Dúvida Cruel [História de Terror] - Mundo Sombrio

Dúvida Cruel [História de Terror]

Essa História de Terror foi escrita por Aldo Almeida e faz parte da sua coleção de Contos de Terror. Leia a História de Terror “Dúvida Cruel”.
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Um cheiro de grama verde recém-cortada invade os sentidos olfativos dos transeuntes que trafegam pelas calçadas da simpática praça do bairro. O sol incide seus últimos raios em um dia típico de verão. Nas adjacências, crianças sobre rodas de toda sorte de brinquedos, deslizam para todos os lados perseguidas por pais zelosos.

Seguindo por um dos caminhos, está uma mulher que puxa pela mão o menino pré-púbere metido em sua roupa de missa. Curioso, observa atentamente todo o movimento à sua volta: a rua com poucos veículos, a velha sentada no banco com o olhar fixo em algum ponto do chão, cães ladrando para os pombos e o brincar descontraído de um bebê sentado dentro do seu carrinho.

É nesse momento que um estalo eclode dentro de sua máquina de pensar. Do alto de sua maturidade infantil reflete no sentido da vida e todos os seus percalços, a dúvida surgiu como em um repente e a pergunta foi inevitável:

-Mamãe, de onde vem os bebês?

Pega totalmente desprevenida de argumentos, a mãe ruborizada torce o nariz, olha para o filho e nem pensa para responder:

-Olha a boca menino, não vê que estamos em público, em casa a gente conversa.

O menino estremeceu. A última vez que ouviu a frase “em casa gente conversa” ela não conversou, apenas desceu algumas lambadas do cinto de couro do seu pai nas suas costas.

Portanto, chegando ao lar, não fez nenhuma questão de esclarecer sua curiosidade com a sua progenitora. Mas passando os dias, não parava de pensar, se ele mesmo foi um bebê e outros apareceram depois, de onde diabos saem esses pequenos seres babões e chorões? Resolve perguntar ao avô, que mesmo não ouvindo muito bem é esperto e divertido:

-Vovô, de onde vem os bebês?

O velho se abaixa e exibe para a criança o orifício auricular enrugado e coberto de pelos grisalhos.

-Heeiiinn???

O menino sente o asco com a visão, mas insiste em berrar a pergunta mais algumas vezes para se fazer entendido. Quando o idoso entende do que se trata, encarou o neto e disse sorrindo:

-Ora, meu filho, isso é simples, a cegonha traz os bebês no bico.

-Nunca vi nenhum bebê voando com cegonhas por aí. Responde o garoto desconfiado.

-É porque isso acontece de noite, quando você está dormindo. Esclarece o velho.

O menino viu que era inútil discutir com o avô. Sabia que não era isso, mas também percebeu que o ancião não lhe daria mais nenhuma informação.

Com a curiosidade a lhe corroer o cérebro resolve questionar o pai, homem duro e severo que não suporta gracejos, mas como a pergunta é séria pensa em arriscar. Quando chega a noite, na hora em que o chefe da família retorna ao lar depois do trabalho, o menino se aproxima e vai direto ao assunto:

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-Papai, de onde vem os bebês?

O homem que ainda afrouxava as botas para descalçá-las, dá um longo suspiro, olha para baixo, coloca ambas as mãos nos ombros do pequeno, olha bem fundo em seus olhos e diz:

-Pergunte à sua mãe.

Como já havia passado por essa etapa e o bom senso lhe advertiu que seria melhor recuar, deixa a questão para o espaço em que todas as respostas são encontradas, na igreja.

Na manhã de domingo, a mãe se surpreende quando seu filho pede para ir à missa, mesmo não habituados à frequência ao espaço sagrado, ninguém se faz de rogado para atender a vontade do garoto. Assim toda a família se veste com esmero e encaminham-se para o local das orações.

É com impaciência que o menino espera o padre enfiar-se no pequeno espaço do confessionário e ignorando todas as regras para ter seu momento de contrição entra no cubículo destinado aos confessantes:

-Perdão, padre, mas não vim confessar.

-E a que vem, meu filho?

-Queria fazer uma pergunta.

-Pode dizer.

-De onde vem os bebês?

-As crianças vem de Deus.

-Mas como elas chegam aqui, de onde aparecem?

-Da essência de Deus, meu filho.

-Tudo bem, mas como aparecem depois no colo da mãe?

-…

-Padre?

-Menino, vá perguntar à sua mãe.

Já pensa em desistir, principalmente devido à coça que levou depois que o padre conversou com sua mãe. Mas como a pergunta pulsa e repercute pelo interior de sua cabeça, busca um último recurso para saciar sua sede de saber. Sua professora certamente não o deixaria perdido no deserto da ignorância.

Na segunda feira, ninguém entendeu a pressa do menino para chegar à escola, geralmente inventava doenças bem criativas para não ser obrigado a sair da cama e vestir o uniforme.

Logo de manhãzinha já estava pronto e bem disposto, quase carregou sua mãe pelo caminho e entra impaciente pelos portões do colégio. Na sala de aula está inquieto, não havia como questionar a professora na frente dos colegas, certamente seria motivo de gozação. Espera então pelo fim do primeiro horário até o intervalo. Quando enfim todos se atiram euforicamente para o corredor ao ouvir o som estridente que indica a hora da recreação livre, o aluno se aproxima da mesa da educadora e sem meias palavras indaga:

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-Professora, de onde vem os bebês?

A mestra que está de cabeça baixa fazendo anotações, ergue os olhos por cima das lentes dos óculos redondos e percebe que a pergunta é sincera. Sabe que é sua função fazer aquela cabecinha libertar-se das amarras do senso comum e atingir o conhecimento científico. Assim, ela busca na biblioteca um livro sobre o assunto, chama particularmente o garoto para a sala dos professores e, da maneira mais didática que encontra começa a explicar:

-Olha essa história no livro, é um casal de cachorrinhos. Leia e me pergunte o que não entender.

O livro mostra a história em que uma cadela cruza com um cachorro e acaba tendo uma ninhada. Quando o menino termina de ler a professora esclarece:

-Isso é o que os pais fazem para ter filhos. A mesma coisa aconteceu com a sua mãe e você e seus irmãos nasceram.

O menino tenta não demonstrar perplexidade. Sabe pouco sobre sexo, mas o que sabe nunca o agradou. Pensa ser algo sujo, feito por pessoas sujas e más. Nunca imaginou que sua própria mãe poderia… decide parar de pensar. Agradece então as explanações e permanece calmo até a saída.

Quando sua mãe chega para levá-lo para casa, ele não a beijou como sempre fazia. Caminha com uma expressão aborrecida, na medida em que troca os passos sua mente viaja por um turbilhão de sentimentos, sente-se violado em sua inocência, sua mãe é mais que sua rainha, é um ícone de pureza, translúcida como água. Não pode deixar assim, a raiva toma conta de cada fibra do seu ser. O responsável por macular a santidade de sua mãe vai pagar caro por isso.

Quando entra em casa, vai até o quintal e apanha um machado. Pé ante pé, avança silenciosamente pela porta. Esgueirando-se pelas sombras chega até a sala. Lá está seu alvo, tranquilo repousando sobre a poltrona. O menino junta forças com seu ódio e ergue o pesado machado. A vítima, surpreendida observa sem desconfiar o que se sucederá. O metal baixa e a lâmina parte um crânio em duas partes. O sangue espirra no rosto do garoto que observa a cena impassível. A mãe entra na sala e solta um grito de horror. Na sua frente seu filho está estático, com um machado ensanguentado nas mãos e sobre a poltrona, no meio de uma mistura de sangue e massa encefálica está o cão da família.

História de Terror escrita por Aldo Almeida

E aí, o que você achou da História de Terror ‘Dúvida Cruel’? Deixe sua opinião aí nos comentários e não esqueça de classificá-la. Abraços Sombrios!

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