Eu Vou Pegar Vocês [História de Terror]

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Até que ponto os sentimentos de raiva e rancor podem ligar alguém a esse mundo mesmo depois da morte? E quanto isso pode afetar os vivos? Bom, isso é o que três amigos que viviam na pequena cidade de Alfenas MG vão descobrir.

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Matheus, Pedro e Thiago eram daqueles amigos inseparáveis. Brincavam juntos, estudavam juntos e também quando aprontavam das suas, aprontavam juntos.

Quase toda manhã, os três jogavam bola pelas pequenas ruas da cidade e quase sempre escolhiam jogar em frente à casa do Sr. Olívio, pois era a rua menos movimentada.

Sr. Olívio ou seu Olívio, como era chamado, era daqueles velhos bem rabugentos. Vivia sozinho, estava sempre de cara fechada e resmungando. Era muito reservado, ninguém sabia quase nada a seu respeito, apenas que era viúvo, que tinha dois filhos que moravam no exterior e que ele vivia de sua aposentadoria naquela enorme casa velha.

Quase toda vez que Matheus, Roberto e Thiago jogavam bola por lá, esta caía na casa do Sr. Olívio, quebrando vidraças, vasos, janelas e a cerca do terraço do andar de cima que o seu Olívio nunca conseguia terminar de arrumar antes que os garotos a quebrassem de novo. Ele saía bravo atrás dos garotos xingando e resmungando:

— Eu vou pegar vocês!

As crianças saíam correndo e rindo da forma engraçada do seu Olívio correr, ou melhor, tentar correr, já com seus mais de 70 anos de idade. Não que as crianças fizessem de propósito, mas a bola sempre terminava caindo na casa dele.

Da última, vez estavam os três meninos jogando bola, enquanto seu Olívio tentava pintar a cerca do terraço pela quinquagésima vez, já que sempre os garotos atrapalhavam de alguma forma. Foi quando a bola bateu na janela de um dos quartos e quebrou o vidro. Roberto cautelosamente pulou o muro e subiu no terraço que ligavam todos os quartos atrás da bola. Só que o seu Olívio escutou o barulho do vidro quebrando e saiu para ver o que tinha acontecido.

Roberto avistou a bola e pretendia pega-la sem ser visto e ir embora, mas levou um baita susto ao se deparar com o seu Olívio bem na sua frente que com uma cara assustadora disse:

— Eu vou pegar vocês! Hoje eu pego vocês!

Roberto assustado saiu correndo. Já estava quase pulando a cerca do terraço quando sentiu a mão do seu Olívio o segurar pela manga da blusa.

— Te peguei! Disse o velho.

Matheus e Thiago já estavam lá embaixo gritando:

— Pule Roberto! Pule!

Mas o seu Olívio continuou segurando Roberto pela manga da blusa, que não aguentou e rasgou, Roberto caiu sentado com tudo no chão e seu Olívio, que também se desequilibrou, caiu de cabeça no chão quebrando o pescoço.
Os meninos ficaram imóveis, pois não sabiam o que fazer. Então saíram correndo. Antes de cada um ir para sua casa, fizeram um pacto prometendo nunca contar aquilo pra ninguém.

Matheus entrou correndo em sua casa e se fechou em seu quarto. Sua mãe, que estava na cozinha, estranhou o comportamento do filho e subiu atrás dele para saber o que tinha acontecido, mas o menino disse que estava apenas com dor de cabeça e que queria dormir. A mãe dele desconfiou que Matheus tivesse aprontado alguma, mas deixou para perguntar mais tarde, depois que o pai dele chegasse do trabalho.

Roberto morava só com a mãe que trabalhava o dia todo. Então, chegou em casa, foi direto para o seu quarto e se cobriu com a coberta como se estivesse se escondendo.

Já Thiago chegou em casa e olhou para mãe com um olhar aflito, como se quisesse contar algo, mas se lembrou que havia prometido a seus amigos que jamais contaria a ninguém. Sua mãe percebeu e perguntou se ele queria falar algo, mas ele disse que não era nada e que precisava descansar. Foi para seu quarto e ficou deitado lembrando de tudo. Aquela imagem de seu Olívio caindo e o som do seu pescoço quebrando não saía de sua cabeça.

No outro dia, bem cedo, o jornaleiro foi entregar jornal na casa de seu Olívio e percebeu que tinha alguém caído no jardim. Ao olhar melhor, constatou que se tratava de seu Olívio que estava morto estirado no chão. Em pouco tempo toda cidade ficou sabendo.

Matheus estava dormindo, quando escutou o barulho da campainha e algumas pessoas conversando, desceu as escadas e viu uma moça conversando com seus pais e depois indo embora. Matheus perguntou aos seus pais o que tinha acontecido e eles responderam com semblante triste que seu Olívio tinha morrido.

O enterro seria à tarde. Matheus ainda estava se trocando quando Roberto e Thiago bateram em sua porta desesperados, dizendo que há poucos minutos, ao passarem na frente da casa de seu Olívio, escutaram sua voz gritando lá de dentro: “Eu vou pegar vocês”.

Matheus ao ouvir aquilo ficou irritado:

— Que brincadeira idiota! Hoje cedo deram a notícia da morte dele e o enterro vai ser hoje à tarde!

— Impossível! Nós o ouvimos agora há pouco! – disse Tiago.

Mas, depois de confirmarem o que Matheus tinha dito com a mãe dele, não tinha realmente como ter sido seu Olívio a pessoa a ter gritado aquelas palavras, uma vez que ele realmente estava morto. Mas então, quem teria dito aquelas palavras que só o seu Olívio dizia para eles?

À tarde, durante o enterro, Roberto teve a nítida impressão de ter visto seu Olívio entre as poucas pessoas presentes, mas não podia ser verdade. Então ele esfregou os olhos com as mãos para ver melhor e, num piscar de olhos, a tal pessoa que parecia com o velho, não estava mais lá. Ele não contou isso a ninguém, pois ficou com medo que dissessem que ele estava ficando louco.

Já de noite, todos já estava em suas casas, mas Roberto como sempre, estava sozinho, pois sua mãe tinha ido trabalhar. Então ele foi tomar um banho pra tentar relaxar um pouco, pois estava ainda muito abalado.

Durante o banho, Roberto ouviu alguém forçar a maçaneta da porta. Colocou a cabeça para fora do Box e perguntou se era sua mãe que havia voltado mais cedo, mas não houve resposta. Sentiu um frio na espinha e resolveu sair todo ensaboado como estava para abrir a porta e ter certeza se era sua mãe mesmo. Nem desligou o chuveiro e foi lá abrir a porta, mas por alguma razão ela não queria abrir mesmo estando destrancada.

Roberto começou a bater na porta chamando por sua mãe, mas ele não ouvia ninguém. Foi quando ele escutou um barulho que se parecia com um dedo deslizando na superfície do espelho embaçado com o vapor da água quente do chuveiro. Quando ele se vira para ver o espelho que estava atrás dele, consegue ler a seguinte frase no espelho: “Eu vou pegar vocês”.

Roberto fica desesperado, começa a gritar por socorro e a forçar a maçaneta o máximo que podia. Misteriosamente a maçaneta da porta se solta e, como o chão estava molhado e cheio de sabão que escorreu do corpo de Roberto, este escorregou com o impulso e caiu de cabeça na quina da escadinha do box. O sangue se espalhou e se misturou com água enquanto Roberto agonizava devagar. Quando sua mãe chegou, já era tarde, Roberto estava morto.

A notícia abalou profundamente Thiago e Matheus. Todos disseram que foi um infeliz acidente, mas Matheus e Thiago sabiam que não. Sentiam culpa, tristeza e medo, pois sabiam de alguma forma que eram os próximos.

Já tinham se passado três dias do enterro de Roberto, Matheus e Thiago mal saíam de casa.

Naquele dia Thiago tinha ficado incumbido de cuidar de seu irmãozinho de 5 anos, porque a mãe iria resolver alguns problemas até mais tarde. Ambos estavam na sala, Pedrinho jogava vídeo game enquanto Thiago estava deitado no sofá que rapidamente pegou no sono. Assim que acordou, viu a TV ligada, mas nem sinal do seu irmão. Procurou-o por toda parte da casa, mas não o achou. Saiu para o quintal e também não encontrou o garotinho, tudo que viu foi o portão do quintal aberto. Concluiu que seu irmãozinho tinha ido para rua e imediatamente foi atrás dele. Na rua, viu de relance seu irmãozinho dobrar à esquina. Correu para alcança-lo mas, quando dobrou à esquina, não o viu mais. Continuou andando e chamando por ele até que o viu entrando em uma casa, mas não era qualquer casa, era a casa de seu Olívio.

Thiago sentiu um estranho frio na espinha, mas entrou na casa atrás de seu irmão. Continuou chamando por ele até que o viu na beirada do terraço, próximo à cerca onde seu Olívio tinha caído.

Thiago não queria estar lá, mas não tinha escolha. Subiu o terraço e foi se aproximando de Pedrinho devagarinho, pedindo para que viesse ao seu encontro, enquanto prometia doces, brinquedos e etc. Quando estava bem próximo, o segurou pela roupa, mas o menino se desequilibrou e caiu. Thiago o segurou com todas as forças e tentou puxa-lo, foi quando ouviu um sussurro que disse em seu ouvido: “Eu vou pegar vocês”. Em seguida sentiu como se uma mão o empurrasse para baixo. Thiago caiu e, assim como o seu Olívio, quebrou o pescoço, morrendo instantaneamente.

Quando a mãe de Thiago chegou em casa, encontrou Pedrinho jogando vídeo game e perguntou a ele pelo seu irmão. Pedrinho então contou a sua mãe como Thiago estava estranho, que levantou do sofá procurando por ele e, mesmo ele estando bem na sua frente, era como se não o tivesse vendo ou ouvindo e que tinha saído para rua.

Preocupada, a mãe dos meninos saiu à procura de Thiago. Ligou para todos os seus amigos e bateu de casa em casa, mas nem sinal do garoto. Seus pais o procuraram a noite toda, mas foi só no outro dia de manhã que seu corpo foi encontrado no quintal da casa de seu Olívio.

Todos pensaram que foi suicídio, imaginaram que a morte de Roberto tinha sido demais para ele, apenas Matheus sabia que não poderia ter sido suicídio, assim como não poderia ter sido apenas um acidente que tirou a vida de Roberto e pior, sabia que era o próximo.

Matheus não conseguia mais esconder, contou tudo para seus pais sobre a morte de seu Olívio, do pacto que fizera com seus amigos de não contarem nada a ninguém e de como seu Olívio estava se vingando de cada um deles.
Seus pais não levaram a sério, disseram para Matheus que Roberto sofreu um acidente e que Thiago se suicidou justamente por se sentir culpado pela morte do velho. Então falaram para o garoto ficar calmo esquecer essa história.

Ele estava convicto que a morte de seus amigos não tinha sido um acidente e que ele seria o próximo. Contou então para sua avó, toda a história desde o começo. Ela acreditou em cada palavra que Matheus havia dito e lhe explicou que alguns espíritos ficam presos aqui neste mundo por causa de sentimentos como mágoa, rancor ou por assuntos inacabados. Aconselhou-o então a levar flores no túmulo de seu Olívio e em seguida arrumar a cerca que tanto seu Olívio tentou arrumar.

No outro dia bem cedo, após levar as flores no túmulo de seu Olívio, Matheus pegou algumas ferramentas de seu pai e foi até a casa do velho para arrumar a cerca do terraço.

Sentiu um terrível frio na espinha ao entrar pelo portão, mas seguiu em frente. Quando iniciou o serviço, começou a ventar bem forte, mas Matheus continuou. O vento ficou ainda mais forte e o menino escutou um sussurro em seu ouvido que disse: “Eu vou pegar vocês”, era como se o seu Olívio estivesse testando sua determinação. O vento estava tão forte que Matheus mal podia abrir os olhos, mas mesmo assim foi até o fim.

Aos poucos o vento foi diminuindo e os sussurros pararam. O garoto estava exausto, mas havia terminado: o terraço estava consertado. Ele saiu de lá aliviado e com a certeza de que tinha colocado um ponto final em tudo.

Mais tarde na escola, enquanto fazia suas atividades, Matheus viu riscada com um estilete em sua mesa a frase: “Eu vou pegar vocês”. Ele sentiu-se muito mal e pediu para ir ao banheiro. Chegando lá, lavou o rosto e já estava se sentindo um pouco melhor, quando olhou no espelho e viu escrita a mesma frase que acabara de ver escrita na sua carteira e, como se não bastasse, viu o espelho se trincar todo, sozinho, bem na sua frente. Matheus saiu correndo desesperado. Aquela coisa toda estava ainda pior. Será que tinha feito algo errado? Será que tinha deixado o espírito de seu Olívio ainda mais bravo? Matheus só queria que tudo aquilo acabasse de vez.

Ao verem que o garoto estava pálido e em estado de choque, os funcionários da escola ligaram para sua mãe, pedindo que o buscasse. Não demorou muito, sua mãe chegou e, sem dizer nada, assinou a autorização e levou Matheus.

Como a mãe estava muito quieta, Matheus foi tentando se explicar durante o caminho, mas sua mãe não falava nada, apenas o puxava pela mão enquanto andavam pela rua.

Matheus achou estranho, pois sua mãe estava fazendo um caminho diferente, mas ela estava tão calada que o garoto presumiu que ela devia estar bem brava, por isso achou melhor não comentar nada.

De repente ela parou. O menino perguntou porque ela estava fazendo aquele caminho e porque ela havia parado bem enfrente à casa do velho morto. Foi quando sua mãe se virou e o encarou. Seus olhos estavam todo pretos e, com um sorriso sinistro nos lábios, ela disse:

— Eu vou pegar vocês!

Então começou a arrastar o garoto para dentro da casa. Ele tentou se soltar dela, mas foi inútil, ela estava muito forte e ele nada pode fazer .

Matheus foi encontrado morto por estrangulamento algumas horas depois por umas pessoas que foram buscar alguns móveis do seu Olívio. Sua mãe foi presa por ter sido considerada culpada, mesmo alegando não se lembrar de nada do que acontecera desde a hora que atendeu a ligação da escola de Matheus. Ela foi condenada em função dos vestígios e de testemunhas que a viram puxando o garoto para dentro da casa.

O tempo passou, a história dos três meninos que importunavam um velho senhor tornou-se muito conhecida. Para alguns as mortes foram tristes coincidências, para outros o espírito amargurado de seu Olívio foi o responsável pelas mortes mas, para outros, bem como a mãe de Matheus, parece que tudo o que aconteceu nunca vai ter explicação.

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