A Autópsia

Marcus era perito em autópsia, expert no assunto e considerado o melhor do país. Certo dia precisou viajar para uma cidadezinha, pois havia suspeitas de morte por envenenamento de um fazendeiro muito rico daquele local. Por isso, um dos filhos do fazendeiro ofereceu uma quantia em dinheiro muito alta a Marcus, para que ele realizasse a autópsia, mas teria de ser o mais breve possível, porque os outros filhos do fazendeiro eram os suspeitos e não poderiam saber que seria realizada por um médico de fora da cidade.

– Preciso que o senhor esteja aqui antes do amanhecer – por telefone solicitou Hurley, filho mais novo do fazendeiro.

– Sairei no final da tarde, tenho alguns compromissos a realizar durante o dia, devo chegar à noite no hospital. Antes do sol nascer no dia seguinte, a autópsia estará pronta – respondeu Marcus.

– Ótimo! Vou lhe recompensar, pagarei um valor extra, mas não esqueça, caso algum dos meus irmãos ligar para o senhor, não diga que está vindo para cá, não quero que eles saibam, estamos suspeitando que eles são os autores do crime, do envenenamento.

– E os responsáveis pelo hospital, também ficarão em sigilo?

– Sim, já conversei com o responsável, manterá sigilo.

– Ok, até breve – respondeu Marcus, e desligou o telefone.

No final da tarde, Marcus pegou sua maleta com seus instrumentos de trabalho, ligou para sua esposa e contou sobre a viagem de trabalho que precisava realizar. Imediatamente, seguiu viagem rumo à cidadezinha. Após três horas de viagem, o telefone de Marcus tocou, era Hurley.

– Alô, Hurley?

– Sim, sou eu senhor, desculpe estar ligando novamente, mas o responsável pelo hospital exigiu que o médico local esteja presente na autópsia, para lhe auxiliar e para que não haja suspeitas após o resultado final, ele quer se precaver. O nome do médico é Jackson, conhecido aqui na cidade e chamado de Jack.

– Fique tranquilo, sempre é bom ter alguém para ajudar.

– Mas tem um probleminha.

– Qual?

– O médico local é um pouco estranho, dizem que ele fala com os mortos!

– Hahaha! Isso não é problema, nessa profissão costumamos conversar com os mortos – aos risos explicou Marcus.

– Se não é problema para o senhor, ótimo, mas estou avisando, ele é estranho e tem fama de ver e conversar com os mortos.

– Certo, aproveitarei para conversar também, hahaha!

Quando de repente, Marcus distraído por estar no telefone, ouviu um barulho, então olhou para frente e avistou um vulto na estrada, parecia ser um animal, um cervo, tentou desviar mas acabou topando nele e em seguida com o carro desgovernado, colidiu de frente em uma árvore. Com a colisão, Marcus ficou preso nas ferragens, deixou o telefone cair de sua mão e não o encontrou mais, ficando impossibilitado de pedir ajuda.

Minutos depois, um caminhão que estava passando por ali, parou para ver o acidente, o motorista do caminhão ao ver Marcus dentro do carro, ficou aterrorizado com a cena, e assim chamou uma ambulância, ficando no local do acidente até o socorro chegar.

Marcus foi levado para o hospital, chegando lá, percebeu que era o mesmo local onde faria a autópsia do fazendeiro. Os procedimentos de atendimento a Marcus foram realizados, mas ele não estava preocupado consigo, ele estava preocupado com a tarefa que deveria realizar, a autópsia do fazendeiro. Estava em uma sala escura, luzes apagadas, deitado em uma maca, não estava mais sujo de sangue, porém, estava nu. Achou um pouco estranho, todavia, deveria ser comum naquele hospital deixar os pacientes acidentados nus, nas salas de recuperação, pensou Marcus. Não querendo perder tempo, levantou-se da maca, procurou algo para se vestir até encontrar um avental.

Na sala onde estava, haviam duas portas, uma dava acesso a um dos corredores do hospital, a outra à sala de autópsias. Parecia ser a noite de sorte de Marcus, ali estava a sala, do seu lado, consequentemente, dirigiu-se até ela. Lá haviam duas macas, cada uma com um cadáver, também havia um homem, próximo das macas, logo Marcus se aproximou do homem e pigarreou. O homem estava de costas para a porta, virou-se com o barulho e se assustou.

– CREDO! – Gritou o homem.

– Não se assuste, sou o Doutor Marcus, vim aqui para realizar a autópsia no fazendeiro, Alfred, pai de Hurley.

– Ah! Sim, creio que não será mais o senhor que fará a autópsia em Alfred, porque… bom, deixa pra lá, se o senhor está aqui, vamos começar, eu sou o Doutor Jack.

– Jack, prazer, disseram que você estava aguardando para me auxiliar, precisamos terminar a autópsia antes do amanhecer, creio que você está ciente da situação.

– Sim, estou.

– Vamos iniciar, qual desses é o corpo de Alfred?

Jack aponta para um dos corpos, o que está na maca a sua esquerda, então, Marcus retira o lençol branco que cobria o cadáver.

– Nossa! Nossa! Ele está com uma cor diferente, não vou me precipitar em dizer algo só pela cor da pele, temos muito trabalho e já são quase três horas da madrugada.

Médico perito e médico assistente começaram os procedimentos da autópsia, porém, após alguns minutos em silêncio, Marcus solta o bisturi e pergunta para Jack:

– E esse outro aí, quem fará a autópsia?

– Não sei, as ordens que recebi foram para acompanhar e auxiliar o senhor somente na do fazendeiro.

– Mas quem é esse outro aí? O da outra maca, quem é?

– O senhor não gostaria de saber. – Afirmou o médico assistente.

Antes de Jack terminar sua resposta, rapidamente Marcus tirou o lençol que estava sobre o cadáver, ao olhar para o rosto do morto, Marcus ficou pálido, não acreditou no que viu.

– Como assim? Só podem estar de brincadeira comigo, – boquejou Marcus.

– Ninguém está de brincadeira aqui, muito menos com o senhor, Doutor Marcus, – seriamente replicou Jack.

O perito legista viu tudo girar em sua volta, sentiu náuseas, agachou-se até o mal estar passar. Após sentir-se melhor, foi logo pegando a prancheta que estava pendurada na maca, nela continha todas as informações necessárias para sanar suas dúvidas referente ao cadáver que estava sobre ela. Ao ler o nome da pessoa que estava morta, parecia não acreditar no que estava lendo, imediatamente gritou:

– ISSO NÃO PODE ESTAR ACONTECENDO COMIGO, NÃO PODE SER VERDADE!

– Sim, é verdade, não é um sonho, não lembra de nada? – Jack questionou Marcus. – O senhor ficou muito ferido com a colisão, apagou, talvez o trauma do acidente lhe fez esquecer dos detalhes, faça um esforço para lembrar e tudo ficará claro, – continuou Jack.

Marcus voltou a olhar para a face do cadáver, começou a lembrar, a chegada da ambulância, o atendimento dos paramédicos, lembrou de tudo. Olhou mais uma vez para a prancheta que agora estava em suas mãos e leu em voz alta:

– Nome do paciente: Jackson Parton Gomes. Causa da morte: atropelamento.

– Pois é, Doutor Marcus, eu estava lá na estrada também, próximo ao acesso da cidadezinha, todas as sextas-feiras saio para caçar, eu já iria voltar, pois recebi uma ligação do hospital para acompanhar um famoso médico legista em uma autópsia, mas vi o cervo e tentei pegá-lo. Dessa vez quem foi “pego,” fui eu. Quando acertei o tiro de raspão no animal, lembro de correr atrás dele para um segundo tiro, mas corri para atravessar a estrada e fui atropelado, sabe por quem? Pelo senhor, e aqui estou conforme prometido, vou auxiliá-lo na autópsia do fazendeiro. E essa outra aqui, – Jack aponta para a porta da sala de autópsias, onde um enfermeiro estava entrando, empurrando outra maca com um cadáver sobre ela, e continuou falando para Marcus, – nessa outra maca está a minha vingança, da sua falta de atenção.

Marcus correu na direção da maca que estava sendo empurrada pelo enfermeiro. Quando olhou para a pessoa que nela estava deitada, já sem vida, ficou sem reação.

– Deixe que eu te conto como isso aconteceu, – ironicamente enunciou Jack.
Sem piedade continuou:

– A causa da morte não precisa de autópsia, foi um infarto fulminante, ao chegar aqui no hospital não resistiu, mesmo o senhor estando vivo, o choque da notícia recebido ao chegar no hospital, foi fatal.

– Não! Rochele não! Minha esposa, não! Não! Não!

Marcus foi amparado pelo enfermeiro e retirado da sala, ele nunca mais voltou a exercer sua profissão, até o dia em que…

Por: Agui De Rossi

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