Olhos Brancos [História de Terror] - Mundo Sombrio

Olhos Brancos [História de Terror]

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Um ruído forte me traz de volta à realidade. O ronco do motor acelerado ao comando do piloto me desperta em pleno voo. Ainda meio tonto de sono consulto as horas na tela brilhante do celular.

Passou-se apenas um quarto de hora depois da decolagem. O monomotor cruza os céus selvagens da Amazônia com velocidade. Segundo meus cálculos estamos na metade do caminho.

Pela janela consigo ver um mar verde. Árvores de diversas espécies e tamanhos formam um tapete sem fim, cortado às vezes, por vias sinuosas d’água.

Estou assim, distraído em meus pensamentos, contemplando a magnífica paisagem quando o piloto me informa que vamos pousar.

A aeronave de pequeno porte começa a perder altitude e vejo à minha frente uma clareira com uma extensa faixa de terra batida. Depois de alguns solavancos, o transporte aéreo para totalmente. Pouso perfeito!

Retiro minhas coisas, dois sacos de campanha. O piloto me avisa que retornará em dez dias e o avião decola novamente. Esse é o tempo que tenho para descobrir o porquê de tantas mortes na tribo dos Pirahã. Fico ali no meio do nada aguardando o meu guia.

Meia hora depois vejo surgir por entre as folhagens um sorridente indígena seminu com faixas vermelhas pintadas pelo corpo. Ele se apresenta em bom português e pede para segui-lo.

Ubiinahã estudou em escola na cidade e agora ajuda nos contatos com os visitantes. Curioso e falante, questiona sobre minha presença ali. Respondo que sou parte de uma equipe de epidemiologistas e minha missão é descobrir a razão das mortes na aldeia. O homem primitivo estaca, volta-se para mim e me encara com um olhar sério, quase sombrio. Abaixa-se e pede para imitá-lo. Coloca o dedo nos lábios fazendo sinal de silêncio e balbucia alguma coisa em sua língua nata. Fiz sinal de que não entendi, então ele repete quase num sussurro:

-Cuidado, a floresta escuta.

Não me preocupo com as palavras de Ubiinahã. O medo e a crença em seres ocultos na floresta faz parte do folclore indígena. Da minha parte acredito que missionários, bem intencionados, mas despreparados, trouxeram algum vírus no organismo e infectaram essa gente desprovida de defesas imunológicas. Doenças de outros povos se espalham em aldeias como fogo na palha.

Um cheiro forte de terra úmida se espalha no ar e o vento suave da tarde amena a temperatura da selva tropical. Já estamos no lusco-fusco quando Ubiinahã me indica a direção. Vejo logo à frente um círculo enorme formado por placas de palha engenhosamente trançadas. Não são tabas separadas. Uma única construção abriga a todos. Um exemplo de convívio comunitário. Sob o telhado vegetal várias redes sustentam homens, mulheres e crianças. Aqui e ali, fogueiras crepitam aquecendo os corpos desnudos.

Minha presença não provoca curiosidade, apenas alguns olhares me acompanham quando deito na rede que Ubiinahã me cedeu.

Aos poucos o sol se apaga e a luz das fogueiras projeta sombras dançantes. Os silvos longínquos das aves e o murmúrio das águas que correm soltas no rio próximo me embalam o sono.

Acordo na manhã seguinte sentindo um açoite em minha mão. Instintivamente puxo o braço sentindo uma ardência, como uma picada de formiga. Ao meu lado está uma indiazinha que parece muito indignada. Ela segura um chicotinho na mão e repete palavras na sua língua primitiva. Uma mulher aparece, ralha com a menina e a puxa pelo braço. Devo ter perdido o alvorecer, todos já estão de pé. Não há falação, não há gritos, não há alegria. As expressões são de tristeza tornando o clima na comunidade bem pesado.

Desço até o rio e lavo meu rosto e braços na água fria. Volto e pego meus instrumentos de trabalho: Um estetoscópio, seringas e potes para recolher amostras. Procurei Ubiinahã para me levar aos doentes. Encontrei-o sentado na alfombra preparando seus apetrechos de pescaria.

Pedi para interromper seu trabalho e me mostrar os doentes. Ele me encarou sorrindo e respondeu que não existem doentes ali. Fiquei confuso e Ubiinahã me explicou que as mortes ocorrem repentinamente e ninguém sabe quem será o próximo, como se o espírito da floresta roubasse a alma dos Pirahã. Isso para mim significa que o trabalho ficou mais difícil. Se não estão apresentando sintomas então o vírus deve ser mais agressivo do que eu pensei. O agente se instala e mata quase que instantaneamente. Preciso agir rápido e descobrir o que se passa ou isso pode virar uma epidemia por outras aldeias e chegar às cidades.

Depois de pegar meu equipamento de proteção individual, solicitei ao meu guia para me levar aos corpos das últimas vítimas. Foi difícil convence-lo. Pedi então que me mostrasse de algum local próximo qual a direção tomar. Assim o fez.

Subimos uma colina entre a mata fechada e o indígena apontou um campo logo abaixo, onde existe uma gruta, lá estão os corpos, disse ele. Bateu duas vezes com a palma da mão no meu ombro, desejou-me boa sorte, deu meia volta e retornou para a aldeia.

Com uma mochila nas costas e me apoiando com uma bengala improvisada, desci a colina até o local indicado. Mais abaixo vi uma enorme abertura entre as rochas, exatamente como Ubiinahã havia dito. Não tinha ideia de que era tão grande. A gruta se projeta em um extenso paredão e algumas rochas do tamanho de automóveis estão empilhadas na entrada.

Coloco meu E.P.I. Preciso me proteger, os corpos podem conservar o vírus ainda. Tenho que escalar as rochas se quiser entrar na gruta. Seria fácil, mas com macacão impermeável, luvas, botas e máscara, vai ser um desafio e tanto.

A primeira pedra foi fácil, mas quando pulo para a segunda meus pés escorregam. Começo a deslizar sobre a rocha inclinada. Meu corpo rola e cai pesadamente em uma pilha de sacos de tecido, semelhante às redes em que os Pirahã descansam.

Um forte odor de carne podre faz minhas narinas arderem.

Deitado na mesma posição final da minha queda, giro a cabeça para o lado. Um choque visual faz meu coração quase saltar pela boca. Bem ao meu lado está um cadáver com os olhos brancos bem abertos. Pulo para o lado e tento me levantar. Apoio minhas costas nas pedras, mas meus pés estão mergulhados numa mistura de panos e carnes podres.

A visão é macabra e impressionante. Mais de uma centena de corpos estão ali, jogados uns sobre os outros, enrolados em redes de dormir. Muitos estão apodrecidos, mas grande parte está apenas no início da decomposição. Mortes recentes.

Aquilo é definitivamente uma epidemia grave.

A quantidade de mortos é muito maior do que imaginei. Preciso voltar urgente para a tribo e tentar dar o alerta aos meus colegas na cidade. Preciso de reforços.

Pego uma seringa e colho sangue de um dos cadáveres. Escalo novamente as rochas. Quero sair desse lugar sinistro o mais rápido possível. Subo a colina e entro na selva. De repente fico com uma sensação enorme de que estou sendo seguido. Ouço passos em minha direção.

Paro de andar e aguço os ouvidos. Ouço apenas aves cantantes e o ruído do vento. Começo a caminhar e o som dos passos junto com os meus inicia novamente. Parece tão próximo.

Assustado, me ponho a marchar mais rápido. É nítida a impressão de que estou acompanhado. Ouço a respiração de pessoas a minha volta. Olho apenas para frente e agora gemidos sussurrantes ecoam pelo ar.

Passo a correr sem me importar com a vegetação espessa que atravesso pelo caminho. O fôlego acaba, pois não sou nenhum atleta e paro para respirar. Um grito bem perto do meu ouvido quase me mata do coração. Caí sentado no chão. É um grito de lamento seguido de um choro de mulher.

Olho para todos os lados procurando a origem do som e encontro. Atrás de umas folhagens está uma mulher de costas. É uma índia com longos cabelos. O corpo todo está cheio de vermes que abrem orifícios e desaparecem dentro da pele podre. Ela cessa o lamento e começa a se virar lentamente.

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Completamente apavorado fecho os olhos e, nesse momento uma mão pega no meu ombro. O meu grito despertou todas as aves da região e várias saíram em revoada. Quase tive um desmaio.

Quando me recompus vi meu amigo Ubiinahã na minha frente me chamando e me segurando pelos braços. Veio me buscar para dizer que não havia necessidade de procurar corpos na mata, pois mais três pessoas morreram na aldeia. Aliviado por ter companhia, segui o índio novamente até a aldeia.

Na tribo a comoção é geral. Mulheres proferem lamentos em voz alta. Homens se açoitam para exprimir sua dor. Choro e até gritos de desespero. Pergunto à Ubinahã o porquê de tanta lamúria. Ele me leva até o falecido e entendo. É o cacique. Está da mesma forma que os cadáveres que havia visto há pouco. Olhos totalmente brancos, bem abertos.

Quando me aproximo com uma seringa vários braços me seguram. Aparentemente o cacique é quase uma divindade para seu povo e tocar em seu corpo é proibido. Tive que procurar as outras vítimas.

Lágrimas me vieram aos olhos quando vi o corpo da pequena índia que me chicoteou de manhã. O outro cadáver é de uma idosa e todos tem a mesma característica dos olhos brancos. Agora pelo menos eu tenho uma vantagem. Eu vi uma das vítimas antes de morrer e de manhã a criança aparentava estar totalmente saudável.

Preciso voltar à cidade e relatar o que está ocorrendo. Necessito de mais equipamentos e de todo o grupo de cientistas ali. Temos que isolar a tribo e recolher os cadáveres imediatamente.

Participo então ao meu guia sobre a necessidade de voltar antes do previsto. Ele me respondeu que isso é impossível. A aldeia Pirahã está muito distante de qualquer povoado, levaria mais do que dez dias para chegar a algum lugar com comunicação. Aconselhou-me a esperar o avião que chegará daqui a nove dias, mas sei que nesse tempo todos vão estar mortos.

Implorei por uma forma qualquer de atravessar a mata. Poderia usar uma canoa e percorrer os rios até um lugar onde possa fazer contato com a cidade. Ubiinahã explicou que nenhum Pirahã se arriscaria em uma viagem tão perigosa. Vou ter que agir sozinho com os recursos que tenho e rápido.

Sinto que o mal que aflige essa aldeia vai me matar também. Não tenho tempo de fazer uma pesquisa mais elaborada. Vou partir das informações dos próprios indígenas.

A noite cai mais uma vez, trazendo a angústia e a ansiedade a todos. O medo é geral.

Saio à procura de Ubinahã e percebo que uma grande fogueira foi acesa no centro da tribo. Muitos índios formam um círculo e correm em volta do fogo enquanto proferem uma cantiga estranha que parece mais com gritos desconexos. Ubiinahã está no meio deles.

Logo que cessou a celeuma me dirigi a ele e me recebeu com o mesmo sorriso e simplicidade de anteriormente. Então peço para me explicar o que estavam fazendo. Ele me conta que se trata de um antigo ritual para afastar o espírito de Kaoaiboge. Ubiinahã baixa o tom de voz, traga uma fumaça que se desprende de um pequeno fogareiro feito de pedras e começa a narrar:

-A tribo Pirahã descende dos primeiros homens. Foram os Pirahã que construíram o mundo. Mas os homens foram maus. Muitas guerras foram feitas entre as tribos. Para punir os homens, o Igagai, o ser supremo, enviou um espírito maligno, o Kaoaiboge. Esse espírito vive na floresta e a cada cem luas, vem se alimentar das almas do povo da floresta.

-Mas por que ele faz isso? Perguntei interessado.

-Para não haver guerra. É um castigo. Com poucos Pirahã, não tem disputa, não tem competição, não tem guerra. Já fomos muitos, mas agora estamos morrendo.

Procurei uma lógica na história de Ubiinahã, afinal não posso ignorar o evento que me ocorreu na floresta. Mas não encontro nenhum sentido ligado com as mortes. Deito em minha rede. Preocupado com tudo que está acontecendo não consigo dormir. Minha mente está fervendo. Preciso encontrar respostas.

O cansaço finalmente vence minha resistência e mergulho em um sono profundo. Começo a sonhar com os corpos putrefatos que encontrei na gruta. Todos gritam em desespero e estou afundando no meio deles. Braços me envolvem puxando meu corpo para baixo. Acordo com um pulo, o movimento me desiquilibra e caio no chão. Minha rede está toda embolada.

Olho em volta e percebo que minha agitação não foi suficiente para despertar ninguém. Ainda é alta madrugada e todos adormecem. Sinto meu coração bater muito rápido por causa do pesadelo e tento me acalmar. Estendo novamente a rede e me deito. Poucas fogueiras ainda estão acesas. A fumaça se ergue tornando toda a paisagem nebulosa. Percebo um movimento estranho. Em uma das redes um rapaz começa a tremer. Salto da minha rede e corro para ajudar. Grito por socorro para acordar a aldeia e alertar a todos. Muitos acordam, mas não se movem por não saber o que está acontecendo.

O jovem fica estático, infelizmente é muito tarde. O corpo está rijo, arqueado, seus olhos estão brancos e bem abertos. Uma mulher chega-se junto ao corpo e cai em prantos. Todos começam a perceber o que ocorre e se aproximam assustados.

É nesse instante que vejo uma moça que convulsiona em uma rede próxima. As pessoas correm até ela e algumas mulheres tentam reanima-la massageando o corpo que estremece todo. A tentativa foi em vão. Logo ela revira os olhos que ficam totalmente brancos e para de se mexer.

Aquela noite foram oito mortes ao todo. Senti-me impotente. Eu vi todos morrerem, um a um. Não pude fazer nada e isso me deixa extremamente deprimido. Como explicar tal fenômeno? Minha tese sobre uma doença viral se sustenta cada vez menos. Preciso agir, fazer algo para salvar essas pessoas desesperadas.

Levanto antes do amanhecer, pego minha mochila e entro na mata. Não sei o que estou procurando, mas se existe um espírito da floresta as respostas que preciso devem estar aqui.

Circulo por horas. O sol agora está a pino e o calor me incomoda. Resolvo voltar para a aldeia, frustrado por não encontrar nenhuma pista.

Estou passando por uma das trilhas quando vejo algo no meio da selva fechada. É uma pequena taba. Aproximo cauteloso, pois as tribos nessa região costumam ser rivais. Começo a contornar lentamente a choupana e vejo um velho índio de joelhos diante de uma pequena fogueira. Ele joga algo no fogo e uma fumaça vermelha se levanta no ar. Ele coloca os braços para o alto e diz várias coisas em uma linguagem diferente. Com certeza não é um Pirahã.

Ele não me vê. Não parece oferecer perigo então chego mais perto. Quando o homem percebe minha presença se assusta. É muito idoso e seu corpo é frágil. Ele se atira a meus pés e parece pedir clemência. Eu me abaixo e tento, por gestos, demonstrar que não vou lhe fazer nenhum mal.

Ajudo-o a se levantar e o ancião exibe um meio sorriso com a boca desdentada. Falando ainda na sua língua ininteligível entra na sua pequena cabana fazendo sinal para que o siga. Agitado começa a mostrar vários objetos. Penas coloridas, cuias de barro, partes secas de animais e vários tipos de folhas. Faço sinais para ele na tentativa que me entenda. Quero mostrar que investigo o motivo das mortes na aldeia.

Finalmente acho que deixo claro minha intenção através de vários desenhos que rabisco no solo. Parece que o velhinho entendeu, porque de súbito ele salta e pega uma cumbuca, joga folhas e diferentes ervas e amassa a mistura com uma agilidade incrível. Ele então me apresenta o recipiente com a receita pastosa. O cheiro é de merda estragada. Faz sinal para beber. Engulo seco e balanço negativamente a cabeça. O velho índio me aponta os desenhos que fiz na terra e insiste para que eu beba a mistura. Acho que esse homem é um pajé e sugere que essa gosma pode me ajudar de alguma forma. Não sei mais para quem apelar, então resolvo entrar no jogo da pajelança.

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Tomo tudo em um gole só. O gosto é tão amargo que minha língua amortece. Segundos depois de ingerir o coquetel asqueroso começo a sentir tontura. Tento me levantar e minha visão está turva. Desiquilibro e desmaio antes de atingir o chão.

Agora estou novamente diante da gruta macabra. Horrorizado vejo os cadáveres deslizando pelas rochas, deixando a cova comum. Logo um exército de mortos vivos marcha em minha direção. Não consigo me mover, estou paralisado.

Quando chegam bem na minha frente todos param. Vejo seus olhos brancos e inexpressivos. Nesse momento todos apontam para o lado. Obviamente querem que eu veja algo. Mesmo apavorado olho pra a direção que apontam. Vejo um índio de costas. Está abaixado fazendo alguma coisa.

Chego bem próximo e vejo claramente agora. Diante dele estão alguns objetos, ervas e um grande pote. Dentro desse pote, vários sapinhos coloridos. Conheço esses animais. São famosos pela quantidade de veneno que secretam pelo corpo.

O índio ferve folhas de plantas espinhentas e banha os sapinhos com o chá. A poção se torna escura. Ele então molha a ponta de uma folha e a oferece a uma galinha. O bicho bica a folha e cai no chão no mesmo instante. Nem se debate, morre instantaneamente ao tocar no veneno. Reparo que o animal ficou com os olhos totalmente brancos. O índio passa a salpicar a mistura venenosa em todos os objetos: Cuias para beber água, cestos, colares e um pequeno chicote. Quem tocar nesses utensílios e levar a mão à boca, provavelmente vai ter o mesmo destino que a ave.

O índio maquiavélico se levanta e sorri satisfeito. Meu coração dá um salto por reconhecer o rosto do assassino. É o meu guia, meu amigo Ubiinahã.

Acordo desse pesadelo lúcido assustado com a revelação. Estou ainda na taba do pajé. Meu corpo está dormente e repousa sobre uma esteira. Está muito escuro. Deve ser madrugada. Não sei quanto tempo fiquei desacordado.

Em um canto o pajé ressona tranquilamente em sua rede. Será todo esse sonho verdade? Ubiinahã estaria envenenando seu próprio povo? Mas por que faria isso?

Levantei sentindo ainda os efeitos alucinógenos da bebida que me levou à epifania. Preciso voltar à aldeia e verificar se tudo isso é fato.

Caminhei durante algum tempo e visualizo a tribo logo mais à frente. Quando chego me toco sobre um problema que não havia atentado antes. Como avisar a tribo sobre Ubiinahã se não falo a língua dos Pirahã e ele é o único interprete? É melhor deixar isso para depois, primeiro preciso verificar se o que me foi revelado é verossímil ou é um engodo.

A tribo está acordada apesar do dia ainda não raiar. Ouço lamúrias em uníssono. No meio da aldeia cinco corpos estão envoltos em suas redes. Mais mortes ocorreram enquanto eu estava fora. Minha tristeza se transforma em ódio.

Procuro Ubiinahã com as mãos trêmulas. Encontro o homem em um canto, tranquilo, sentado em uma esteira, comendo uma mistura branca. Resolvo usar a tática do jogar verde. Chego bem na sua frente. Ele levanta os olhos e sorri para mim com a boca lambuzada de mingau. Então o encaro e simplesmente falo:

-Por quê?

Ele torna a expressão séria e me encara por alguns segundos. Parece entender do que estou falando. Levanta lentamente e se posta bem na minha frente.

-Vocês da cidade não sabem nada. Diz ele com uma voz sombria que eu ainda não havia escutado. E continua:

-Com tantas tralhas e máquinas só descobriu agora o veneno? Quer saber por quê? Eu te conto se isso te deixa feliz. Eu era muito pequeno quando me mandaram para a cidade. Eu não queria, mas fui obrigado. Estudei na escola e morei com um casal na cidade. Esse casal se tornou meu pai e minha mãe. Morei com eles até ficar adolescente. Senti vontade de conhecer meu povo, os Pirahã. Meu pai me trouxe. Ele não sabia que eram tão isolados, tão selvagens. Viemos pela floresta, em barcos pelos rios. Quando chegamos os Pirahã nos atacaram. Meu pai foi massacrado na minha frente e eu, como tenho todas as características dos Pirahã, fui levado para a tribo. Aquele dia resolvi que mataria todos. Demorei a entender os costumes e aprender todos os truques da tribo. Até que conheci as espécies venenosas de plantas e animais e desenvolvi o veneno perfeito. O veneno permanece ativo por dias. Basta um toque e sua pele se contamina. Quando toca na boca a morte é rápida e certa.

Meu ódio cresceu ao ver seu sorriso cínico. Esse é o momento de acabar com as mortes.

Calço uma luva e começo a jogar todos os objetos que encontro no fogo. As mulheres me olham assustadas e os homens tentam me segurar. Faço sinais para que entendam que aqueles objetos podem fazer mal. Jogo potes de barro no chão e se espatifam em vários pedaços. Vários índios me seguram e me empurram para fora da taba. Percebo que não vão me entender que estou tentando salvá-los e o único que pode esclarecer o que está havendo é Ubiinahã.

Não encontro alternativas. Preciso matá-lo. Não sei como. Nunca tive coragem de matar nem animal, muito menos um homem. Mas preciso fazê-lo.

Peguei um pedaço maciço de madeira, um tacape. Alguns golpes bem fortes na fronte devem resolver o problema e a aldeia estará salva. Vejo Ubiinahã dentro da taba conversando animadamente com alguns índios. Vou me aproximando lentamente. Chego por trás do homem e com o tacape em riste. Quando estou pronto para dar o golpe, quem sente uma pancada na cabeça sou eu. Sinto uma dor aguda que me faz cair. Um filete de sangue escorre pelo meu rosto e tudo fica escuro.

Acordo em meio a gritos festivos. Tento me mexer mas estou em pé com o corpo todo atado em uma estaca Vejo vários índios a minha volta com trajes estranhos. São saiotes feitos com palha seca. Seus corpos estão pintados com tintas coloridas. Quem está mais ornamentado é Ubiinahã. Ele para bem na minha frente e diz:

-Vou contar a você uma novidade. Enquanto você estava fora fazendo suas pesquisas, eu fui nomeado o novo cacique da tribo. Outra coisa que você não sabe dos costumes do Pirahã é que atacar o cacique é o pior dos crimes. Sua punição será morrer em uma grande fogueira.

Só então reparo na pilha de galhos secos sob meus pés. Desesperado começo a gritar:

-Não façam isso! Eu posso salvá-los! Ele é louco, vai matar todos vocês.

Mas nenhum Pirahã, além do novo cacique, entende a minha língua.

O próprio Uniinahã pega uma tocha flamejante. Eu me agito nervosamente tentando me soltar. O impiedoso chefe indígena coloca o objeto incandescente sobre a lenha e tudo começa a arder.

O fogo lambe meus membros inferiores. Sinto uma dor indescritível e berro clamando por ajuda. As chamas já me envolvem totalmente. A dor que já era insuportável, agora aumenta e atinge seu ápice. Aos poucos as sensações vão serenando.

Sinto uma vontade enorme de adormecer.

Fecho os olhos e mergulho para sempre na escuridão.

História de Terror escrita por Aldo Almeida.

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