A Suicida

a suicida mundo sombrio sergio kuns

Deixou o apartamento sem se preocupar se as janelas estavam fechadas. Não se despediu do cão que dormia, confortavelmente, na lavanderia. Ou simplesmente não quis fazê-lo.  Despedidas são sempre tão tristes… Também não se importou com a madrugada fria que começava, nem pensou no resfriado que atravessava, e que poderia agravar-se se enfrentasse a neblina úmida da noite.

— Poucas quadras a separavam da velha ponte. Depois, seriam aproximadamente dez metros até atingir a superfície fria da água, e mais cinco ou dez para conhecer o fundo do rio que tantas vezes fora cenário de cartões postais da pequena cidade. O vento fustigava o rosto alvo, a pele fina e frágil, assim como sua, igualmente frágil, alma.

— Se vai pular, pule logo, não pense muito, ou desiste, e amanhã vai continuar com a mesma vida de merda de sempre

A jovem foi surpreendida pela voz grave que vinha da outra extremidade da ponte. Como não percebera a presença daquele homem ali? E como ele sabia das suas intenções?

— Pensa que sabe da minha vida?

O homem não responde. Aproxima-se lentamente. Veste-se com elegância, todo de preto. Sapatos, terno e gravata, além de um sobretudo. Fuma um cigarro e usa chapéu. Ela pensa que, em toda sua vida, com exceção dos filmes, nunca conhecera um homem que usasse chapéu.

— Sei mais do que você imagina. Conheço sua dor. Conheço suas intenções. Você quer dar fim a um sofrimento intenso, porém só intensificará o tormento. Você vive um dilema, eu sei… se pular, terá que prestar contas disso; Se não pular, amanhã terá que olhar para os mesmos rostos de sempre, que lhe diminuem, que lhe desprezam. Conheço, sim, suas angústias.

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Quem era aquele homem que tragava, tranquilamente, um cigarro enquanto invadia a intimidade de sua alma? Parecia alguém que a observava, havia tempos. testemunhava cada minuto de tormento sob o chuveiro, ou fingindo normalidade frente às vicissitudes que enfrentava.

— Então? Não tenho a noite toda…  se quer meu conselho, pule logo, sem pensar muito. Esse mundo é uma dor que você já não consegue suportar. Por que pensar? Por que desistir?

Talvez a maioria dos suicidas que se encontram na iminência de realizar o ato esperem realmente que alguém interfira tentando evitar. Não era seu caso. Queria realmente pôr um fim àquilo tudo. Até onde a memória lhe permitia, há tempos via sombras em seu apartamento. Além de complicadas relações pessoais e a perda de um ente querido, somados à solidão, tinha que conviver com aqueles vultos que pareciam velar seu sono, observando-a em silêncio sepulcral.

— Acredito que você não vá pular, ou já o teria feito. – Diz o estranho, já tão próximo que era possível sentir o hálito de nicotina.

Ele era certeiro com as palavras. De fato, pelo menos momentaneamente, ela se põe a pensar.

— Sabe… tenho vindo bastante aqui. Nos últimos tempos tem crescido o número de pessoas que dão cabo das próprias vidas. Eu não interfiro, como você pode bem comprovar. Se quiser, que faça…

— Quem você é? Um anjo? A morte? Quem diabos se veste assim hoje em dia?

O vento frio castigava a pele alva e tornava o concreto dos pilares da ponte ainda mais gelado. Não se podia ver ninguém até onde a vista alcançasse. O estranho traga o cigarro e solta uma baforada que lhe atinge em cheio o rosto.

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— Há dois meses, você não deve lembrar, ou talvez nem tenha sabido, uma jovem, parecida com você, se jogou daqui… lembro bem do impacto do corpo com a água fria. Esse rio é muito bonito, e suas águas relaxantes,  mas somente de dia. À noite, a escuridão de tudo toma conta, e esse rio se torna o fim, ou potencializa, o  sofrimento de muita gente. Você quer mesmo conhecê-lo à noite?

O estranho tem um olhar penetrante, enigmático. Ela pensa ser melhor ir embora.

— Nos vemos por aí. – Diz retirando-se, furtiva.

Enquanto se afasta, colocando o capuz do moletom, observa de lado que o estranho permanece parado, observando sua retirada. Ele, por fim, faz um movimento com o dedo, arremessando a ponta do cigarro em direção ao rio. A brasa desenha uma linha cor de cobre no ar e, por fim, em contato com a água fria, extingue-se.

Novamente em seu apartamento, tranca a porta, ofegante,  e vai à lavanderia. Olavo, o pequeno cão, dorme na mesma posição de quando saíra. Vai à cozinha e liga a chaleira elétrica. Em instantes, o aroma de café fresco toma conta do pequeno apartamento. Decide que irá para a cama, após o café, sem sequer tirar a roupa do corpo, provavelmente sem mesmo escovar os dentes. Senta no sofá, mantendo o recinto na penumbra.

Olha para as sombras que a observam, e sorri.


ESCRITO POR: Sergio Kuns

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