Cemitério dos Ossos Cruzados: Uma necrópole fantasmagórica em Londres

por Mundo Sombrio
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A área conhecida como Cemitério dos Ossos Cruzados fica ao sul de Londres, onde o famoso Teatro Globo de Shakespeare estava localizado, sempre teve uma aura de depravação e corrupção.

A região ficava nas proximidades do Embarcadouro, uma área portuária movimentada que constantemente recebia mercadorias de todos os tipos. Contrabando era tão comum ali que as pessoas apelidaram o cais mal concebido de “Counterfeit Row”. Lá, era possível negociar desde produtos roubados e saqueados por piratas até substâncias entorpecentes trazidas do distante Oriente, bem como escravas brancas.

A Origem do Cemitério dos Ossos Cruzados

No século XVII, a região era tão perigosa que as autoridades de Londres evitavam enviar policiais até lá. Relutantemente, eles designaram uma autoridade local para manter a ordem na área, mas ainda assim era um trabalho arriscado. Uma espécie de conselho formado pelos próprios criminosos impunha a lei e a ordem, de maneira rápida e implacável.

Até meados do século XIX, a região manteve sua notoriedade pela atividade criminosa e violência, registrando um elevado número de assassinatos em seu entorno. O cais era especialmente perigoso e não era incomum que corpos surgissem flutuando nas águas turvas. Foi somente no final da Era Vitoriana que a área passou por uma reforma, à medida que os limites da metrópole foram expandidos.

Antes do final da Era Vitoriana, o Embarcadouro era famoso por sua infame atividade de tavernas e bordéis de qualidade duvidosa. A prostituição era tão comum que as negociações ocorriam sem pudor em calçadas lotadas. Os becos e vielas estavam cheios de clientes que praticavam sexo rápido, em pé, usando os muros como apoio. Depois de terminado o ato, o cliente deixava algumas moedas no chão e saía sem olhar para trás.

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Group at Hardham’s Tobacco Shop’, circa 1880. Customers taking snuff at Hardham’s Tobacco Shop in Fleet Street, City of London, in the 18th century. From “Old and New London”. Artist Unknown. (Photo by Print Collector/Getty Images)

As prostitutas locais eram conhecidas como “Gansos de Winchester”, por exibirem seus seios empoados de branco para atrair os transeuntes. A expressão “bicado por um Ganso de Winchester” se referia a ser contaminado por uma doença venérea, algo muito comum. As mulheres também eram famosas por suas mãos rápidas, que subtraíam carteiras e objetos de valor enquanto os clientes estavam distraídos.

A razão pela qual as mulheres procuravam este lugar era porque os cafetões não conseguiam operar ali. No entanto, isso não significava que as mulheres conseguiam manter seus ganhos. Entre os séculos XI e XV, os bordéis e casas de tolerância eram administrados pela Diocese de Winchester, que tinha o direito de licenciar e taxar as atividades da zona de meretrício. Somente no final da Era Vitoriana a área foi renovada, à medida que os limites da metrópole eram estendidos, e Londres não podia mais ter um distrito tão insalubre.

Cemitério dos ossos cruzados uma necrópole fantasmagórica em londres
Cemitério dos Ossos Cruzados antes

Pode parecer incrível, mas a Diocese de Winchester tinha o direito exclusivo de licenciar e tributar as atividades da zona de prostituição, graças a um hospital operado pela igreja na área. Em troca do tratamento gratuito aos habitantes, uma grande parte dos lucros obtidos com a prostituição era destinada à paróquia – quase metade ia para o clero.

A Diocese de Winchester era extremamente cuidadosa com sua participação nos lucros, chegando a empregar contadores e funcionários para manter seus negócios em constante funcionamento. A atividade era altamente lucrativa e qualquer concorrência era imediatamente reprimida. Se um cafetão tentasse estabelecer-se, poderia não viver para ver o dia seguinte, e as mulheres que tentassem operar independentemente podiam sofrer acidentes que as fizessem mudar de ideia. Muitos criminosos perigosos eram encarregados de proteger os interesses da Diocese, e não toleravam intromissões ou subterfúgios.

Os bordéis, conhecidos como “panelas de ensopado” (stews pots), eram verdadeiros antros que prosperavam sob um rígido código de conduta. As prostitutas tinham que se registrar, não trabalhavam em dias santos e não podiam dormir com ninguém que não as pagasse. Clérigos especialmente designados para cuidar desse rentável negócio recebiam o apelido de “vigários” e eram identificados por um chapéu vermelho de aba larga ou pelos cacetetes que usavam para disciplinar suas funcionárias.

Embora o Bispo de Winchester estivesse satisfeito em tributar as trabalhadoras sexuais, ele não estava disposto a deixá-las serem enterradas em solo sagrado. A prostituição era vista como uma atividade pecaminosa e, embora amplamente tolerada, havia uma questão moral que fazia as pessoas torcerem o nariz quanto a serem enterradas ao lado de quem vivia (ou morria) nesse meio.

Então, a comunidade local decidiu comprar um terreno, uma área onde poderiam enterrar as mulheres que morriam no Embarcadouro. O terreno, oficialmente chamado de Pátio da Mulher Solteira, era conhecido como Cemitério dos Ossos Cruzados, devido a uma placa de madeira com dois fêmures pregados em forma de cruz sobre o portão de entrada.

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O solo lamacento do Cemitério dos Ossos Cruzados recebeu cadáveres que foram colocados em covas rasas ao longo de quase 300 anos. Muitas vezes, os mortos não tinham a dignidade de serem colocados em caixões e eram enterrados em lençóis simples. Devido às constantes inundações, ossos e restos mortais eram levados pela maré. Ratos, pragas e insetos proliferaram, e em mais de uma ocasião, o local foi o epicentro de epidemias.

Não é surpreendente que o Cemitério tenha ganhado fama de assombrado nas décadas seguintes à sua criação. Tristeza e desolação eram constantes em seus arredores, e à noite, as pessoas evitavam passar pela trilha de terra batida que levava até lá. Havia rumores, muitos rumores…

Mencionavam sombras e silhuetas espectrais flutuando sobre a terra remexida do Cemitério dos Ossos Cruzados. Marcas de pegadas eram vistas na lama, e às vezes as covas pareciam ter sido escavadas de dentro para fora. O pior de tudo eram os sons lamurientos que ecoavam pelo local e que podiam ser ouvidos mesmo a distância. Eram sons de xingamentos, murmúrios indefinidos e gritos que faziam arrepiar a espinha. Às vezes, havia também uma repetição indecorosa de palavras desconexas e risadas estridentes. Sempre vozes femininas. Sempre mulheres!

Diversas testemunhas relataram experiências aterrorizantes nas imediações do Cemitério dos Ossos Cruzados ao longo dos anos. Em um incidente famoso ocorrido em torno de 1480, dois coveiros foram encarregados de sepultar uma jovem, mas voltaram horrorizados, contando histórias sobre um espírito enegrecido que os perseguia. Um dos coveiros teve seus cabelos escuros completamente embranquecidos.

Além das mulheres, o Cemitério ficou notório por receber os restos mortais de bebês não batizados e fetos abortados, uma prática quase epidêmica na região. Relatos de choro de bebês e pequenos globos de luz pálida com a forma esquálida de recém-nascidos também eram relativamente comuns.

O solo do Cemitério dos Ossos Cruzados continuou a receber muitos corpos ao longo dos séculos. Em 1600, a Igreja perdeu o monopólio sobre a prostituição no Embarcadouro, e o cemitério foi transformado em um local para receber os corpos de pobres que não tinham meios para pagar por um enterro. Ele foi muito utilizado durante epidemias de cólera e meningite trazidas pelos marinheiros que vinham de longe. Sem nenhum lugar melhor, valas comunitárias foram cavadas e os corpos foram lançados ali sem cerimônia.

Por fim, os restos humanos foram retirados do Cemitério para alimentar o tráfico de cadáveres que abastecia as aulas de anatomia nas Universidades de Medicina de Londres, em um ato de indignidade final.

Oficialmente encerradas em 1920, as atividades do Cemitério dos Ossos Cruzados deveriam ter sido seguidas por planos de remoção e relocação dos restos mortais para outro local menos suscetível a inundações. Entretanto, tais planos nunca foram concretizados e os ossos continuaram repousando no mesmo lugar, mesmo que obras de contenção tenham sido realizadas para mitigar as enchentes.

A fama de assombrado persiste, transcendendo os séculos. Entre os espíritos inquietos que assombram o lugar, destaca-se Polly Gritadeira, uma mulher jovem e magra que supostamente aparece em noites escuras, proferindo palavras ofensivas e xingamentos contra aqueles que têm a infelicidade de cruzar seu caminho. Outro espírito que assombra a região é Black Annis, uma alma penada que seduz homens com promessas de sexo e, em seguida, os mata.

Em 1992, o Museu de Londres realizou uma escavação no Cemitério dos Ossos Cruzados e descobriu restos mortais enfiados em sepulturas rasas e covas coletivas, com esqueletos empilhados uns sobre os outros. Um grande número de ossos de crianças com menos de seis anos de idade também foi encontrado, chamando a atenção para a violência que muitas delas sofreram antes de morrerem.

Assim como no passado, a área continua sendo assolada por macabros relatos de assombrações.

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