Um Cadáver no Porta-Malas

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Final de semana prolongado, com um daqueles feriados na quinta-feira e recesso na repartição pública na sexta. O resultado já podia ser visto no domingo: Saindo da cama perto das 13h, uma montanha de louça suja na pia da cozinha, assim como algumas peças de roupa que passaram noites no varal. Como moro sozinho, deixei de lado esses afazeres domésticos, aos quais não sou mesmo muito chegado, e praticamente não parei em casa. Futebol com amigos, barzinhos, uma bebedeira de leve (existe bebedeira de leve?), uma namoradinha básica… saio da cama já destruído pensando em como me preparar para a segunda-feira com a semana inteira de trabalho acumulado me esperando…

Na garagem, o velho Chevrolet Omega, motor 4.1, herdeiro do lendário Opala. Corro os olhos na angústia de encontrar algo errado… não era de meu feitio dirigir alcoolizado, mas vez ou outra acaba acontecendo… pois bem, aparentemente tudo certo com a minha tão querida máquina que, curiosamente, estava impecavelmente bem estacionada na estreita garagem.

Mas algo me incomodava… um sexto sentido, intuição… não, intuição é coisa de mulher… de qualquer forma, havia algo que me alertava que as coisas não estavam assim tão tranquilas quanto pareciam…

Tudo certo no interior da nave mãe, como carinhosamente sempre chamei o Omega. Mas faltava um lugar que seria o mais suspeito e curiosamente deixei para olhar somente depois: a mala.

Nem no romance policial mais barato seria tão óbvio encontrar aquele cadáver bem ali, na mala do carro. Estatura média, magro, bem vestido, e mortinho da silva. Por alguns instantes ainda nutri a esperança de estar apenas desacordado, bêbado, algo assim, mas logo me certifiquei que não havia sinais vitais. O corpo já estava frio e, para confirmar minhas expectativas, a camisa preta encharcada na região do peito, com algo que logo concluí ser sangue.

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Não sei exatamente quanto tempo se passou e o que realmente aconteceu até o momento em que empunhei o telefone e liguei para o Germano, delegado da comarca e velho conhecido meu. Não era exatamente um grande amigo, mas sempre foi um homem correto, honesto, assim como eu sempre o fui, e conhecido da família há tempos. Ele me ajudaria a entender aquilo. Me ajudaria a entender como aquele corpo teria aparecido no meu carro. Em nenhum momento sequer pensei na hipótese de ser o autor da obra. Precisava que alguém me ajudasse, e ele me pareceu ser a melhor opção, a coisa certa a se fazer.

— Ah não me parece grande coisa, você só tem um defunto baleado no teu carro…

— Não brinque cara, eu tô desesperado aqui… não fiz nada disso e… não te falei que foi morto à bala, falei?

— E você acha que fez isso à faca? Tem as mãos limpas, não tem?
Imediatamente examinei minhas mãos e não havia marca nenhuma, estavam limpas mesmo. Mas de que diabos ele falava afinal?

— Cara, não dá pra falar assim por telefone, venha aqui e me ajude de algum jeito.

Naquele momento eu já avaliava ter sido uma má ideia procurar ajuda logo com o delegado, por mais que o conhecesse e confiasse nele.

— Você tem uma pá aí com você?

A conversa seguia um rumo estranho… já de início ele aceita com certa naturalidade o fato de eu encontrar um cadáver na mala do carro, em seguida conclui que havia ferimento causado por arma de fogo e, dando continuidade a tudo, sugere que eu desse um fim no corpo enterrando-o no meio do mato?

Os minutos de conversa se seguiram de uma forma angustiante, pelo menos para mim. Ele sugeria com insistência que o defunto na mala do carro teria sido obra minha. Apesar do meu desespero, fazia piadas da situação, que se desenhava cada vez mais bizarra. Em meio às orientações que ele me passava, tive a impressão de conseguir ouvir a torneira da pia da cozinha gotejando num ritmo torturante sobre a louça suja, assim como ruídos estranhos que eu não sabia dizer de onde estariam vindo. Senti vertigens, calafrios e perturbações na visão, tendo a impressão de que um desmaio estaria próximo de acontecer. Mesmo assim, consegui pegar as ferramentas e materiais que ele tinha pedido e vesti uma camiseta, colocando em seguida o carro na rua para encontrar Germano no local combinado. Acredito nem ter fechado a porta de casa ao sair.

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Não foram rodadas mais de três quadras e em uma esquina fui repentinamente fechado por um carro que de imediato percebi ser da polícia. Logo avistei outro se aproximando, em grande velocidade. Foi necessário frear forte para evitar uma colisão e, muito rapidamente, já havia três ou quatro policiais próximos ao meu carro, apontando armas pesadas em minha direção, enquanto gritavam a ordem de descer do carro com as mãos para cima. Obedeci prontamente. Podia estar muito confuso, mas não era imbecil a ponto de esboçar qualquer reação diferente da ordem recebida. Uma vez fora do veículo, fui algemado com brutalidade, enquanto alguém lia os meus direitos. No momento em que era colocado aos trancos dentro de uma das viaturas, ainda consegui ver um policial examinando o interior do meu carro, e sabia que seria questão de instantes para que encontrassem o corpo, já havia algumas horas sem vida, do delegado Germano, dentro do porta-malas do velho Chevrolet Omega.


ESCRITO POR: Sergio Kuns


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