O espelho história de terror mundo sombrio

Vou dar-lhes de muita boa fé, um conselho que devem seguir até o fim de suas vidas: “Nunca chorem frente a um espelho”

O porquê o passado mesmo responde. Isso aconteceu no sul do país, uma cidade na qual a maioria da população era formada por descendentes de Alemães. Na época uma forte onda de frio adoeceu muitos e chegou a matar os mais frágeis, aqueles de pouca idade ou sem condições de ter um tratamento bom.

O nome da garota era Manoela, e como uma boa guria sempre respeitou sua família, nunca se afastando ou seguindo as más companhias. Porém, mesmo muito boazinha, sua vó sempre dizia à sua mãe: “Essa Manoela, desse jeito que é, já já aparece buchuda!”

A menina ouvia tudo calada, rangendo os dentes de raiva, querendo gritar, que na realidade, ela não era assim, não era rodada!

E mesmo indo bem nos estudos, se afastando de qualquer mocinho que mostrasse interesse, crescendo os olhos pra cima dela, Manoela prosseguiu firme: “Vou mostrar quem vai aparecer buchuda!”

Um dia, bem de tardezinha, Manoela chegou em casa e pela fresta da porta ouviu uma conversa. Mesmo muito educada, não tampou os ouvidos a tempo, nem tentou. Manoela ouviu bem sua vó falar à sua mãe: “Vizinha Rita tem um filho em idade pra casar, já já a Manoela fica de maior, junta os dois.”

Sua mãe sempre seguiu devota os conselhos da idosa, porém contestou pela primeira vez, meio murcha ainda: “Manoela tem mesmo é que estudar!”

Por dentro a garota agradeceu a mãe, mas as palavras de sua vó foram um balde de gelo naquele inverno rigoroso: “Quer sua filha buchuda de qualquer guri?? Eles tem boa lábia, você precisa bombear mais sua guria, é novinha demais…!”

Naquele ponto, Manoela ouviu o suspiro comedido da mãe. Não havia jeito. Era decisão final, e nenhum vivente podia salvá-la disso.

Já muito afoita, correu para o quarto, querendo jogar tudo para o alto, gritar que não queria casar com guri algum, muito menos desconhecido! Parou no meio do quarto, o choro preso e a respiração rápida, viu um espelho redondo colado a parede. Correu até lá, levantando o pulso pra quebrar, mas parou no caminho, começando a chorar.

Manoela chorou tanto, que sentiu o ar sair aos solavancos, o peito dolorido, nariz escorrendo e um medo tremendo. Na sua cabeça, ao fitar o espelho com os olhos molhados, pensava em sair dessa situação.

“Mas como?” Sussurrou rouca, mesmo temendo que sua vó e mãe ouçam o que lhe passou pela cabeça, não segurou a língua estando sozinha. “Não vou casar se não tiver noivo.”, completou, mas parecia conter tanto ódio, que ficou pasma. Manoela não era brava!

Se afastou do espelho, sentindo um frio correr pelo corpo inteiro. Naquela noite Manoela dormiu de porta aberta, não conseguindo pregar os olhos, tamanha era sua preocupação.

Naquela manhã de terça, Manoela acordou com uma tremenda dor de cabeça, pareciam tambores no cérebro da garota, tocando uma verdadeira sinfonia.

Quando colocou os pés na sala, estava vazia. Estranhou. Seu olhar alcançou o altar de sua falecida tia, envolto por santos e um pano branco de renda. Ali haviam velas brancas apagadas, que vez ou outra sua vó acendia e dizia: “Pra sua tia achar o caminho dela, quem tá vivo precisa ajudar.”

Mas o que assustou Manoela ali na hora, foi ver no altar a cruz de madeira bem lapidada, tombar mole para o lado até virar.

Da janela fechada não veio vento algum, muito menos da porta. “Prego frouxo?”, sussurrou e virou a cruz, a deixando certinha.

Manoela saiu de casa, com mochila nas costas, pronta para ir ao colégio. Entretanto, no meio da praça, viu muita gente reunida e assustada.

Era praça pequena, conhecida pela cidade toda, havia até um festival todo ano armado ali. Mas agora esse pessoal, aparentava choque ao ver o que havia no meio.

Manoela se aproximou aos pouquinhos, se esgueirando entre sussurros estranhos. Ao ficar no meio do povoado ali parado, sentiu o estômago revirar. Os pêlos dos braços se arrepiaram ao mesmo tempo que sua boca se abriu.

Um homem bem feito, de barba no rosto e roupa de jovem adulto, estava esticado no banco da praça.

Os olhos esbugalhados como se visse um fantasma, mas no peito estava a prova que viu mesmo foi sua morte: um pedaço de vidro fincado no peito.

Sem nada além disso, o sangue formou uma poça no chão de terra, se grudando quase seco. De todos os lados vinham sussurros assustados, gente se perguntando: “foi assassinato?”

E do meio da multidão, saiu uma mulher conhecida, caindo de joelhos do lado vítima. Com roupas de dormir, pareceu ter sido chamada às pressas por tamanho desleixo em se vestir, a adulta segurava o garoto, virando seu rosto com gritos de dor saindo da boca contorcida. Era Rita, clamando: “Meu filho não, Senhor!”

Manoela deu vários passos pra trás, correndo dali até não poder mais. Era ele! Ele é o que sua vó dizia ser bom?? É ele!

Naquela noite Manoela não dormiu, não saiu de casa com medo de ver aquela praça. Sua vó inventava aos vizinhos: “Dor de garota apaixonada…”

Que nada! Ela tava mesmo é apavorada!

Mas ao completar sete dias da morte do garoto, foi feita a missa e todo mundo apareceu, menos Manoela. Por muita briga, ficou e prometeu rezar para a alma do garoto a luz da vela guiar. Mas ao se abaixar frente a vela, sua mão tremeu em acender. Tentava repetir que era coincidência, um espelho não podia matar alguém! Tanto que o dela estava intacto, sem nenhum pedaço a menos!

Quando riscou o fósforo e tocou a vela, a cruz pendeu para o lado outra vez. Manoela levantou assustada, era da sua natureza ser medrosa, mas aquilo era de arrepiar. Manoela riscou outro fósforo, tomou ainda mais coragem e arrumou a cruz. Ao tocar a vela, dessa vez o fogo pegou.

Manoela olhou desconfiada, mas aceitou como o acaso a deixando assustada por nada. Mas ao se ajoelhar ali, por trás de si ouviu um som estranho. Parecia alguém correndo no chão, bem rápido para não ser pego espiando.

Manoela olhou para trás, não viu nada, apenas o contorno dos móveis na sala. Não olhou muito pros detalhes e foi logo fechando os olhos, arrumando um jeito de conversar com o seu pretendido morto, o jovem Rodolfo.

Mas outra vez ouviu alguém correr, sentiu o vento bater. Apertou mais os olhos, e em um sussurro repetia: “Me protege, Tia…”

Às suas costas sentiu uma sombra se aproximar, devagar. Parecia dar um passo de cada vez, contado e calmo.

Na nuca, Manoela sentiu o assobio do vento, bem sereno. Apertou as mãos como pôde, temendo ser a mesma coisa que matou o garoto.

Mas do silêncio absoluto, Manoela ouviu um soluço. Queria tampar os ouvidos, mas o som de choro a fez paralisar. Manoela não estava chorando agora, mas sem dúvidas, aquele som era dela. Da noite que ouviu aquela maldita conversa de sua vó com sua mãe. A imitação da pessoa era perfeita, mas indo chegando no final, parecia imitar caçoando daquela situação. O choro ficou falho e rouco, beirando à um riso curto, insinuando uma breve chacota ao soluçar forçado. Era um som baixo, que ia aumentando, parecia tocar-lhe a pele, se afastava e diminuía.

Manoela planejou na cabeça, levantar e correr até a porta. Mas ouviu um estalo fino, estridente, de vidro se quebrando.

Parecia próximo, e os passos também. A cada pegada, um vidro novo estalava.

Manoela não aguentou mais e abriu os olhos apavorada, sua boca tremia e os olhos ardiam. A vela acesa mal tremulava o fogo, mas agora no lugar da cruz caída, estava um espelho redondo coberto por um pano.

O pano era marrom, o mesmo que sua vó no mesmo dia da morte do Rodolfo, cobriu os espelhos da casa toda avisando: “Deixar sem cobrir, chama o morto do seu descanso.”

Manoela não conseguia se mexer, o medo era maior que sua força. Atrás dela não ouvia nem passos, nem choro, era silêncio completo. Um zumbido passou no seu ouvido, e a mão esfriou ainda mais.

Mas ali, na sala sem qualquer entrada de ar, o pano marrom começou a balançar.

O fato estranho que agora a fez andar para trás, foi a sombra de um dedo apontar. No pano marrom cobrindo o espelho, haviam cinco dedos de uma mão, cutucando o pano tentando tirá-lo.

Atrás de si, ouviu uma voz igual a sua, sem carregar medo ou pavor, dizendo com um riso: “Chora no espelho sua dor.”

Manoela gritou.

O grito alto e estridente, a fez ganhar força, quando o pano marrom caiu do espelho, se virou e correu até a porta. Manoela alcançou a calçada desesperada, do outro lado viu sua vó e sua mãe.

Pronta pra correr apavorada, sentiu uma coisa molhada. Um ardor forte na barriga, junto de uma sensação de fraqueza, era muito mais forte que uma gripe de inverno.

Sua mãe do outro lado desmaiou horrorizada, Manoela ouviu sua vó a chamando desesperada, quando com os próprios pés, a menina voltou para dentro de casa.

Manoela não controlava suas pernas, parecia um fantoche, ou um boneco de cordas. Ao passar da porta, sentiu o cheiro da fumaça: no altar, o pano marrom havia começado a queimar, por culpa da vela acesa.

Manoela gritava que não, implorava e pedia perdão. Não tinha culpa. Não matou ninguém. Não cometeu pecado.

Manoela ouviu a porta da entrada bater, impedindo qualquer um de entrar, e ela de sair. Seus pés, com calma, alcançaram a sala. No altar tudo queimava, o fogo aos poucos se alastrava. Menos o espelho, esse refletia a parede oposta.

Manoela foi obrigada a ficar frente a ele, lutando para não abrir os olhos, mas sentiu os toques bruscos.

Mãos de ambos os lados a obrigando, puxando suas pálpebras, esticando a pele molhada dos olhos até abrí-los a força. Aquele gesto bruto, não era humano.

Manoela viu no espelho fumaça, apenas isso. E do meio, além de braços e confusão, viu seu desespero.

Sua morte.

Seu rosto choroso queimava em chamas, gritando por dentro. Manoela não conseguia dizer nada, mas seu reflexo falava: “Não vai casar se não tiver noivo.”

Na manhã seguinte foi manchete no jornal, uma notícia sensacionalista, longe de ser realidade: Garota viúva antes de casar, morre em incêndio proposital.

Mas no final da matéria, consideraram crucial informar que o único objeto da casa a se salvar, foi um espelho redondo, adornado de madeira.

De todos sofrendo a morte, a única que imaginava a verdade era a vó de Manoela, essa sim sabia. Ela viu uma sombra atrás da menina, a fazendo voltar para dentro da casa, mesmo tendo o vidro enfiado nas costas. E pra família toda, sempre dizia, pois ouviu a neta pedir ao espelho a morte do filho de Rita: “No espelho, só sorria.”

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