Palhaço

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Nessa longa vida acadêmica, ao menos uma coisa é certa, o pé na estrada sempre foi constante. E uma dessas idas e vindas em finais de semana na casa da mamãe, acontecera algo que mudou minha vida completamente.

Era um domingo nublado quando fui ao guichê comprar minha passagem de volta para meu mundinho monótono, a moça da empresa de viação me informou que teria ônibus somente às vinte e três horas e trinta minutos. Era uma péssima hora para viajar, mesmo sendo perto para meu destino, iria ainda chegar de madrugada; infelizmente não havia escolha, então para minha sorte ou minha infelicidade – como preferir – tinha uma poltrona era do lado da janela.

Vinte e três horas e trinta minutos:

O ônibus chegou, me despedi de meus pais e embarguei, a pessoa que supostamente iria ao meu lado, não estava presente. Achei extremamente agradável tal situação, assim a viagem não seria tão cansativa e assim poderia me sentir à vontade para me sentar nas duas poltronas. Esperei alguns minutos e ao perceber que ninguém sentaria, joguei meu travesseiro de um lado e me encolhi no banco, deitada com a visão da janela, podendo ouvir minhas músicas, observando os raios se entrelaçando no céu, transformando minha noite em um pleno espetáculo.

Enquanto curtia um Another Brick in The Wall, percebi que entramos em uma cidade e estávamos passando por um parque lindíssimo, com pista de skate, de cooper que contornava o lugar, além de um gramado bastante cuidado. Estava fascinada por aquele cantinho tão lindo para a população, até que algo maior me chamou atenção: O parquinho.

Ao virar, o ônibus mostrou o outro lado do parque, uma área para crianças, um parquinho com direito a escorregador, casinhas, gangorra e por fim os balanços que me instigou imensamente. Próximos aos balanços estava parado em pé um palhaço de aparência adorável: seu rosto esbranquiçado deixava intenso o vermelho dos cabelos e da sua boca que estampava um grande sorriso, seus olhos eram bastante expressivos; na sua mão esquerda segurava belos balões de cores vibrantes que flutuavam no ar, cores combinando com seu belo traje. Ao ver aquela cena, me ajeitei, sentando-me na poltrona e até me inclinando sobre o vidro para olhá-lo mais detalhadamente.

Ao passar por ele, seus olhos acompanharam o ônibus e com a mão direita acenou gentilmente, não fiz nenhuma reação para tal, até que uma mão tocou no meu ombro me assustando e quebrando minha fixação:

– Moça, nessa parada eu vou ter de sentar no meu lugar, tudo bem? – uma senhora que ocupava o assento, sentou com a vizinha e nesta parada alguém ocuparia o lugar dela e ela infelizmente iria sentar-se comigo. Apenas balancei com a cabeça de acordo com o recado, e voltei minha atenção para o palhaço, para ver se ainda conseguiria vê-lo, mas foi em vão, já estávamos longe do parque.

O ônibus parou na rodoviária daquela mesma cidade e a chuva começou a cair. Meu destino não faltava muito, apenas mais quarenta e cinco minutos, pensei comigo: “- Poxa vida, espero que quando eu chegue não esteja chovendo, se não para pegar e sair do táxi irei me molhar.”

No fim do embarque fiquei torcendo para passar de frente do parque, na esperança de rever o palhaço, mas infelizmente não passou, o motorista pegou um outro caminho, dando direto a rodovia. Para minha sorte a senhora que estava ao meu lado era bastante tranquila, não era aquelas pessoas que gostam de fazer milhões de perguntas sobre nossas vidas.

Encostada com a cabeça no vidro da janela, minha playlist começou a tocar Half day closing, entramos na ponte da divisa entre os estados, o ônibus diminuiu mais a velocidade, por conta da chuva e claro, por ser ponte.

Observava atentamente as gotas que caiam no vidro da janela e escorriam como estivessem em uma espécie de competição entre elas, até que algo bateu no vidro, com o susto tirei meu rosto rapidamente da janela, mas logo voltei com próximo da mesma com intenção de saber o que teria batido.

O ônibus foi diminuindo mais a sua velocidade até que parou, olhei e havia um pequeno trânsito próximo a usina Jupiá, um lado da ponte estava em reforma e só o outro lado estava liberado para a passagem. Vagarosamente o ônibus ia caminhando, apreensão brotou em meu peito, pois não sabia se chegaria em casa antes das duas horas da manhã. Encostei a cabeça novamente no vidro e levantei meu olhar para a vastidão do céu, vendo como os raios e relâmpagos ficavam mais bonitos diante do rio.

O espetáculo celeste foi quebrado por um enigmático balão de cor amarela que estava sobrevoando pela imensidão escura, consequentemente meu olhos correram para a pista a fim de solucionar o mistério. Para meu infortúnio destino, estava na beira da ponte um palhaço de costas, pelas cores vibrantes dos balões e de sua roupa, seu cabelo intensamente vermelho poderia afirmar com total convicção que era o mesmo palhaço do parque. Mas por que ele estava na chuva e ali na beira da ponte? Talvez fosse um suicida. Entrei em total curiosidade sobre o que ele faria, e torcendo para ele saísse de lá, pois se caísse dentro do rio, provavelmente não sairia com vida, com a chuva a correnteza estaria mais forte do que de costume.

Ele começou a se mexer, girando vagarosamente para frente da pista, ao fitar meus olhos em sua face me assustei. Seu rosto estava absolutamente diferente do que avistei anteriormente; seus olhos encontravam-se vermelhos e brilhantes, a boca estava cortada verticalmente transformando maior o seu sorriso, mostrando com orgulho seus dentes pontiagudos e amarelados. Existia cortes profundos em várias partes do rosto e seu nariz vermelho estava imenso. Sua roupa estava suja de sangue e rasgada, na mão esquerda ainda segurava os balões, já a outra mão, bom, pode considerar que não era uma mão humana, mas sim animalesca, onde seus dedos pareciam garras.

Ao me deparar com toda bestialidade, procurei a cortina da janela, mas justamente no meu assento, não tinha cortina nenhuma, assim o destino obrigava-me a vê-lo. Com todo medo estampado no meu rosto, ele não poderia me pegar ali dentro, o trânsito já estava se desmanchando e antes que ele pudesse chegar próximo ao ônibus já estaríamos longe dali.

Ele começou a andar lentamente dando um passo de cada vez, seu olhar era somente para mim, olhei para senhora do meu lado e estava dormindo tranquilamente, levantei um pouco meu corpo e dava pra contar em uma mão quem estava acordado, e os únicos que estavam acordados haviam entrado em transe mexendo em seus smartphones. Naquela noite, tinha tirado o bolão do azar, afinal, tive o desprazer para assistir o espetáculo do horror.

No meio do caminho em direção ao ônibus ele parou inclinou a cabeça de lado e começou a rir satanicamente – sua risada era perturbadora- visivelmente estava sentindo e adorando o cheiro do meu medo. Afortunadamente com a ajuda divina o ônibus acelerou e prosseguiu o caminho para a próxima parada, na qual era a minha. Oras, não via logo a hora de chegar na minha casa e me trancar, me sentir segura mesmo sendo sozinha.

Na chegada à rodoviária tomei o primeiro táxi ligeiramente direto para meu apartamento, e no meio do percurso tentava enganar a mim mesma sobre tudo que presenciei. Ao fim da corrida, paguei o taxista, dei boa noite ao porteiro e entrei às pressas. Enquanto eu subia as escadas comecei a procurar a chave no bolso de fora da mochila, o chaveiro estava enroscado em algum tecido até que sem nenhuma paciência puxei com força para fora e saiu junto com a chave um nariz de palhaço. Minhas pernas ficaram tremulas repentinamente, não conseguia enfiar a chave na fechadura da porta, escutei passos subindo a escada, não conseguia conter meus olhos para fechadura, e observava o corredor de lado pra lado, na maior tensão já vivida, ditosamente abri a porta e entrei depressa para o lado de dentro, fechei a porta e encostei minhas costas nelas, esperando que o dono daqueles passos iria passar ou não passar; passaram, era o casal do apartamento 206 voltando de uma festa e estavam bêbados.

Comecei a rir da minha paranoia, tirei a chave do trinco e coloquei no porta-chaves. Acendi a luz da sala, fui a cozinha para buscar um copo d’água e acalmar a tensão, até que a campainha tocou. Quem poderia ser aquela hora? Olhei para o relógio, o ponteiro marcava exatamente três horas. Fui bem sorrateiramente até de frente da porta, esperei um pouco e novamente a campainha tocou: aproximei meus olhos para olho mágico e não tinha ninguém lá fora. Pensei comigo mesma e cheguei a uma conclusão que certamente era meus vizinhos fazendo alguma dessas brincadeiras de bêbados, tentei não me incomodar.

Estava morta de cansaço, queria tomar um banho e dormir – foi o que fiz -, coloquei It’s Alright e entrei para o banho, evitei pensamentos negativos, apenas tentando esquecer o que passei naquela noite; forçando-me a relembrar o meu fim de semana, que de fato fora esplêndido. Quando saí do banho, enrolada na toalha escutei um barulho que vinha do quarto, sem medo percorri o caminho com total segurança, ao acender a luz vi um balão de cor vermelha batendo no teto e uma mão tocando no meu ombro. E num suspiro ríspido, o balão vermelho, aquele balão de cor tão vibrante estourou em minha frente, tornando-se esta minha última memória viva.

Por: Lorraina Costa

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