcer. Botou sua jaqueta, pegou sua moto, uma mochila, algumas lanternas e disse que quem quisesse veria alguém que não tinha medo da casa.

— Eu aceito o desafio! Vou passar o resto da noite na tal casa mal assombrada!

Nos unimos contra tal ideia e pedimos para que Ralph mudasse o desafio imposto a Edu, afinal a brincadeira não era pra ir tão longe. A casa era conhecida pelos muitos relatos de pessoas escutarem vozes, gritos, choros , portas baterem sem vento algum e até vultos, fora as notícias dos jornais no fim dos anos 80: um zelador teria morrido eletrocutado dentro da casa quando simplesmente tirou uma tomada de uma televisão e um peão que simplesmente caiu morto alguns metros fora casa.

Consideramos coincidência, dizia a imprensa na época, mas o fato era que também tinham os desaparecimentos de alguns mendigos e desavisados que invadiram a casa achando que teria abrigo. Estes que sumiram após entrar na construção.

Lembramos Edu de todas essas coisas assustadoras que supostamente teriam acontecido por causa daquela casa, mas foi em vão. Nosso amigo montou na garupa da moto e partiu pela estrada de terra indo em direção à residência misteriosa e assustadora. Ralph tinha ido longe demais na brincadeira. Decidimos ir de carro trás do Edu e impedi-lo de entrar naquele lugar.

Ralph em seu canto do banco traseiro estava pensativo e expressivo até quebrar o silêncio do percurso do caminho:

— Eu não tenho culpa de nada! Se acontecer alguma coisa com ele, saibam que ele teve opção de não aceitar a consequência…

Não contive ao comentário e rebati:

— Nós conhecemos a rebeldia e a valentia do Edu. Você exagerou na escolha da consequência dele pois sabia que ele iria topar!

Um breve silêncio pairou dentro do carro. O restante da turma estava em outra moto um pouco a frente de nós. Um pouco mais tarde, chegamos em uma estrada escura de terra e, dali por diante, faltaria muito pouco para termos acesso à porteira quebrada da chácara abandonada em que ficava a ”famosa” casa.

Eu nunca tinha chegado tão perto daquele lugar, aliás, ninguém ali tinha feito isso antes, nem mesmo o Edu havia pensado antes nisso, mesmo porque ele nem ligava para as histórias de terror ou lendas urbanas da nossa cidade.

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— Gente, se é realmente uma lenda essa casa ser mal assombrada e amaldiçoar quem entrar nela, com toda certeza iremos descobrir isso hoje! Vejam… a moto do nosso amigo Edu já está estacionada na entrada da casa, chegamos atrasados – disse o Caio, que era quem dirigia o carro onde estávamos.

Ao descermos do carro, Ralph disse que se quiséssemos entrar, entraríamos sem ele e nem moveu um dedo sequer.

— O Edu quis vir porque sempre se achou melhor do que todos. Porque sempre quer mostrar valentia pra todos dessa porcaria de cidade! E se ele e vocês querem morrer nessa casa, eu não quero! Aí dentro eu não entro e vocês não podem me obrigar!

Ralph e Edu tinham uma rixa, não se bicavam muito, vivíamos separando as brigas dos dois. No passado o Edu ”roubara” uma namorada do amigo e, mesmo após alguns anos, eles meio que só se toleram em nome da nossa amizade, afinal somos em sete.

— Deixa ele aí galera, o Ralph é um covarde mesmo, fica ai dentro do carro que vamos tirar o Edu dessa porcaria de casa, e tudo por causa dessa brincadeira sua…

Após Caio esbravejar com Ralph, logo seguimos rumo a casa, enquanto ele trancava as portas do carro. Ligamos então as lanternas e seguimos o objetivo. Confesso que, assim que íamos nos aproximando da casa, as minhas pernas tremiam cada vez mais, e logo a história toda do lugar passou pela minha cabeça: os relatos na cidade, as matérias com foto nos jornais, até que entramos…

A casa era linda por dentro. Havia um salão enorme com uma escadaria pra um segundo andar, onde parte estava invadida por plantas e mato. Edu não estava ali.

Passamos a procurar no segundo andar, onde havia um longo corredor e várias portas, mas somente uma delas estava aberta.

De repente, escutamos um estrondo de porta batendo vindo do andar de baixo, logo descartamos a possibilidade de ser o Ralph entrando e consideramos o vento ter batido. Confesso que era apenas para amenizar o enorme medo que estávamos sentindo.

Assim que entramos pela única porta que estava aberta naquele imenso e longo corredor, vimos Edu parado no meio de um enorme quarto ou talvez fosse uma biblioteca. Tentamos falar com ele, mas ele não nos respondia, nem se movia. Apenas mantinha o olhar fixo e a boca aberta para o canto inferior da parede.

Apontei a lanterna para o lado em que ele olhava e, na parede, um homem velho estava encostado sentado no chão, com os braços entre as pernas. Ele tinha um longo cabelo branco, crespo, era barbudo e usava um chapéu preto, desses que se usa nos rodeios. Na canela do velho, via-se uma corrente com um cadeado trancado. Um pouco mais atrás, pelo canto do quarto, a corrente se ligava à uma mulher mais nova, porém com uma pele putrificada, que sorria maquiavelicamente expondo seus dentes longos e afiados.

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De repente, os dois se levantaram e começaram a atacar Edu que gritava como eu nunca tinha escutado antes. Talvez toda a cidade conseguisse escutar os gritos de tão altos que eram. O velho e a mulher apertavam tanto o nosso amigo com as correntes, que até podíamos escutar o barulho de ossos dele se quebrando. Não tínhamos outra escolha a não ser correr dali sem olhar pra trás, e foi o que fizemos.

Chegando novamente no corredor escuro, os gritos iam perdendo forças. Lamentamos perder um grande amigo diante de nossos olhos, mas tudo foi muito rápido, não pudemos fazer nada.

Corremos para a parte de baixo da casa e demos de cara com a porta aberta. Ao sair, vimos Ralph morto dentro do carro com a cabeça encostada no vidro da janela e sangrando pela boca:

— Que merda! – gritou Caio.

Notamos que as portas do carro ainda estavam travadas conforme vimos Ralph fazer anteriormente. Pudemos escutar alguns rosnados um pouco distantes de nós, e nos deparamos com uma outra estrada igual a de terra que ligava a entrada da casa, e do outro lado havia um cachorro que latia pra gente.

Havia também um carro e uma moto estacionados próximos um do outro. Tinha uma pessoa dentro do carro dormindo. Nos aproximamos pra ver, e era o Ralph. Ele estava dentro do carro. Era um carro igual ao do Caio e ele não estava mais morto, mas sim dormindo.

Batemos nos vidros, mas ele não escutava e o cão que estava latindo pra nós logo começou a gargalhar.

Do nada, estávamos novamente dentro do salão principal da casa, estava muito escuro. Agora, correntes estavam entrelaçadas em nossas pernas. Foi quando vimos Edu, todo desfigurado e contorcido, descendo pela escadaria em nossa direção. Ele estava todo ensanguentado e, por mais que a gente tentasse correr, ele conseguia chegar cada vez mais perto de nós.

Outra corrente o amarrava a algo no segundo andar da casa. Sabíamos que, apesar de termos bebido naquela noite, estávamos sóbrios para ter delírios. Mas era real! O cachorro que latia lá fora entrou na casa e foi crescendo até se parecer com uma criatura horrível parecida com um lobisomem, ele começou a conversar, sua voz era rouca e seu hálito era forte:

— Lá fora, só entramos na casa de vocês com autorização. Já aqui no submundo, não se entra sem antes ler o que está escrito na porta.

Fomos guiados até a porta daquela casa maldita, e uma frase riscada com algo perfurante na porta dizia:

“Pode entrar, mas se entrar, jamais irá sair”.

Logo o salão escuro ficou cheio de pessoas acorrentada umas nas outras. Algumas dessas pessoas lembro de ter visto por fotos nos jornais. Eram os mortos ou desaparecidos das histórias contadas sobre aquele lugar.

Foi quando me dei por conta de que estávamos todos condenados à prisão eterna daquele pesadelo, talvez mortos ou talvez, desaparecidos.

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