Luau dos Mortos

luau dos mortos mundo sombrio

Marlon, Sueli, Patrícia, Luciana e Luís eram adolescentes de classe média alta.

Moradores do Alto da Lapa, gostavam de se vestir de preto e passear no cemitério do bairro durante a noite.

Como todo adolescente, eram chatos, falavam alto e queriam chamar atenção o tempo inteiro.

Assim que começaram a frequentar o cemitério, tinham um pouco de medo.

Mas em suas últimas visitas, porém, já haviam se acostumado com a paz e quietude do lugar.

Passaram a se sentir à vontade em meio aos túmulos.

Por isso, resolveram, naquela noite de sexta-feira, levar violão e seis garrafas de vinho São Tomé.

Luciana teve uma ideia. Fariam o “luau dos mortos”.

Às 22h30, os cinco pularam o muro para pisar no solo sagrado.

Sueli e Luís, gordos, tiveram, como sempre, dificuldade. Mas entraram.

Sentados sobre um túmulo no centro do cemitério, os alegres e excitados jovens abriram o primeiro São Tomé.

Marlon começou a tocar.

Como sempre, deixava a voz grave para ficar parecida com a do Renato Russo.

Mesmo quando cantava Cazuza, Barão, Paralamas, Capital ou Raul.

No início, só ele cantava.

À medida que o vinho fazia efeito, o resto da molecada ia entrando no coro.

No final, quando a última garrafa passava de mão em mão, todos berravam.

Um mais alto que o outro.

Sendo curto o repertório de Marlon, ele tocava umas dez vezes a mesma música, e, a cada gole de vinho, a turma gritava mais empolgada, acompanhando a melodia.

O que não sabiam é que estavam incomodando.

À meia noite, a cretinice dos cinco adolescentes atingiu o ápice.

Tocavam pela sexta vez Pais e Filhos, do Legião.

As meninas gritavam em tom agudo, e os garotos imitavam o Renato Russo.

Só Patrícia não estava cantando.

Pois fora vomitar em outro túmulo, distante do pessoal.

“É preciso amaa-aaaa-aaaar…” gritava aquele bando de moleques desgraçados.

O último vinho acabou e Sueli jogou a garrafa contra a sepultura da frente, fazendo um puta barulho.

O caixão de Seu Adamastor ficava no túmulo onde o grupo estava sentado.

Ele não aguentou mais.

Já tinha suportado outros góticos antes, mas nunca alguém tão chato quanto aquela molecada do caralho.

Precisava fazer alguma coisa e, por isso, interrompeu o descanso – que deveria ter sido eterno – e arrebentou a tampa do esquife.

Todos os mortos num raio de, pelo menos, quinze metros, ouviram a movimentação do colega e resolveram seguir seu exemplo.

Uns 17 levantaram.

Todos putos, de saco cheio.

Bêbada, a garotada não escutou o estouro dos caixões e das paredes de tijolos que fechavam as gavetas das sepulturas.

Só parou a gritaria quando Seu Adamastor quebrou o fecho da portinha de cobre e engatinhou para fora.

Os adolescentes perceberam, primeiro, o cheiro de putrefação.

Depois, viram o cadáver se erguendo ao seu lado.

Dona Adalgiza, do túmulo da frente – alvo daquela garrafa de São Tomé -, não foi tão silenciosa quanto seu vizinho.

Arrebentou sua portinha causando um estrondo.

Outras portinhas começaram a ser estouradas.

Logo os jovens se viram cercados por seres semidecompostos, que caminhavam em sua direção.

Alguns, cambaleando.

Outros, pareciam estar em plena forma, apesar da podridão e das larvas que os cobriam.

Àquela altura, Seu Adamastor já tinha agarrado Marlon.

A voz grave de Renato Russo se transformou em um gritinho abafado e afeminado.

Apavorado, ele não conseguia se mexer.

Outros mortos chegaram e seguraram suas pernas e braços.

Paralisados pelo horror, Sueli, Luís e Luciana viram o amigo sendo assassinado pelos zumbis.

Com força do além, os mortos-vivos arrancaram a cabeça e despedaçaram o garoto.

Marlon chorava quando seu pescoço se rompia.

O som estranho que saiu da boca do amigo, no momento em que a cabeça foi separada do corpo, fez com que Sueli vomitasse.

Gregório, morto há 11 anos, que ocupava o túmulo que ficava atrás do de Seu Adamastor, estava muito castigado pela putrefação.

Literalmente, só o pó.

Mesmo assim, ficou enojado com o vômito da menina.

Chegando por trás de Sueli, envolveu o pescoço rechonchudo dela numa gravata e mordeu sua orelha.

Sentindo o braço fedido em torno da garganta e a dor da mordida, a menina berrou com toda a força.

Nem percebeu que o medo não deixava sua voz sair.”Uuuuaahhhh uuuaaaaaahh…”, murmurava Gregório, cuja língua já havia sido comida pelos vermes.

Na verdade, queria dizer “sua puta desgraçada. Você nunca mais vai gritar perto do meu túmulo”.

Mais uns cinco mortos então se juntaram a ele e, em poucos segundos, Sueli tornara-se uma pasta de carne, sangue e ossos.

Luciana ainda tentou correr.

Mas não havia jeito.

Eles estavam completamente cercados.

Foi pega por Iara.

A defunta achou a menina parecida com sua filha e não deixou que os outros mortos encostassem nela.

A adolescente se debatia, alucinada de pavor, mas não conseguia escapar do abraço da morta-viva, que a arrastou para dentro do caixão.

De onde nunca mais saiu.

Com a cueca toda melada, Luís não se mexia nem fodendo.

Só tremia e chorava.

Gritou quando o primeiro morto agarrou seu antebraço.

Em seguida sentiu as inúmeras mãos geladas e podres encostando em sua pele e suas banhas.

Portanto, estava tão aterrorizado que mal sentiu dor quando sua bochecha esquerda foi arrancada.

Os mortos cravavam os dedos na sua gordura, mordiam.

Então aos poucos, o menino também foi todo despedaçado.

Do túmulo em que estava vomitando, Patrícia viu todos os amigos sendo massacrados.

Parecia até que não havia sido percebida pelos zumbis.

De repente, todos eles voltaram os olhares para ela.

A menina gritou e tentou fugir, mas escorregou no próprio vômito de São Tomé e caiu de costas.

Mas não houve tempo de se levantar. Logo, os mortos já estavam sobre ela.

Assim que o dia amanheceu, só restavam as poças de sangue, que foram secadas pelo sol e não chamaram a atenção de ninguém.

Mas hoje, nem as manchas existem mais.

No local, só sobraram o violão de Marlon e os cacos das garrafas de São Tomé.

Agora, aqueles adolescentes tinham suas fotos espalhadas por delegacias da capital e órgãos públicos, como “desaparecidos”.

E os mortos do cemitério da Lapa puderam voltar a descansar em paz.


ESCRITO POR: Paulo Roberto Zamperetti Teixeira

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