A História de Terror ‘Inverno na Vila Verde dos Francos’ conta a história de uma investigadora que resolve tirar férias em outro país a fim de relaxar e deixar pra trás um pouco da forte rotina do trabalho. Porém, vocês bem sabem que não é isso que vai acontecer.

Era inverno na Vila Verde dos Francos em Portugal. Eu estava à passeio no país, visitando lugarejos e me reconectando com meu interior. A rotina maçante de trabalho, o sufoco de uma família tóxica e a solidão que me tomavam eram, unidas, resultadas em uma grande proporção de estresse.  Ir a estes lugares estavam me acalmando e me revigorando para retornar ao meu cotidiano.

Me hospedei nesta vila, onde a população mais parecia uma irmandade, dado o pequeno número de habitantes e a proximidade com que viviam. Na tarde em que cheguei, resolvi dar uma volta para conhecer mais da vila. As pessoas me saudavam como se nos conhecêssemos a anos. Algumas buscavam conversar e formar vínculos indicando restaurantes para jantar e passeios para fazer. Foi uma noite muito agradável e aconchegante.

No dia seguinte almocei em um restaurante local bem pitoresco. Estava tudo em paz quando um homem muito espantado entrou relatando que havia ocorrido uma tragédia na cidade. Uma família inteira foi assassinada com requintes de crueldade. Meu instinto investigativo falou mais alto, larguei meu almoço e parti para o local.

A casa era um pouco afastada das demais, com um pomar e uma cerca rústica ao redor dela. Assim que cheguei, me deparei com dezenas de pessoas e a polícia, todos espantados. Algumas choravam, outras incrédulas com o que ocorrera. Junto comigo, chegaram os legistas para recolher os corpos. Pude acompanhar o processo por ser investigadora da polícia de homicídios no Brasil. Era um casal de idosos com os rostos irreconhecíveis, uma mulher igualmente desfigurada e duas crianças que eram de fácil identificação por não terem seus rostos machucados, mas que possuíam hematomas por todo corpo.

A pergunta que pairava no ar era: quem teria feito aquilo?

As coisas tornaram-se mais assustadoras quando foram encontradas na residência muitas armas artesanais e paredes marcadas com sangue. As mortes haviam ocorrido na noite do dia anterior e havia evidências de que alguém havia preparado o jantar após cometer o crime. Para uma vila tão calma, aquela situação causava embaraço, pavor e desconfiança.

Quem seria o assassino?

A dúvida não durou muito, apenas algumas horas. O assassino apareceu. Será que apenas uma pessoa seria capaz de realizar tudo aquilo? Pois foram muitas vítimas e com muitos golpes que envolviam tacos com pregos nas pontas, martelos e a preparação de uma bomba artesanal que não tinha sido programada.

No entanto, o autor da chacina surpreendeu a todos. Ele estava no ponto de ônibus tentando fugir quando a polícia o abordou. Vizinhos relataram que ele havia passado a madrugada vagando pelas ruas e dizendo por telefone para alguns colegas que tinha feito uma loucura. Ele não tentou negar o crime, pelo contrário, depôs:

No dia do crime, ele havia chegado em casa e estava farto de seus familiares o tratarem com indiferença. Aconteceu um desentendimento por algo banal e ele atacou seu avô. Vendo que havia tirado a vida do velho, pensou que não havia mais nada a perder e atacou sua avó, depois sua tia e por fim seus primos, pois as crianças não mereciam viver para conviver com o que ele havia feito. Como ele possuía armas que havia fabricado, decidiu testá-las nos adultos, batendo neles mesmo após a morte. Ele só não estendeu para as crianças porque declarou estar muito cansado e sentiu fome. Então, preparou o jantar e alimentou-se.

Neste momento, ele teve uma crise de consciência e saiu para pedir ajuda. Como ele era meio estranho, ninguém acreditou em sua história. Por isso, ele voltou para casa e dormiu com os cadáveres. No dia seguinte levantou, tomou café da manhã e foi para seus afazeres. Ninguém que o viu naquela manhã imaginava o que ele teria feito. Algumas pessoas foram até a casa por sentirem falta do casal que sempre estavam trabalhando na horta ou tratando dos animais, entretanto, não entraram no local.

Ao chegar no horário de almoço, os vizinhos perceberam que os carros da família ainda estavam na garagem e que as crianças não haviam chegado da escola. Uma sobrinha do casal achou melhor insistir e ver se estava tudo bem. Após bater à porta e chamar muitas vezes, olhou pelas janelas e, foi quando viu o amontoado de corpos no quarto. O assassino soube da movimentação e não retornou para casa, tentou fugir e foi pego antes que conseguisse.

Sua explicação para tudo isso era de que sentia não fazer parte da família. No seu discurso, era visível a inveja dos primos, ciúmes dos avós, raiva da tia… Ele sentia mesmo era fascínio por torturar e matar. Ao puxar seu histórico, descobriu-se que fazia tratamento psiquiátrico, havia matado centenas de animais com crueldade e os estudados minuciosamente, porém ninguém o achava realmente perigoso. Ele queria que todos tivessem medo dele.

Para isso, contava histórias sombrias, planejava crimes em voz alta, possuía objetos assustadores, aprendia sobre mortes sangrentas. Mas nada fazia os outros acreditarem em sua coragem. Aquela chacina foi sua oportunidade de demonstrar quem realmente era. Ele sorriu quando assistiu ao vídeo dos corpos sendo encontrados e gargalhou com os olhares de medo que viu ao ser levado à delegacia. Demonstrou-se realizado ao ser levado ao camburão e encaminhado para unidade correcional psiquiátrica e ser escoltado por policiais fortemente armados, além de toda cobertura da imprensa da região.

Passei mais uma semana naquele vilarejo, sentindo o clima de pavor das pessoas que ali viviam, pois nunca havia acontecido algo assim naquele lugar. As pessoas não sabiam lidar com o luto, o medo, a tensão, a tristeza e a insegurança ocasionados por uma chacina tão cruel. Apesar de saberem que o autor estava internado e que demoraria para ganhar liberdade, a população temia porque ele deixou seguidores, pessoas que declaravam querer ter sua coragem.

Fazem dois anos que isso ocorreu, voltei para o Brasil para meus bônus e ônus, mas não me esqueço do olhar daquele criminoso perturbado, que cometeu uma chacina aos 13 anos de idade e formou seu exército de seguidores em uma sala de aula.

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