A Visita do Morto

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Esta história remonta à minha infância, de maneira que já correm mais de vinte anos desde o acontecido.

Morávamos, minha mãe solteira, meu irmão maior, o caçula e eu, em um chalé de tábuas fornecido pela prefeitura às famílias pobres, no fim dos anos de 1990. A casa, como vocês podem presumir, se resumia a um cômodo estreito, em cujo interior a delimitação entre sala, cozinha e quartos praticamente inexistia, dada a ausência de paredes internas de função divisória, obsoletas em um casebre. O banheiro, igualmente diminuto mas bem construído, ficava fora da casa, aos fundos do pátio.

De vez em quando, Ana, mulata quarentona, se agregava à nossa casa, morando um tempo conosco. Ela conhecia minha mãe desde a mocidade e havia entre ambas uma camaradagem que os anos e os reveses comungados na vida acabaram firmando. Essa mulher, no entanto, tinha um temperamento ambíguo, pois sabia alternar instantes de bonomia com transes de ódio peçonhento, provavelmente em decorrência das judiarias que a pobreza e a prostituição dos tempos idos lhe impuseram. Certa feita, conhecendo minha habilidade de catar bichos miúdos e encerrá-los em potes de vidro, ela me encomendou um escorpião. Minha mãe, porém, à revelia da amiga, me dissuadiu de caçar o bicho e entregá-lo à solicitante, porque Ana, segundo aquela, desejava usá-lo para matar seu companheiro, desejoso, por sua vez, de dar fim ao concubinato e jogar a mulher ainda uma vez na vida errante e miserável, sem eira nem beira.

Um tanto sibilina, Ana entendia de bruxaria, feitiçaria, patuás e coisas afins, às quais recorria nas horas difíceis, seja como auxílio nas tribulações, seja como vingança contra desafetos. Vivia, portanto, sempre às voltas com toda sorte de entidades de cujos nomes me esqueci e que eu só conhecia da boca dela.

Uma noite de verão, estávamos todos deitados perto uns dos outros, no trecho da casa destinado às camas. O caçula e eu com nossa mãe na cama maior, meu irmão no beliche que só dispunha de um colchão, Ana no chão, ao pé de nós. As luzes apagadas. Para afugentar o tédio e atrair o sono, as duas mulheres entraram a contar causos da vida, alusivos à boêmia provinciana dos anos de 1970, quando canções como Dama de Vermelho, Boate Azul e outras despontaram nos clubes e cabarés. Causos variados, uns trágicos, outros pitorescos, todos muito divertidos. Ana relembrava um de seus diversos maridos, sobre o qual dizia mais ou menos o seguinte:

– Ele ardia de ciúmes por qualquer coisinha. Arrumava briga com os outros, me prendia em casa, chorava, bebia, o diabo a quatro. Me jurava amor, me fazia música. Era obcecado por mim. Um dia, nós deitados, ele me disse que quando morresse ficaria sempre perto de mim. E se eu falasse no nome dele, ou me referisse a ele de qualquer forma, ele me faria uma visita, mesmo morto.

– Tu fala do Antônio, aquele moço rico, beberrão e descornado? — perguntou minha mãe, mas eu não recordo se Ana confirmou ou não a hipótese da amiga. O que sei é que, mal elas fecharam as bocas, três fortes batidas ressoaram na porta dos fundos, exatamente no compartimento onde estavam nossas camas. Ana teve um sobressalto seguido de um gemido fraco. O caçula (muito impressionável) desatou a chorar, minha mãe (nervosa de um jeito singular) começou a rir às soltas, eu me mantive quieto, malgrado ofegante e com o coração aos pinotes, meu outro irmão roncava alheio a tudo.

Quem bateu na porta não quis proferir palavra nem repetiu as batidas. Embora fossem finas as paredes, não ouvimos o ranger do portão da frente acusando intruso, não ouvimos os passos palmilhando o chão arenoso do nosso pátio, não ouvimos nada senão as batidas subsequentes à última conversa das mulheres.

Mas sabem o que mais nos impressionou? Tínhamos um guaipeca, mestiço de não sei quê com alguma coisa. Cachorro de pobre, padecia tanta fome, tanta sede, tanta falta de carinho que se tornou um bicho revoltado e esquivo, dono de uma valentia e uma fereza que não correspondiam ao seu tamanho e à sua força. Por conta disso, não perdia vaza de investir no que quer que fosse: animal, gente, coisa… Volta e meia aparecia com um pardal morto entre os dentes, e não raro, nos relances de loucura, atacava seres invisíveis que ele farejava ao seu redor. Se era brabo de dia, de noite era insano e fazia um alarido por qualquer razão. Dormia defronte à porta dos fundos, muito rente a ela. Pois bem. Ele naquela noite não se pronunciou, não houve rumor seu, nem um ligeiro rosnado. Nada.

No outro dia, durante o café da manhã, sonolentos, meu irmão pequeno e eu ouvimos a confirmação de Ana de que as batidas foram dadas pelo defunto apaixonado, cuja alma saltara da campa para acudir ao chamado da mulher. Elas riam, nós contudo, sérios como estátuas, tínhamos a pele arrepiada, os pelos eriçados, além de uma boa história para contar aos amigos no colégio.

Anos depois, já na segunda quadra da adolescência, passei por Ana no centro da cidade. Anos antes, minha mãe e ela romperam a amizade numa briga cheia de palavrões e tentativas mútuas de agressão física, por motivos que me escapam. Ela me olhou de revesgueio e pude notar um riso mau, um riso zombeteiro, se bem que quase imperceptível, nos seus lábios delgados. Parecia congelada na mesma aparência de antigamente. Arrastado pelo fluxo de consciência, lembrando fatos e fazendo toda sorte de associações, uma estranha cogitação me sobreveio ao espírito:

– E se, naquela noite da suposta visita do morto, foi a própria Ana que cerrou o punho e bateu na parede ou no soalho, para nos pregar uma peça sinistra, talvez com o consentimento e cumplicidade de minha mãe?

Nunca saberei. Seja como for, minha mãe, acumpliciada ou não à ex-amiga, vez por outra relembra o acontecido, entre séria e risonha.

Por: Pablo Ferreira

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