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Rasga Mortalha

por Mundo Sombrio
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Nos primórdios do mundo, as entidades que regiam a vida e a morte especulavam sobre como poderiam deixar as coisas mais justas. A vida tinha para si um arauto que anunciava seu trabalho, conhecido como “Concepção”, que trazia as boas novas de que uma vida viria e todos se alegrariam com isso. A morte também queria um arauto, pois fazia por merecer: sempre cumpria o que lhe era delegado e fazia com perfeição. Então, era mais do que justo que alguém anunciasse sua chegada, pois ela gostava de ser temida pelos mortais.

Após uma longa discussão, as duas entidades chegaram a um acordo: a morte teria de escolher dentre diversas criaturas, apenas uma para anunciar a sua chegada. A procura pela criatura perfeita foi exaustiva. A morte estava cansada de analisar tantas criaturas e decidiu dar-se por vencida.

Sentada à margem de um rio e entristecida, ela pôs-se a chorar. Entre seus soluços, a entidade ouviu um som ensurdecedor. Era fino, agoniante e perturbador, assim como sua voz. Ao virar-se para contemplar o dono daquele som maravilhoso, deparou-se com uma ave de rapina que, ao perceber que estava sendo observada, virou uma bela mulher trajada com vestes brancas.

– Bela criatura a quem faço tanto gosto de ouvir, queira me dizer vossa graça. – Pediu a morte contemplando a beleza e sutileza da bela mulher sentada em um galho de árvore.

– Me chamo Rasga Mortalha. Sou uma feiticeira da ilha de Creta, a quem dirijo a palavra? – A feiticeira desceu da árvore para conversar melhor com aquele ser intrigante.

– Eu sou a morte. Andei por toda a terra procurando um arauto para meu serviço e em parte alguma escutei som mais grandioso que sua bela voz. Gostaria de ceder sua voz à minha necessidade?

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– Em caso de aceitação, que benefícios me renderia? – Indagou a feiticeira tentando analisar as opções que aquela figura lhe dava.

– Lhe concedo a imortalidade, assim me servirias para sempre.

– De fato sua oferta me agrada muito. Aceitarei de bom grado – A feiticeira virou novamente uma ave de rapina e saiu voando do local. Então a morte sorriu e desapareceu.

Agora, os olhos da feiticeira enxergam além do plano natural. Uma linha vermelha liga seu corpo ao de sua próxima visita. Ela segue a pessoa pelos dias que antecedem a sua morte e, após isso, outro fio vermelho surge junto com um novo trabalho.

A morte nunca fora tão feliz. Sua chegada tinha uma bela comissão agora. A feiticeira servia fielmente aos seus propósitos e isso a deixou profundamente agradecida. Quando a ave canta sua melodia da morte, não tem como escapar do seu futuro.

História de Terror escrita por Contos de Ula

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