O Velho do Saco

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Chegou numa segunda-feira, pouco antes do meio-dia. Uma velha caminhonete F-4000 trouxe a pouquíssima mobília. Podia se ver apenas um fogão a lenha, uma cama, uma pia, uma mesa e duas ou três cadeiras, além de um pequeno armário e algumas caixas de madeira. Chamou a atenção da rua toda, afinal ali todos se conheciam e, se ocasionalmente aparecesse alguma cara nova, logo todos queriam saber de quem se tratava. O motorista e seu ajudante retiraram as coisas e levaram para dentro da casa. O velho ajudou no que pode mas, pelo visto, tinha a ação restrita a coisas de pouco peso, como as cadeiras. Em menos de meia hora, os homens foram embora e, assim, o velho pôde ficar à vontade para conhecer o novo lar.

Devia ter perto de uns setenta anos. Corpo magro, um tanto quanto curvado, estatura média. A saúde parecia debilitada e caminhava arrastando um pouco a perna esquerda. Tinha um ar de europeu, polonês talvez, a julgar pela pele e olhos claros e pelos traços do rosto. Poucos fios de alvo cabelo insistiam em permanecer dançando de um lado para o outro sobre a franzida testa. A vizinhança, curiosa, observou de longe nos primeiros dias, nas poucas vezes em que saiu de casa e, lentamente, caminhou até o portão. Aquela casa era frequentemente alugada e se encontrava em um péssimo estado. Pertencia a um empresário, dono de uma grande loja na cidade. Assim como aquela, ele possuía várias outras casas, todas caindo aos pedaços. Dificilmente trocava uma telha ou consertava uma cerca quebrada. Mesquinho e antipático, não nutria nada de bom em relação a seus inquilinos. Só lhe interessava mesmo recolher mensalmente, e em dia, os aluguéis.

Na primeira semana, ele deixou a casa apenas uma vez. Caminhou até a mercearia do bairro, mercearia que funcionava também como lanchonete e bar. Foram duzentos e cinquenta metros sofridos arrastando a perna. Comprou coisas bem básicas como arroz, feijão, café, açúcar e sal, além de algumas verduras. Levou também uma garrafa de aguardente barato.

Ernesto, o dono da mercearia, tentou ser amigável – na verdade, apenas movido pela curiosidade – e perguntou-lhe o nome e de onde viera. O velho nada respondeu. Ernesto pensou que talvez fosse surdo, e não mais insistiu. De qualquer maneira, pagou as compras e saiu, tão silencioso quanto entrara. As palavras ditas foram tão e somente as estritamente necessárias.

Uma vez por semana o velho visitava a mercearia. Só deixava a casa para fazer as compras – sempre os mesmos itens: arroz, feijão, café, algumas verduras, e a garrafa de aguardente – e catar todo e qualquer pedaço de madeira que encontrasse no bairro. A chaminé indicava, assim como pôde ser visto durante a mudança, que não possuía fogão à gás.

Enquanto se arrastava pelas ruas com aquele saco cheio de pedaços de madeira às costas, as crianças fugiam com medo. Algumas gritavam “velho do saco, velho do saco”. Outras, apresentando uma curiosidade que superava o temor, aproximavam-se sorrateiras da casa e diziam só ouvir o que parecia ser um velho rádio à pilha, mal sintonizado, sempre chiando. Ernesto perguntava, enquanto entregava-lhe as compras, se ele queria que o ajudasse a levá-las, mas nunca obtinha resposta alguma. Com olhar vazio, o velho pegava a sacola e, lentamente, voltava para casa. Ernesto desistiu, enfim, de saber seu nome. Acabou ganhando o apelido de “velho do saco”.

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Como ele não se mostrava aberto às pessoas, não havia feito amizade com ninguém. Não conversava com Ernesto, ignorava os meninos da rua, tanto os que dele fugiam, quanto os que o provocavam. Da mesma forma, cessada a curiosidade inicial, ninguém tinha mais interesse em conhecer aquele velho antipático e que cheirava a alho.

Dois meses se passaram desde a chegada do novo morador. Exatamente no dia em que oficialmente iniciava-se o inverno, numa terça-feira, deu-se o desaparecimento de Mariana. A menina, de doze anos, morava no fim da rua. Simplesmente não chegou da escola. Quando os pais perceberam a demora, percorreram o rotineiro caminho, que não era longo, e foram informados de que a menina normalmente deixara a escola no horário habitual. Algo havia acontecido no trajeto. Naquele dia, a família procurou por Mariana nas casas de colegas e amigos, sem sucesso. O desespero tomava conta de todos.

A polícia foi, obviamente, acionada. Disseram que a procurariam. Os pais foram questionados quanto a Mariana ter algum namorado, quem sabe problemas com depressão ou bullying. Houve negativa às perguntas. Aparentemente era uma menina saudável e com boas amizades. Os pais descartavam veementemente ter namorado.

— Ela só tem doze anos, delegado. — dizia o pai, muito nervoso.

Era o terceiro dia do sumiço de Mariana. Apesar das buscas, nenhuma pista até então. A polícia falava em rapto ou sequestro e insistia na possibilidade de uma aventura com algum namoradinho, ou quem sabe algum encontro marcado pela internet.

Eram quatro da tarde e, na mercearia, havia umas seis ou sete pessoas, bebendo e jogando conversa fora. O sol tímido da tarde não tinha conseguido, até então, amenizar os efeitos da fria noite que assolara a região. O ar estava muito frio, pois um vento cortante insistia em fustigar frontes e rostos ao longo de todo o dia. A prosa seguia e então alguém observou que, naquela semana, o velho do saco não tinha sido visto.

Ernesto comentou que era sexta-feira, e o velho religiosamente fazia suas compras nesse dia. Já era quase fim de tarde e ainda não tinha aparecido. Alguém sugeriu que poderia ter morrido dentro da casa. Debruçado no balcão, Osmar, o pai de Mariana, riu enquanto virava mais um copo de cachaça. Já tinha bebido bastante e mostrava-se um pouco alterado.

— Claro que não, ainda hoje cedo havia fumaça na chaminé.

Instintivamente, todos voltam o olhar para o alto da rua, pois a casa do velho ficava a apenas três quadras dali, e era possível, mesmo de dentro da mercearia, ver parte do telhado. Confirmando o que Osmar dissera, um fio de fumaça levantava da chaminé e rapidamente era dissipada pelo vento frio.

— Se morreu, pelo menos frio não tá passando — Disse Ernesto, com um riso velado, expondo os dentes sujos.

Os homens continuaram a prosa até parte da noite, na verdade até que Ernesto fechasse a mercearia, ali pelas 20:00h. Osmar precisou de ajuda para sair, pois havia bebido bastante na ânsia de suportar todo o estresse pelo qual passava. O grupo dispersou. Cambaleando em direção a sua casa, que ficava no fim da rua, teria que passar, obrigatoriamente, em frente à casa do velho do saco. Era habitual que andasse bêbado pelas ruas e, de tão acostumado que estava, ninguém precisava ajudá-lo, com exceção do degrau que já lhe proporcionara, anteriormente, alguns tombos. O vício da bebida era um problema antigo na família.

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Com passos trôpegos vencia, metro a metro, a pequena distância que parecia não mais ter fim. Apesar da baixíssima temperatura, não sentia frio. Nem o incessante vento que castigou a cidade o dia inteiro conseguiu fazer frente a tanto aguardente. Não havia ninguém mais nas ruas, nem sequer cães. O frio afugentara a todos e só havia restado o bêbado procurando o caminho de casa.

Parou em frente à casa do velho. Observou por instantes e pensou como alguém podia cobrar aluguel por uma tapera daquelas. A casa estava desmanchando, assim como o velho do saco, pensou. Não havia fumaça na chaminé, apesar de todo aquele frio, e nenhuma luz se fazia perceber em seu interior. Osmar abaixou-se e recolheu com a mão uma pedra, do tamanho de uma bola de tênis. Arremessou-a contra a janela veneziana.

— Véio fia da puta! – gritou.

O som seco do encontro da pedra com a madeira da janela ecoou pela rua deserta e, com isso, um cachorro latiu nas proximidades. Osmar continuava olhando para a casa. Tomado por alguma curiosidade, caminhou em sua direção e adentrou o pátio. O som das dobradiças corroídas pela ferrugem foi bastante desagradável e proporcionou alguma tensão. Mais alguns passos e encontrava-se sob a porta de madeira. A pintura estava bastante descascada. Uma tábua solta na pequena varanda lhe causou um pequeno desequilíbrio, principalmente pelo fato de estar embriagado.

Recuperando o equilíbrio e, com certa hesitação, pousou a mão sobre a maçaneta. A porta encontrava-se destrancada e rangeu, assim como o tinha feito o velho portão. Um cheiro estranho e nauseante tomou-lhe as narinas, causando-lhe engulhos. O interior estava mergulhado na escuridão, uma vez que todas as venezianas estavam fechadas.

Puxando a camiseta até que ela lhe cobrisse parte do rosto, em especial o nariz, caminhou lenta e cuidadosamente, lembrando que a tarde alguém havia sugerido que o velho estivesse morto, mas ele mesmo dissera ter visto fumaça na chaminé, aliás, naquele mesmo momento todos a viram. O assoalho rangia sob os pés a cada passo que dava. Havia pouquíssima mobília na casa e, com a pouca luz propiciada pela porta aberta, podia se ver que onde seria a sala havia apenas uma cadeira e uma caixa grande de madeira.

Osmar seguiu, então, ao longo de um pequeno corredor que daria acesso aos outros cômodos e logo encontrava-se na cozinha. Percebeu, mesmo com a pouca claridade, que havia alguém sentado ao lado do velho fogão. Isso lhe causou um grande susto e um calafrio foi consequência até bastante natural. Tateou a parede em busca de algum interruptor e, assim que a luz iluminou o ambiente simples, deparou-se com o velho, sentado, imóvel, pernas cruzadas e as mãos sobre o colo. Tinha o olhar confuso, e parecia bastante desorientado.

— Acabou a lenha e não consigo mais caminhar…você pode ajudar? Estamos com frio…


ESCRITO POR: Sergio Kuns

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2 respostas

    1. Olá Lucas… Obrigado pelo seu comentário! Fica implícito que realmente o Velho do saco pegou a menina a partir da última frase do texto: “— Acabou a lenha e não consigo mais caminhar…você pode ajudar? Estamos com frio…”. Esteja sempre conosco, amigo sombrio! Abraços Sombrios!

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