Casa na Árvore

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Sonho da criançada, uma casa na árvore não é algo muito comum de se ver por aqui. Mas existiu uma, ali na Rua 7 de Setembro, próximo à praça. Lembro bem da família que ali morou, quando eu ainda era um menino. Fomos vizinhos.

Quem ali morava era um jovem casal. Eles tinham uma única filha, Beatriz. Ela era mesmo muito mimada pelos pais. Desde o dia em que ali se estabeleceram, podíamos perceber que faziam todas as suas vontades. Sabíamos disso porque assim que se mudaram ela foi transferida para a nossa escola. Lá, logo espalhou-se que ela era uma garotinha que tinha tudo o que bem quisesse.

A casa havia ficado bastante tempo à venda. Era uma ótima propriedade, com um grande terreno. Boa vizinhança. Pagaram muito caro por ela. E havia ele, o belo pé de carvalho, frondoso, majestoso, nos fundos da casa. Era uma bela árvore, na flor da idade, se podemos dizer isso de uma árvore. Logo Beatriz pediu ao pai que ali construísse uma casa. Era algo como uma casa de bonecas, porém na árvore. Não é algo muito comum, que meninas queiram algo assim. São garotos que normalmente gostam de subir em coisas, e de lá cair. Meninas preferem conforto, sempre pensei assim. Mas não Beatriz.  Ela andava levando homéricos tombos de bicicleta pelas ruas, e não tinha problemas em enturmar-se com os garotos, brincando com eles. Uma casa na árvore tinha bem a cara dela.

O homem tinha habilidade e era muito caprichoso. Construiu a tal casa rapidamente, com bons materiais. Uma bela escada de cordas era o detalhe final. Ela passava boa parte dos dias, quando não na escola, dentro daquela casa. Eu nunca a visitei, nunca fui convidado, na verdade. Não fazia parte do seu círculo de amizade. Acho que ela não gostava muito de mim. Mas de onde morava eu conseguia ver perfeitamente o entra e sai. Era uma diversão e tanto.

De seu quarto, Beatriz podia ver, mesmo da cama, o belo carvalho, através da janela. Gostava de admirar a casa e ansiava pelo dia seguinte no qual voltaria a receber suas amigas. Havia, lá dentro, almofadas, cobertores e bichos de pelúcia. Ela colocara cortinas na janela. Era o ambiente onde brincava e também estudava. Ela tinha, então, dez anos.

Tudo o que passo a narrar, a partir de agora, é de meu conhecimento porque ela e Ana, minha irmã, acabaram se tornando grandes amigas.

Chovia muito quando aconteceu pela primeira vez. Beatriz ainda não dormia e, da cama, podia ver o carvalho que, com o clarão dos relâmpagos, parecia uma pintura surreal. Ela nunca vira, até então, sua casa na árvore sob uma tempestade. Talvez tenha sido a imaginação, ou mesmo o vento, mas ela jurava ter visto a cortina ser puxada. Alguém lá estava e, de lá, a observava. Ela jurava ter visto, além do movimento da cortina, a mão que a teria puxado. Naquela noite, encolheu-se na cama, cobrindo a cabeça com o cobertor, e dormiu, se muito, uma ou duas horas.

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Ela contou tudo a Ana, que fez piada, obviamente não acreditando na história. Subiram pela escada de cordas e examinaram a casa da árvore. Tudo parecia normal. Apesar da tempestade, que havia cessado ainda antes do nascer do sol, estava tudo seco. Seu pai tinha feito realmente um bom trabalho com o telhado. Ana continuava não acreditando e Beatriz não voltou mais à casa nos próximos dois dias.

Houve outra noite em que coisas estranhas aconteceram. Beatriz acabara de deitar e ainda pensava no que teria visto. Lança um olhar à casa da árvore e, novamente, vê a mão que puxa a cortina. Havia alguém lá, novamente. Dessa vez, ao invés de encolher-se na cama, e pensando que poderia ser algum garoto da vizinhança tentando lhe aplicar trotes, resolveu averiguar. Com seu celular, rumou discretamente até o carvalho, tentando não chamar a atenção dos pais. Estava uma bela noite de lua cheia. O quintal bem cuidado e o carvalho, iluminados pela lua, propiciavam uma bela visão. Acionando a câmera do celular, Beatriz aproxima-se da árvore, ponderando se seria mesmo uma boa ideia flagrar o intruso. Poderia até ser perigoso.

Permaneceu um longo tempo sob a árvore, filmando com o celular. Ansiava registrar algo para provar a Ana que alguém estaria invadindo. Não houve movimento nenhum. A porta estava entreaberta. Ela jamais deixava a porta assim, normalmente a fechava. Decidiu subir. Colocou o celular no bolso e iniciou a escalada. Chegando à porta, pôde visualizar o interior. Estava tudo fora do lugar. As almofadas e os cobertores, assim como seus bichos de pelúcia. Não havia ninguém ali, mas estava claro que alguém havia invadido. Assustada, desceu rapidamente e voltou para dentro de casa. No dia seguinte contaria aos pais. Alguém estava invadindo. Provavelmente seu pai faria um boletim de ocorrências na delegacia. E foi o que aconteceu. O boletim foi lavrado e a família orientada a ligar caso notassem mais algo fora do normal. Beatriz levou uma bronca por não ter contado da primeira vez. A menina ainda subia na casa, sempre com alguma amiga, na maioria das vezes com Ana. Semanas se passaram sem que o suposto intruso retornasse. Tudo parecia ter voltado à normalidade.

Era mais uma tempestuosa noite. Novamente, os relâmpagos clareavam o céu, recortando, contra ele, a figura do carvalho e a casa. Beatriz tinha dificuldade para dormir e não consegui evitar de olhar pela janela. Sentada na cama,  tendo às costas o travesseiro, antecipava, de alguma maneira, que novamente aconteceria. Pensou que deveria pedir ajuda, mas alguma coisa lhe dizia para esperar. Os relâmpagos clareavam o quarto, e ventava bastante. Ela mantinha o olhar fixo em direção à casa na árvore. Sabia que aconteceria novamente.

A pequena cortina move-se. É possível ver a mão que o faz. Dedos pequenos e finos. Na sequência, um rosto pode ser visto, ou melhor, metade dele, espiando através da pequena janela. Beatriz consegue perceber ser o rosto de uma criança, uma menina talvez. Mesmo assustada, levanta da cama e sai pela porta da área de serviço, tendo logo à frente o quintal com o carvalho. Começa a chover e ela tem rapidamente o pijama encharcado. Continua a fitar a janela na qual o pequeno rosto permanece a observar. Alguns passos e já se encontra sob a árvore, observando que a porta se encontra, desta vez, fechada. Sobe pela escada de cordas. O celular fora deixado no quarto. Não haveria como registrar o que quer que lá acontecesse.

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Tenta abrir a porta, em vão, pois alguém havia passado a tranca interna. A tensão aumenta e Beatriz sente uma sucessão de calafrios. Um medo que jamais experimentara toma conta.  Toc toc… lá de dentro uma voz se faz ouvir:
— Quem é?

Com a voz trêmula, Beatriz responde:

— Sou eu…

A porta é destrancada e ela pode, agora autorizada, entrar. As duas garotas se olham. São bastante parecidas. Se alguém dissesse serem irmãs, ninguém duvidaria. O momento é tenso para ambas. Passam-se longos segundos sem que palavra alguma seja dita e, finalmente, Beatriz senta-se sobre uma almofada, fechando à porta. O ambiente está na penumbra e é, vez ou outra, iluminado pelos relâmpagos.

E lá passaram a noite. Depois de feitas as devidas apresentações, conversaram bastante. Dizia chamar-se Mariana, e teria vivido muitos anos naquela casa. Sempre olhava para o carvalho pensando em uma bela casa de bonecas nele construída. Jamais teve o desejo realizado. O pai era um degenerado, jogador e alcoólatra. Espancava a ambas, a ela e a pobre mãe.  Jogou tudo o que a família tinha fora. A casa teria que ser vendida para quitar as dívidas. Envolveu-se com gente perigosa e, temendo o pior, colocou-a à venda e mudaram de cidade. Mas ela já havia ali fincado raízes, raízes fortes como as do carvalho, que a fizeram voltar tão logo fosse possível. Em sua breve vida, não fora feliz ao lado daquele homem a quem era obrigada a chamar de pai. Não seria depois, quando fronteiras geográficas já inexistiam, que o seria. Assim, voltar ao velho lar era o melhor a se fazer e, lá chegando, encontrara a bela casa na árvore, a sonhada casa na qual brincaria, estudaria e receberia as amigas. Mariana tinha, finalmente, o lar que sempre sonhara. E não abriria mão dele por nada. Nada.

Beatriz viveu por pouco tempo depois de todos aqueles acontecimentos. Ana me dizia que ela pode ter sido empurrada lá de cima e, com a queda, acabou quebrando o pescoço.  Ana sempre culpou Mariana por isso. Os pais de Beatriz mudaram logo depois do acidente. Ninguém nunca mais subiu na casa da árvore. A escada de cordas não mais existe. Ela permanece lá, em ruínas, apenas parte da estrutura e telhado. Somente madeira apodrecida. À noite, quando há tempestade, o velho carvalho, contendo os restos da casa, recortado pelo clarão dos relâmpagos, causa pavor na pobre menina que, encolhida em sua cama, sob o cobertor, tenta dormir.


ESCRITO POR: Sergio Kuns

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