Tentáculos da Morte [História de Terror]

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Edgar Allan Poe levava seu gato, da raça Bombaim, preso por uma correia de couro trançado. Seus passos soavam apressados pela Baker Street, quase deserta naquele início de noite. Adiante, na praça Portman, ecoou o crocitar agourento de um corvo. Edgar pegou o gato nos braços e entrou no prédio de número 221. Subindo a escada, bateu na porta do apartamento B, onde morava Sherlock Holmes.

— Boa noite, senhor Poe- disse o serviçal do detetive, abrindo a porta.

 — Boa noite, James.

 — O patrão está no gabinete.
         
Poe retirou a correia do gato e deu para James segurar.

— Segure Ripley pra mim.

James segurou o felino, enquanto Poe despia o pesado sobretudo.

Trocando o sobretudo pelo gato com James, ele entrou no gabinete. Logo que colocou os pés na sala, estacou tossindo furiosamente. O ambiente estava coberto por uma nuvem de fumaça, proveniente de um cachimbo e um charuto.

— Pelo amor de Deus, gente! –exclamou Poe, largando Ripley sobre uma cadeira e indo abrir a janela para respirar ar puro.- Não sei como vocês aguentam essa fumaceira.

 — Você chega a ser cômico com esse drama todo – retrucou Holmes, apagando o cachimbo. Ao lado dele estava um cão da raça Manchester Terrier, sentado no chão, mirando Poe com um olhar fixo e penetrante. Do lado oposto, numa cadeira de espaldar alto, sentava-se um homem de barba, de olhos pequenos e nariz fino, que também apagou o grosso charuto num cinzeiro de jade.
 
Holmes fez um gesto na direção dele – Acho que você conhece o senhor Bram Stoker.

Poe cumprimentou-o – Não pessoalmente. Tenho lido suas histórias no Daily Telegraph.

— Soube que o senhor também escreve. Está publicando onde? – perguntou Stoker.

— Alguns continhos e poemas no Recanto das Letras.

— Obrigado por terem vindo – disse Holmes.

Poe respondeu, observando o cachorro. – Achei interessante a sua ideia de comemorar o aniversário de seu animal de estimação, convidando os pets dos amigos.

Poe percebeu que o cão não havia se movido nenhum milímetro. Desconfiado, foi olhar mais de perto e descobriu que não era um animal de carne e osso, mas um cão empalhado.

— Não me diga que é esse o seu animal de estimação!?

— Não – respondeu Sherlock Holmes. – Esse era o cão que assombrava os Baskerville. Eles o empalharam quando morreu e me deram de presente. O meu é o Conan. Conan, vem cá!

Dali a instantes, surgiu um Fox Terrier correndo, parou diante do dono, apoiou-se nas pernas de Holmes, que lhe acariciou a cabeça. – Muito bem. Deite-se e fique quieto.

Poe voltou-se para Bram Stoker- E o senhor? Trouxe seu animal de estimação?

— Claro. – respondeu Stoker, estendendo o braço e tirando uma capa de pano que cobria uma gaiola sobre a mesa. Dentro estava um morcego de cabeça para baixo, segurando-se no poleiro.
 
— Esse é o Willy. Ganhei de um amigo que mora na Transilvânia.

Naquele instante chegou o terceiro convidado, um homem jovem, de rosto comprido, usando óculos de aro fino, cabelos cuidadosamente penteados.

— Senhores – disse Holmes, com um gesto. – Apresento-lhes, Howard Phillips Lovecraft.

Lovecraft cumprimentou todos com um aperto de mão.

— Boa noite.

Ao retribuir o cumprimento, Poe percebeu que a mão dele era tão gelada quanto a mão de um morto.

— Acho que agora podemos jantar. – disse Holmes, erguendo-se. – Trouxe o seu pet? – perguntou ele para H. P. Lovecraft.

O rapaz meteu a mão no bolso externo do paletó e exibiu seu animalzinho de estimação. Um bichinho pequeno que cabia na palma da sua mão. Agitando seus tentáculos, emitiu um som agudo, borbulhante, como o chiar de uma chaleira com água fervendo.

— O que é isso? Um filhote de polvo? – indagou Stoker. Lovecraft olhou para o animalzinho como um pai olha para seu filho recém-nascido.

— Na verdade, não sei. Encontrei-o numa noite dessa durante um passeio pelo Hyde Park. Como meu peixinho de estimação morreu, fiquei com ele. Também achei que fosse um filhote de lula e o coloquei no aquário, mas ele detesta água. Preferiu dormir ao lado da estufa.

— Deu um nome a ele? – indagou Poe.

— Chamo-o de Chulo.

— Vamos para a sala de jantar, rapazes. – convidou Holmes.

Eles passaram para o outro cômodo, onde estava uma mesa comprida coberta com pratos de comidas variadas. No outro extremo, no chão, sobre um tapete persa, estavam alguns pratos de latão.

— Podem colocar seus pets ali que James vai lhes dar a comida. – disse Holmes e perguntou a Lovecraft; – O que o seu pet come?

— Pedacinhos de carne crua.

Holmes chamou James, para providenciar a refeições dos animais. O mordomo colocou dentro da gaiola, um ratinho para o morcego chupar o sangue. Conan, o aniversariante, comeu um pedaço de bolo de carne com especiarias do oriente, Ripley ganhou uma lata de atum da Noruega.

— Os homens estavam comendo e conversando sobre livros, autores rabugentos e leitores chatos, quando ouviram um guincho. Ao olharem para a mesa dos pets, viram um grande Chulo tentando comer Willy com gaiola e tudo.  De Conan e Ripley só restavam os ossos sobre o tapete. Chulo havia crescido, estava agora do tamanho de um polvo de 30 quilos e parecia não ter parado de crescer.

Stoker tentou salvar o seu morcego, mas Chulo o envolveu com seus tentáculos para comê-lo por inteiro. O homem gritou apavorado, tentando escapar. Holmes pegou um guarda-chuva do cabide e começou a bater no monstro, mas de nada adiantava.

Poe, que estava com um cálice de vinho na mão, jogou sobre Chulo. O animal gritou de dor e largou Stoker. De imediato, movido pela observação científica e lógica dedutiva, Holmes pegou a garrafa de vinho e derramou a bebida sobre o monstro cefalópode. Chulo derreteu como queijo suíço em chapa quente.

O jantar terminou naquele instante, nada mais restava fazer. James ganhou trabalho extra aquela noite. Um Sherlock Holmes triste pela morte de seu pet, despediu-se de seus amigos na porta.

Envergonhado e sentindo-se culpado, H. P. Lovecraft desculpou-se, convidando-os para um jantar de confraternização em sua casa, quando pagaria pelo prejuízo causado pelo seu pet e presentearia os amigos com um volume do seu mais novo livro, o Necromicon.

Por: Antonio Stegues Batista

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