Confissões de Arthur G. Wells

Confissões de Arthur G. Wells história de terror

Eu havia conseguidoescapar da rotina, deixado para trás os estudos e os livros. Eram tão raras asocasiões nas quais eu conseguia desligar a cabeça que abracei a primeiraoportunidade que me apareceu.

Foi em umaquinta-feira. Assim que o sol nasceu, juntei minhas tralhas na caminhonete eparti para o sítio de um conhecido da faculdade.

Desejava apenaspescar, relaxar depois de meses de correria. A defesa de minha tese estavatirando o melhor de mim, e eu precisava daquilo. Quando Antônio me ofereceu achance de usar sua propriedade, eu não tive como negar.

Foram cerca de trêshoras de estrada até a entrada do sítio. Uma estrada de terra me levou até umaporteira de madeira, segura por uma corrente com cadeado.

O lugar era lindo.Uma pequena propriedade próxima a uma reserva florestal fechada. O rio cruzavaa reserva e passava por dentro das terras do meu caro colega. Haviam tambémalguns lagos naturais que se formavam dentro da propriedade.

Segundo Antônio me havia dito, haviam lagos semelhantes, maiores e mais belos, na reserva governamental. Alertou-me também de que a entrada era proibida e de que eu seria multado caso fosse pego lá dentro. Eu nunca fiz questão de correr riscos e não planejava começar naquele dia.

Demorei poucashoras para me instalar. Era, diga-se de passagem, uma bela casa no meio de umgrande pomar particular. Gostaria de ter a capacidade de retornar se possível,mas creio que jamais serei capaz de pisar naquelas terras novamente.

Arrumei meu equipamento de pesca e, o mais rápido possivel, me dirigi às margens do rio. Foram horas agradáveis, confesso. O clima estava perfeito para uma boa e velha pescaria. O sol espalhava-se pelo céu azul, mas não esquentava o suficiente para torrar a pele. Eu encontrei um cantinho com sombra e lá fiquei pelas horas que se seguiram, ansioso por um peixe para o jantar.

Minha vontade deveter espantado os bichos, pois não peguei nem um peixe sequer naquele dia. Fuiobrigado a jantar a comida que havia levado de casa. Arroz puro e alguma carneseca de sabor duvidoso. Ao menos as frutas do pomar eram doces e salvaram asobremesa.

Tive uma noiterelativamente tranquila, salvo alguns mosquitos que insistiam em encontrar asfalhas em minhas roupas para saborearem o meu sangue.

Na sexta-feira ahistória ocorreu de forma bem semelhante.

Eram duas horas da tarde e eu , sem almoço, ainda não havia sido capaz de pescar um único peixe. Juro que era como se não houvessem mais peixes naquele rio. Não havia sinal de movimentação, nada parecia tocar a minha isca.

Decidido, resolvi que mudaria de estratégia e passei a explorar os pequenos lagos que se formavam pela propriedade. Passei pelo pomar, peguei algumas frutas que me dariam sustento até ao anoitecer e fui atrás de águas mais fartas.

A noite caiu e para a minha mais profunda frustração ainda não havia sido capaz de garantir o meu jantar. Alimentei-me novamente com arroz puro e frutas do pomar. Por mais que o começo da viagem tenha sido divertido e relaxante aquela situação já estava me estressando; eu queria pescar e, por deus, eu iria tentar de tudo. Não me entenda errado, eu não sou o tipo de pessoa que costuma transgredir a lei, mas que mal haveria em pescar em um dos lagos da reserva?

No dia seguinte, eu tentei pescar no rio por mais algumas horas pela manhã. Sem obter qualquer tipo de sucesso, passei a subir rio acima, pelas trilhas que ia encontrando aqui e ali. Em busca de um local propício à atividade, segui por um caminho de pedras que me levou até uma enorme cerca de metal. A cerca estava bem desgastada, enferrujada e velha. Não demorei nada até encontrar um ponto falho – algum animal tinha derrubado uma parte da tela.

Com certa dificuldade, atravessei pela falha da cerca e segui mata adentro seguindo as margens do rio. Desde o momento que atravessei a cerca sentia a cabeça leve, achei que o calor da mata estava me fazendo mal, mas continuei. Depois de cerca de uns dez minutos caminhando, me deparei com uma trilha de terra batida que ia para dentro da mata. Como a pescaria não estava dando certo no rio, resolvi arriscar e seguir a trilha, apostando que ela me levaria até um dos belos lagos que Antônio descrevera.

Me faltam palavraspara dizer o quão injusto meu amigo havia sido. O lago em questão era enorme,cercado pela mata. Flores e ervas das mais variadas se espalhavam pelavegetação rasteira e enormes árvores frondosas distribuíam-se pela margem,criando pontos de sombra. O sol iluminava o centro do lago e criava umcontraste entre os tons esverdeados da água. Não era cristalino, longe disso,era turvo e cheio de vegetação pela superfície. Havia pouco movimento na florda água, mas eu conseguia ver alguns peixes a banhar-se no sol.

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Sem demora encontrei onde me sentar e lancei a isca para a água, ansioso por capturar um dos segredos que aquele lago certamente guardava.

Os minutos foram sepassando e eu finalmente vi a boia se movimentar. Os peixes estavam lá, sófaltava agora capturá-los

Era como se eles fossem inteligentes. Toda vez eles se aproximavam e começavam a mordiscar a isca, mas nenhum deles realmente se comprometia com o anzol, quase como se estivessem atentos à armadilha que os esperava.

Os minutos passavame eu, obstinado, insistia. Já devia passar do meio dia, distrai-me olhando asflores ao redor do lago e não percebi a bóia afundar. Quando voltei os olhospara a água, demorei alguns segundos para me tocar que ela havia desaparecido.Puxei a vara com toda a força para cima e me levantei num pulo.

Finalmente. Finalmente a coceira havia sido coçada. Tinha pego um peixe e, pela resistência na vara, era um dos grandes.

Entortei o corpopara trás e puxei, mas por mais que a sentisse a mobilidade no anzol, pareciaque tinha era enroscado em um pedaço de madeira. Enrolava o carretel comdificuldade, mas a sensação era estranha, mais pesada do que deveria. Se fosseum peixe tão grande a linha deveria arrebentar.

Avistei uma sombrase formando na direção da linha, o peixe estava quase à superfície da água. Asombra foi aumentando e com ela, minha felicidade foi diminuindo.

Tinha escamas, issoeu pude constatar logo de cara, eram verdes e cobertas por uma substânciaviscosa. Formavam um padrão vertiginoso que parecia se modificar ao que acriatura se movia. Tinha olhos também, algo na casa de umas duas dezenas oumais, vermelhos com a íris alaranjada. Os olhos espalhavam-se pela partesuperior da cabeça de seja lá o que aquilo fosse. Os braços que se projetavamde perto do pescoço lembravam-me pernas de rãs sem o couro.

Eu desejei corrermas meu corpo já não me obedecia. Minha cabeça ameaçava desligar-se diante doque se revelava a minha frente.

Ele se moveu.Ergueu-se do lago como uma criança que se levanta de sua banheira e seaproximou. Eu pude ver que o padrão que parecia se mover era formado por umacentena de criaturas menores, presas ao corpo da maior. Pareciam vermes, quasetranslúcidos, o padrão transmorfo era criado por seus órgãos se movendo sob apele.

Quis gritar, masmeu cérebro não mais raciocinava. Não consegui formar palavra alguma e apenasbalbuciar sem sentido.

Ao lado da cabeça,o que pareciam ser guelras se abriam. Repletas de fileiras e mais fileiras deespinhos rígidos em tons de cinza, a carne tinha um tom lavanda presente apenasnos lábios dos cadáveres mais putrefatos e inchados.

Tentei chorar, masnem isso meu corpo era capaz de fazer. A Criatura gigantesca se curvou sobremim e os seus múltiplos olhos voltaram-se, um a um, para mim. Todas a célulasde meu corpo já haviam aceitado o fato de que eu iria morrer.

O ar vibravaenvolta da criatura. Senti uma pontada forte e intensa no topo do meu crânio, ea agonia inicial amenizou-se, momentaneamente, a um desconforto.

Por meiosdesconhecidos, a criatura se comunicou comigo, e a agonia voltou ainda maisforte. Tinha uma voz que emanava dos meus ossos, como se uma faca arranhasse osmeus ossos. Perguntou-me o que eu fazia ali. Minha boca não se movia, meu corpotodo parecia estar reagindo a presença daquela coisa inimaginável.De algumaforma aquilo extraiu a resposta do meu interior. Senti-me invadido, como semilhares de vermes perambulassem pelo meu ser.

A criatura pareceudivertir-se com a minha resposta, mesmo que eu não soubesse exatamente o quehavia respondido. Para a minha surpresa ele agora sabia que eu estava ali parapescar e relaxar, afastando o estresse dos estudos.

“Possoajudá-lo com isso.” Cada palavra enchia o meu ser de agonia e dor.

Um dedo descomunalse levantou e tocou-me; sua unha era do tamanho do meu tórax. Senti a gosma,que formava uma fina camada sobre a sua pele, umedecendo e escorrendo pelasminhas roupas.

O couro na ponta dodedo irrompeu-se e da fissura uma larva cristalina de olhos avermelhadossurgiu. Observei horrorizado enquanto a criatura deslizava de seu hospedeirooriginal para meu ombro. Sem conseguir mover sequer um músculo, fui obrigado asuportar a dor que veio a seguir: a Larva mordeu minha carne e enterrou-se demaneira lenta e excruciante em meu ser. A dor foi grande demais para suportar eminha consciência vacilou.

Acordei horasdepois. Havia sido largado por um transportador invisível do lado de fora dacerca. De imediato, passei a investigar o meu próprio ombro atrás de sinais doverme que havia me infestado, mas com o tato não podia sentir nada dediferente. A segunda coisa que notei foi que meu equipamento de pesca haviadesaparecido.

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Ao chegar em meuabrigo temporário, corri para o banheiro e usando um espelho inspecionei asminhas costas.

O suor geladocorreu pela minha testa, no lugar que havia sido “mordido” um símbolohavia surgido. Assemelhava-se a duas flechas apontando em direções opostascortadas por uma linha sinuosa.

Aterrorizado, nãoesperei um minuto sequer para correr até meu carro e partir.

Naquela noite, meescondi em casa e recusei-me a sair. Mesmo com aquele símbolo em minhas costaseu estava disposto a deixar-me esquecer o acontecido, eu diria até que meucérebro demandava o esquecimento. Contudo, durante o banho, fui acometido pormal súbito e antes que pudesse sair do chuveiro, comecei a vomitar umaquantidade considerável de sangue. O medo mais uma vez tomou conta do meu ser,principalmente quando comecei a regurgitar pedaços grandes de uma carne deaparência visceral.

Submeti-me a todo otipo de exame médico e nenhum dos doutores que procurei foi capaz de encontraralgo de errado comigo; muito pelo contrário, diziam que eu era dono de umasaúde invejável. Quando sugeri a um dos médicos que talvez um dos meus órgãosestivesse faltando e perguntei se alguém poderia vomitar um órgão fuirespondido com um olhar preocupado de quem encara um paciente psiquiátricoperigoso.

Mostrei a marca emminhas costas a um amigo historiador e perguntei-lhe se havia significado.Tamanha foi minha surpresa quando ele respondeu-me com um “quêtatuagem?” que , desconcertado, dispensei o assunto como brincadeira.Creio que seja o único capaz de ver a marca que a entidade me deixou.

Entenda que esta éa primeira vez que replico esta história. Não consegui criar coragem para dizera nenhum dos médicos o que havia me acontecido.

Hoje coloco estaspalavras no papel apenas por preocupação de que algo aconteça a mim no futuro enada reste para elucidar o caso.

Veja bem, incapazde determinar o que estava acontecendo comigo, segui com minha vida.

Escolhi não pensarno que havia acontecido e voltei minhas energias aos estudos.

De imediato noteique a minha escrita havia melhorado consideravelmente. Os pontos controversosde minha tese não pareciam mais tão complexos como antes. Mesmo nas conversascom meu orientador passaram a ser mais produtivas, ele insistia em me banhar emelogios a cada progresso que fazíamos. Defendi minha tese com uma eloquênciamagnífica e fui aprovado.

Era como sequalquer dificuldade intelectual tivesse cessado. Lancei-me a pesquisas maiscomplexas e controversas em meu campo e em todas fui agraciado com a mesmafacilidade que havia tido nos meses finais de minha tese.

Para alguns issoseria uma benção, mas aquilo me causava terror.

“Possoajudá-lo com isso.” as palavras daquela aparição ecoavam em minha mente.Qual seria o preço de tal ajuda?

Foi no dia da minhaprimeira palestra como doutor que eu os notei pela primeira vez. Dois homens nafileira do fundo, usando sobretudos marrons, olhos fixos em mim, anotando cadapalavra que saia de minha boca. Seus olhos variando entre tons normais e o maisprofundo laranja. Só deus sabe desde quando eles estão me observando. Mesmoenquanto escrevo estas linhas sinto seus olhos a me seguir, relatando cadamovimento meu para uma entidade desconhecida.

Desde então eu ospercebo. Me seguindo pelas ruas, parados aos portões de meu prédio. Sei queeles estão lá, mesmo agora.

Talvez sejamagentes do governo, pois meu nome estava em todo o meu equipamento de pesca.Tenho certeza que desconfiam de mim. Sabem que entrei naquela propriedade e quealgo me aconteceu. Observam-me como eu observo os ratos em meu laboratório.

Tenho medo que, emtempo, decidam dissecar-me. Temo também saber o que eles encontrariam em meuinterior.

A cada dia quepassa sinto que mais e mais de mim deixa de ser humano. A cada pesquisa sintoque mais partes de meu corpo são substituídas. A cada desafio científico quevenço, morro um pouco.

Deixo esse relatoem caso de meu desaparecimento ou, em uma situação mais extrema, minha morte.

As criaturas seproliferam a cada novo av anço que faço, mas a minha vida dificilmente tem pesomaior do que a minha pesquisa. Voltarei ao laboratório e aproveitarei o tempoque me resta, talvez cercado pelos outros estudiosos os homens de sobretudo nãome alcancem.

Talvez minhapesquisa mude o mundo. Rezo para que isso seja verdade.

Ass.

Arthur G. Wells

História de Terror escrita por Marlon Borlachenco

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