Pesadelo [História de Terror]

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Eram 9:10 da manhã, minha consulta com psicólogo estava dez minutos atrasada e eu aguardava na sala de espera. Começaria mais uma vez outra longa serie de seções com um novo psicólogo. Já estava acostumado com isso. Já até perdi as contas por quantos psicólogos e psiquiatras já passei.

Eles até conseguiam certo resultado por um curto período de tempo, até começar tudo de novo…

Acho que hoje em dia, começo os tratamentos mais interessado nas receitas de medicamentos que me fazem dormir, do que por uma suposta solução para meu problema. Acho que já perdi as esperanças, afinal já estou com 30 anos e nunca consegui.

Às 9:15 entro na sala do doutor. Um lugar extremamente aconchegante e confortável, assim como é a maioria dos consultórios dos psicólogos que me consultei. Dr. Marcos, muito hospitaleiro e gentil, puxa assuntos corriqueiros enquanto faz o possível para me fazer ficar confortável e a vontade. É como uma dança, a qual já sei cada passo. Me senti bem à vontade, inclusive me senti estranhamente familiarizado com algo.

Enfim, conto minha infância, falo dos meus pais, amigos, parentes, casos amorosos, profissão etc. A cada consulta vou destrinchando minha vida para mais esse doutor, até chegar no que considero a raiz dos meus problemas, no motivo pelo qual nunca mais tive uma noite tranquila sem medicamentos, a razão pelo qual tenho buscado todo tipo de ajuda inclusive dezenas de psicólogos, mas nunca consegui resultado…

Então começo a contar ao doutor o que aconteceu quando eu tinha exatamente 16 anos de idade. Na época, eu morava em um pequeno vilarejo e estava terminando o ensino médio. Era um garoto popular, me dava bem com as garotas, era considerado um cara bonito e tinha um grupo de amigos do time de futebol da escola, no qual exercia um tipo de liderança, dois deles em especial, estavam sempre comigo e eram cúmplices de tudo que eu fazia.

Na metade do ano entrou um aluno novo, Carlos. Ele era o tipo tímido, mas como era muito bom de bola, rapidamente entrou para o time da escola, onde se destacou conseguindo a condição de titular.

Como Carlos ainda era novo na escola, quase não tinha amigos e, como eu e meu grupo de amigos éramos do mesmo time, não demorou para ele tentar se enturmar com a gente. Ele só não fazia ideia do quanto eu era babaca.

Falamos para ele que para andar com a gente não poderia ser fraco e nem medroso. Pedimos alguns testes que supostamente provariam que ele era “durão” e cheio de coragem. Eram testes muito idiotas. Lembro que em um deles, Carlos teria que pichar a porta da sala do diretor. Em outro teste ele deveria roubar chocolate da prateleira do mercado. Teve um que pedimos para que cortasse uma mecha de cabelo da nossa professora de matemática sem que ela visse.

Mas o pior de todos foi o último. Pedi algo que nunca deveria ter pedido. Ah como eu me arrependo…

Naquela fatídica tarde no final da aula, sugeri que fossemos até o “poço dos horrores”. Era um poço abandonado que ficava dentro da floresta, um pouco afastada do vilarejo. Próximo a ele tinha uma casa de madeira abandonada que estava caindo aos pedaços.

Antigamente, morava um casal e seu filho nessa casa e muitas pessoas utilizavam esse poço, até que um dia a água secou e nunca mais ninguém o utilizou.
As pessoas mais antigas do vilarejo dizem que, por volta daquele ano, começaram a desaparecer algumas crianças e adolescentes da vila e, ao mesmo tempo, um cheiro insuportável começou a exalar daquele poço. Imediatamente todos desconfiaram de algo e, para a surpresa geral, quando a polícia local foi até lá e averiguou o poço, descobriu que Antônio havia matado a esposa e o filho e depois os jogou dentro do poço. Descobriram também que as pessoas que estavam desaparecidas, estavam mortas e seus restos mortais também estavam dentro do poço. Antônio se matou antes que fosse preso e nunca ninguém soube o porquê de ele ter feito aquilo. Por conseguinte, o poço foi tampado de forma precária por uma tampa pedra.

Já se passaram muitos anos do horrível massacre, mas muitas pessoas ainda acreditam que aquele poço é assombrado por fantasmas. Dizem que as almas atormentadas dos que morreram no poço puxam para dentro quem passa perto dele e que elas nunca mais voltam vivas. Há quem diga que durante a noite, dá para ouvir os choros lamuriosos das almas de dentro do poço.

Pois então, foi exatamente a esse poço que levei Carlos junto com meus dois amigos mais próximos do time de futebol, Júlio e Marcos. Chegamos lá por volta das 19h já estava escurecendo e, quando anoitecia, tudo parecia realmente muito assustador naquele lugar.

O desafio proposto consistia em Carlos descer até o fundo do poço – que nós abrimos com muita dificuldade por causa do peso da tampa –, por meio de uma corda que amarraríamos a ele e pegar um boné que eu havia acabado de jogar lá embaixo. Quando propus esse desafio, meus amigos me olharam com um olhar de reprovação, como se dissessem que eu estava exagerando. Na realidade, eu também achava que estava exagerando, mas eu tinha certeza que Carlos não iria aceitar o desafio, eu queria mostrar para todos que ele não tinha o direito de entrar para nosso grupo.

No fundo eu estava inseguro pelo fato de Carlos ser um jogador tão bom quanto eu, ou até melhor. Ele era bem extrovertido e articulado, além de ser um líder nato. Eu tinha medo de perder meu lugar para ele.

Na minha cabeça, quando ele visse a escuridão daquele poço e sentisse o calafrio que aquele lugar causava na maioria de nós, ele desistiria na hora, mas contrariando todas as minhas expectativas, ele aceitou. Não acreditei, pensei que quando tivesse na metade do caminho ele iria começar a gritar implorando para puxarmos ele de volta, mas ele não o fez e continuou descendo até o fim.

Um silêncio atormentador tomou conta do lugar, eu e meus amigos nos olhávamos tentando ouvir alguma coisa. De repente ouvimos Carlos chamando lá de baixo dizendo que já tinha apanhado o boné e que já podíamos puxa-lo de volta.

Antes de começarmos a puxar, Carlos começa a gritar desesperadamente, como se algo quisesse pega-lo. Ele gritava por socorro e pedia para puxa-lo logo. Dessa forma, Júlio, Marcos e eu, puxamos com toda nossa força, mas estava muito pesado, era como se tivesse algo ou alguém o puxando para baixo. Então os gritos de Carlos ficaram ainda mais atormentadores. Eram gritos de dor, seja lá o que tivesse acontecendo com ele, com certeza era terrível e o eco de seus gritos dentro daquele poço me atormentam até hoje.

Não desistimos e continuamos tentando puxa-lo. Foi quando os gritos foram diminuindo até que pararam. A corda subitamente arrebentou, fazendo com que nós três caíssemos para trás. Quando olhamos para a corda, vimos que ela estava toda cheia de sangue. Fomos até a borda do poço e chamamos por Carlos, mas não tivemos resposta e nem conseguimos ver nada.

Ficamos morrendo de medo, corremos dali o mais rápido possível e avisamos os nossos pais. Não demorou para os adultos do vilarejo irem até lá averiguar a história e descerem pelo poço. Ao que parece nenhum deles achou nada lá embaixo, tinha vestígio de sangue, mas nem sinal de Carlos ou de alguma fera que pudesse tê-lo retalhado ou algo do tipo. Ninguém sabia ao certo o que havia acontecido, só sabíamos que Carlos havia desaparecido. Chegaram a realizar buscas e tudo mais, só que Carlos nunca foi encontrado. Muitos acharam que nossa história era mentira, outros nos acusaram de tê-lo matado, mas a verdade é que só eu Júlio e Marcos, sabíamos o que realmente tinha acontecido.

Depois disso os meus amigos se afastaram de mim. Claramente me culpavam pela morte ou desaparecimento do menino novato e resolveram nunca mais falar comigo.

O poço foi definitivamente fechado pelas autoridades locais, mas mesmo assim, algumas pessoas continuaram procurando pistas ou alguma explicação para o que aconteceu. Meus antigos amigos foram algumas dessas pessoas, assim como alguns parentes de Carlos, mas nunca encontraram nada e nunca mais Carlos foi visto por ninguém, exceto por mim…

Três dias após o incidente do poço, comecei a ter pesadelos terríveis com Carlos dizendo que era culpa minha e que iria me buscar e se vingar. Toda noite tinha esses pesadelos. Neles, Carlos aparecia todo desfigurado, como se tivesse sido comido por algo, pois estava sem lábios, sem nariz, sem um dos braços e com o rosto e o corpo todo ensopado de sangue. Eu só corria e chorava dizendo que não queria que aquilo acontecesse e que sentia muito, mas Carlos dizia que era tarde demais e que iria me fazer pagar.

Com o tempo os sonhos foram ficando piores e mais reais. Meus pais começaram a me levar em psicólogos, terapeutas e até à uma sessão espírita. Fato é que, nada funcionou e passei a ter cada vez mais medo de dormir, pois sabia que ia vê-lo novamente, sabia que ia ouvi-lo sussurrar no meu ouvido que “iria me levar”, sabia que iria acordar de novo sem ar com ele me enforcando em meu sonho, sabia que ele nunca iria me deixar em paz enquanto eu vivesse.

Tendo contado tudo isso para mais um psicólogo, só estava aguardando ele me dizer que tudo isso era sentimento de culpa e começar com aquele papo de superação e “blá blá blá”, para então me receitar os remédios que eu tanto precisava e que foram a razão de ter me consultado. Então o doutor olha para mim e me dá um comprimido Meus olhos brilharam e tomei o remédio sem pensar duas vezes. Perguntei ao doutor se aquele comprimido me ajudaria a controlar a ansiedade e se me ajudaria também a dormir. O doutor falou que não, então fiquei curioso e perguntei para que servia o tal comprimido. O doutor se levantou e disse que o tempo de fugir já tinha acabado, que era hora de me encontrar com Carlos e pagar por tudo.

Sem entender nada tentei me levantar, mas não consegui. Seja lá o que fosse aquele comprimido, ele me deixou com o corpo mole, minhas vistas começaram a escurecer e comecei a ficar com falta de ar. Senti que ia apagar, mas antes que isso acontecesse, o doutor se identificou: ele era um dos meus antigos colegas. Não sei como não o reconheci, mas era ele, o Marcos.

Ele me disse que também se sentia culpado e que finalmente estava tendo a oportunidade de se redimir. Segundo ele, o garoto novato da escola não descansaria enquanto eu vivesse, então ele faria esse favor a alma do menino. Dito isso, Marcos me deu adeus.

Senti que realmente estava morrendo, pois não conseguia mais respirar. Antes do meu último suspiro pude ver Carlos se aproximando e fechando meus olhos.

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