O Caroneiro

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Quem anda pelas estradas da vida sabe que algumas regras devem ser seguidas, e uma das principais diz respeito às caronas. É comum que encontremos pessoas fazendo o clássico gesto do polegar ao longo do caminho. É imprudente atender a tal gesto. Mesmo que seja generosidade, antes disso é impudência, alguns diriam burrice.

Eu fazia aquela estrada de duas a três vezes por semana. Era um trajeto curto, 50 km, com várias propriedades espalhadas  ao longo do trecho, e muita mata. A estrada era, de certa forma, bastante bonita, principalmente em dias de sol. Às vezes acompanhado mas, na maioria das vezes, sozinho. Naquele dia, o sol não tinha aparecido. Nuvens pesadas evitaram que ele desse cor às coisas. Tudo se tornara, naquele dia, frio e cinzento. Meu humor também… Já saindo da cama, bati com o joelho no batente da porta. O velho joelho, que já reclamara seus direitos havia algum tempo, me negando o prazer que eu tinha: o futebol do final de semana.

Se as vendas daquele dia não fossem realmente importantes, como sempre eram, aliás, teria adiado. Mas não podia. Deixei para ver, no dia seguinte, o resultado de errar a porta. Mas aquelas vendas eu não podia adiar. Seria a primeira vez que iria para aquelas bandas, precisava conquistar aqueles clientes.

Havia rodado pouco mais de dez minutos.  Mal saíra da cidade,  vejo um senhor de compleição física frágil, ao lado da estrada, fazendo o conhecido sinal de carona, com o polegar. Sei que é perigoso, mas ele não parecia oferecer alguma ameaça. Parei no acostamento. Roupas rotas, uma mochila velha. Na cabeça um boné promocional de alguma agropecuária, todo torto. Magro, não devia ter mais de sessenta quilos. Quando lhe disse até onde iria, falou ser perfeito, pois desceria um pouco antes.

A conversa não me agradava muito. Começou com “acho que vai chover”, então falou do joelho  que doía,  lembrei do meu, àquelas alturas um tanto inchado,  e logo estávamos falando mal do governo… isso não era nada agradável, seria melhor estar sozinho ouvindo boa música,  sem contar o mau hálito de fumo, os tradicionais “paieiros”.  Dentes amarelados e sujos.

O  sotaque acusava ser descendente de europeus, provavelmente polonês ou ucraniano. Dizia ser agricultor.

Em parte da estrada, quase chegando ao destino, o velho pede para parar. Desce. Humildemente pergunta quanto me devia. Digo que nada. Ele agradece, e tira o boné de aba torta da cabeça, numa reverência.  Então toma uma estrada à esquerda, as chamadas vicinais. Some da minha vista, rapidamente.  O carro ficou impregnado pelo cheiro de fumo e tive que deixar os vidros abaixados por algum tempo.

O dia voa, e visito a todos os clientes. A pequena cidade, cuja economia se dava com base na cultura de feijão e erva-mate, era um prato cheio, afinal eu era vendedor de insumos para a agricultura.  Volto para a estrada pensando que veria, no caminho, os últimos raios de sol, no retrovisor do carro. Já presenciara tal cena antes e era realmente algo lindo de se ver. Com boa música de fundo, seria perfeito. E era sexta-feira.

“Sweet home Alabama, where the skies are so blue…” cantava Ronnie Van Zant, na playlist. O esperado pôr-do-sol, no retrovisor, acontecia. Ao meu lado, uma long neck puro malte que, caprichosamente, me esperava. Muita  gente acha que precisamos de muito dinheiro e sucesso para sermos felizes. Quão tristes são essas pessoas, que não percebem que, nos pequenos prazeres da vida, reside a verdadeira felicidade.

É uma pena que, sempre, algo tem que acontecer para interromper um momento como aquele… consigo ver, ainda de longe, e apesar do lusco-fusco, alguém que anda, perigosamente, pelo meio da pista. Reduzindo as marchas, cuidadosamente, aproximo-me do transeunte que ignorava o acostamento e encosto o carro. Logo percebo ser o velho a quem dera carona no início da manhã. Ainda mantinha o boné torto na cabeça, mas não portava mais sua mochila. Cambaleava pela pista. Pensei imediatamente estar embriagado, era o que qualquer um pensaria, afinal. Verificando que não havia risco, abordo o velho que, assim que sente minha proximidade, desaba ao chão. Consigo levá-lo ao carro e percebo que suas roupas, as mesmas que usava pela manhã, estão sujas de sangue, e era muito sangue. Tenho noções básicas de primeiros socorros e, numa rápida verificação, percebo não ser ele o dono de todo aquele sangue. Não se encontrava ferido, pelo menos não fisicamente. Algo terrível teria lhe acontecido.

Durante o caminho que ainda tínhamos até a cidade, não houve conversa…tudo o que lhe era possível era balbuciar frases soltas, palavras desconexas, largado no banco do carona. Tinha as mãos muito sujas de sangue e, com isso, sujava os bancos e o painel. Não devia estar embriagado, pois não senti cheiro de álcool. Eu já pensava em que tipo de encrenca teria me metido.

Chegando à cidade, finalmente, rumo direto até o pronto atendimento emergencial. Já é noite. Encosto o carro na vaga e desço, buscando ajuda. Assim que sou atendido, na recepção,  explico que tenho no carro um senhor que aparenta ter sofrido algum tipo de acidente e que aparenta não estar lúcido. Duas enfermeiras rumam em direção ao carro, uma delas levando uma cadeira de rodas. Eu confesso que estava bastante confuso e nervoso. Jamais resgatara alguém na estrada. O máximo que já me acontecera? resgatar animais atropelados, levando-os à uma clínica veterinária. Mas jamais, até então, um ser humano.

Sou abordado por uma das enfermeiras. Ela me diz, desconfiada, que não há ninguém no carro. A outra enfermeira parece confusa, mas não mais do que eu próprio. Vou até o carro e constato que falam a verdade. Como ele teria saído dali, tão rapidamente, nas condições em que se encontrava? Elas olhavam para mim sem saber o que fazer, e eu sem saber o que dizer. Olho para minhas mãos e consigo ver as manchas de sangue que as tingem, assim como parte de minha roupa. Ainda sinto, no carro, o forte aroma do fumo.

Decido não acionar a polícia. Com certeza as enfermeiras pensaram que eu estava drogado, ou talvez passando por um surto psicótico. Confusão é o que não queriam, assim como eu.  Saio o mais rapidamente dali, e vou para casa.

A partir de então fiz bons negócios na cidade vizinha. Conforme já dissera, lá havia um campo fértil para os negócios. Conheci pessoas, fiz amizades, arrumei até uma namorada. Passava boa parte da semana por aquelas bandas. E não demorou para chegar até mim a história do velho agricultor que teria, num rompante de fúria, e motivado por vozes que dizia ouvir, assassinado a esposa e os filhos, à faca. Dizem que, depois do feito, saiu pela estrada, a pé, e sumiu para o meio do mato,  nunca mais sendo encontrado.

Hoje, continuo guiando por essa estrada, duas a três vezes por semana, sempre tendo na playlist música de boa qualidade. Os Irmãos Van Zant estão entre as minhas preferências. Normalmente, ao meu lado, uma long neck de puro malte.   Às vezes o vejo, de manhã, pedindo carona. Sempre aceno e tenho, como resposta,  o braço fino tirando da cabeça  o boné de aba torta.  Ou o encontro, sob o pôr do sol, trôpego em meio à pista, as roupas rotas cobertas de sangue. Nunca mais parei o carro. Mas sei que, indiferente à música que eu esteja ouvindo, assim como ao belo crepúsculo que se desenha, caprichosamente, no horizonte, ele sempre estará por ali. Às vezes ainda sinto, apesar de sozinho, o mau hálito de fumo, os tradicionais “paieiros”.  E sei que tal cheiro jamais sairá do meu carro, e que jamais me acostumarei a ele. De toda essa história, a maior certeza que tenho é de que aquela alma jamais encontrará a paz.


ESCRITO POR: Sergio Kuns

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