O Contrato

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A cláusula era bem clara: deveria terminar o conto até o final do mês. Escritor experiente e renomado, apesar de ainda muito jovem, tentou argumentar, junto à editora, de que as coisas não eram bem assim. “Escrever é uma arte, é inspiração, isso vai totalmente na contramão de um prazo a cumprir”. Como contra argumento ouviu que, mesmo renomado e disputado pelas editoras, havia outros tantos com os mesmos predicados. Era pegar ou largar.

O projeto em si seria uma compilação de histórias com os melhores autores de contos de horror da atualidade, a chamada nova safra. Cada autor teria direito a um conto na publicação e, é claro, aos royalties que seriam consequência óbvia. Além do nome a zelar, que obrigaria a escrever um bom conto, ainda havia toda a vaidade, todo o ego, de ser o melhor entre outros nomes emergentes no cenário literário. Pensou daria conta do recado, e aceitou. Um mês o separavam de uma obra-prima, como já acontecera em outros momentos, ou de um fracasso, caso fosse o menos expressivo entre os contos da edição. Vivia disso, e um texto medíocre, numa obra de tão renomada editora, poderia significar uma vertiginosa queda no ranking dos escritores em ascensão.

Os primeiros dez dias foram de extremo estresse. Em seu pequeno escritório, seu quarto na verdade, massacrava o teclado com ideias ruins. Tentando fugir de clichês, deletou dezenas, talvez uma centena, de introduções pobres. Ideias medíocres.  O público precisava de algo novo, original. Mas como criar uma história de horror original? Casas mal-assombradas, vampiros, lobisomens… haveria algo que pudesse, nos dias de hoje, surpreender aos leitores? Tudo já havia sido tentado, tudo já havia sido feito. Com uma ampulheta na mente, o desespero começava a tomar conta. Ele não queria apenas cumprir o contrato e escrever um bom conto de horror. Precisava e era vital escrever o melhor.

Passado um terço do prazo e, com tantas ideias ruins descartadas, começou a viver uma neurose. Culpava os latidos de seus fieis amigos caninos, assim como as brincadeiras da irmãzinha, pela falta de inspiração. Se sua mãe batia à porta, gentilmente trazendo alguma guloseima, era com ela ríspido e grosseiro. Pedia para não ser importunado. Parou de sair à rua e só deixava o quarto para ir à cozinha, quando a fome se  fazia insuportável, e tomar banho, de preferência de madrugada, quando não mais ninguém encontrava. Silenciou o celular e pediu que, caso viessem procurá-lo, mentissem que saíra.  O pai falava que era coisa de jovens escritores, de sucesso, com o ego inflado, que logo passaria. A mãe mantinha-se preocupada, mas resolveu dar a ele o espaço que ele tanto queria e precisava para criar.

— Escreva sobre mim, Alexandre — Dizia a sussurrante voz.

Levantou-se, num sobressalto, voltando-se para a direção de onde viera a voz. Como sempre, a única luz que havia no quarto era do monitor e da luminária que mostrava às teclas o caminho. A voz vinha de uma das extremidades do quarto, num dos cantos próximos ao armário.

— Fale sobre mim, Alexandre.

— Mas que diabos… pensou, com a respiração ainda ofegante pelo susto. Quem teria entrado em seu quarto, aquela hora da madrugada? Perguntou-se por quanto tempo estaria ali, na penumbra, observando seu martírio com as palavras e falta de ideias.

— Eu não entrei aqui, eu sempre estive, mesmo antes de essa casa existir.

A voz era suave, tenra, e transmitia algo de bom, de agradável.

— Mas… — tentou responder, com a voz embargada pelo medo — quem é você? Minha imaginação? Você leu minha mente?

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— Não, sou muito real, e sei o quanto está atormentado. Pensei em não interferir, mas você não vai, de outra maneira, conseguir escrever nada que seja, no mínimo, interessante.

Ele sentiu as pernas fraquejarem. Continuava a fitar o canto escuro de onde a estranha voz vinha, então apagou a luz da luminária. Após alguns instantes, quando seus olhos se acostumaram com a penumbra ele conseguiu, finalmente, visualizar uma silhueta, de pé, ao lado de seu velho violão, ao canto do cômodo. Parecia alguém de pequena estatura.

— Quem é você? Como entrou aqui? — Insistiu, mantendo uma posição defensiva.

— Já lhe disse que não entrei… eu sempre estive, é diferente. E meu nome pouco importa, mesmo porque nem eu mesmo o sei mais.

O vulto parecia cada vez mais próximo. Deslocava-se suavemente em sua direção. Alexandre já admitia, naquele momento, não estar lidando com algo racional e lógico. Poderia ser fruto da sua imaginação, conforme já questionara, ou até mesmo um fenômeno paranormal. Vivia a vida escrevendo sobre fantasmas, embora se mantivesse cético a tais coisas. Mas começava a mudar de ideia naquele momento. Finalmente, menos de dois metros os separavam e ele pode vislumbrar, com a claridade do monitor, a forma de uma garota, bastante jovem. De baixa estatura e magra, com cabelos ruivos e longos, soltos sobre os ombros. O vestido lhe soou de péssimo gosto, como se fosse do século passado. Ela possuía um semblante grave, mas não se mostrava assustadora. Na verdade, desde que saíra das sombras ele se mostrava menos tenso com sua presença.

Sentou-se ao computador, subitamente,  ignorando o espectro às suas costas, e começou a digitar freneticamente. O som das teclas preencheu o pequeno recinto. Sabia que a história de um fantasma vivendo  em seu quarto não teria muita originalidade, mas contava com o fato de narrar o que realmente estava acontecendo e assim, talvez, suas palavras soassem mais espontâneas e autênticas. Começou falando da falta de criatividade e da tensão de ter que cumprir um prazo. Falou também da reputação que já atingira, apesar de bastante jovem. Passaria, então, a narrar a aparição da jovem que dizia habitar seu quarto.

Enquanto escrevia, sentia sua respiração e seu hálito próximo ao seu rosto. Aquilo lhe causava muita tensão, mas também lhe trazia algum prazer. Ainda não tinha noção exata sobre o que acontecia, e provavelmente nunca teria. Descreveu sua aparência, suas roupas, e o breve diálogo que tiveram. Subitamente, sentiu-se só e, olhando para trás, não mais a viu. Estava sozinho novamente. Permaneceu sentado durante algum tempo, tendo somente a luz do monitor e, com isso, os primeiros raios de sol invadiram o quarto através das persianas semiabertas.

Naquele dia, não mais saiu do quarto, mas isso já não causava nenhum espanto a ninguém. Dormiu duas horas, se muito, e tentou voltar a escrever. Mas não tirava os olhos do canto de onde ela surgira. Não sabia seu nome, aliás ela dissera que sequer o lembrava. Ansiava que ela retornasse, pois imaginava que ela tinha muito a lhe dizer.

— Tudo bem filho? — soou a voz sob a porta – Se quiser, deixei lasanha na cozinha, é só colocar no micro ondas.

Ah mãe querida, se você soubesse, naquele momento, não ser a pessoa mais importante na vida daquele jovem escritor. Tudo o que ele queria era ver a estranha jovem novamente, e ouvir o que tinha a lhe dizer. Cerrou definitivamente as persianas, e esperou. Tentou simular o momento em que a teria encontrado pela primeira vez.  Pensou que, mesmo de dia, com a luz do sol expulsa de seu quarto, ela apareceria, mas isso não aconteceu. Adormeceu sentado ao lado do computador.

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Acordou dolorido, com as costumeiras batidas na porta.

— Filho, tudo bem? Quando quiser comer, já deixei um prato pronto, é só colocar no micro-ondas.

 — Obrigado mãe, depois eu vou lá.

Eram 21:00h. Dormira tanto assim?

Imóvel, olhava fixamente para o canto no qual ela surgira pela primeira vez. Deixou somente a luz do monitor a iluminar, parcialmente, o aposento, como tinha sido em seu primeiro encontro. Aguardou, perdendo a noção do tempo. Sentiu braços e pernas dormentes, e sentiu fraqueza. Não se alimentara o dia todo, devia ser isso. Aliás, nem lembrava de quando teria se dado sua última refeição decente. Por fim, desabou ao lado da cama, sobre o macio carpete.

Despertou, ou pensou que o fizera, tendo seu rosto gentilmente afagado. Ainda estava no chão e, logo a sua frente, o rosto daquela que sequer o nome sabia.

— Levante, você tem que escrever.

Pôs-se de pé, ou pelo menos tenta, pois cai sentado para trás, batendo fortemente a cabeça na estante do computador. Recompondo-se, confirmou estar sozinho. “Devo ter sonhado”, pensou. Conferiu as horas: 03:00h. Não entendia como teria dormido tanto assim. Deixou o quarto e seguiu em direção à cozinha. Lasanha, prato feito, macarronada, já não estava certo de qual teria sido a última frase materna que teria ouvido. Tateou o escuro e encontrou o interruptor. Percebeu que coisas estavam diferentes, e lembrou que a mãe dissera que trocariam algumas coisas. Teria estado tão imerso em seu projeto que perdera contato com a própria família? Não os viu trocando a mesa. E por que a geladeira era outra, se aquela que tinham era praticamente nova? Percebeu ter perdido a fome e, então, num impulso, tomou a porta da rua, rua que não via há tanto tempo. Quem sabe uma caminhada madrugada afora lhe fizesse bem.

As luzes dos postes lhe pareciam tão mais intensas. Os insetos que as procuravam pareciam tão mais próximos.

O laudo atestava que Alexandre encontrava-se morto, naquele quarto,  havia três dias, no mínimo. Sua mãe contestava tal informação, pois jurava que, ainda na véspera de encontrarem seu corpo, e também antes disso, várias vezes batera à porta, e falara da lasanha, e da macarronada, e do picadinho,  que deixaria na cozinha. Ouviu-o, todas aquelas vezes, responder que mais tarde faria a refeição, e tinha a certeza de tê-lo  visto  indo à cozinha, naquelas madrugadas em que, de acordo com o legista, já estaria morto. Mas o laudo insistia na data da morte, e também atestava a causa: concussão cerebral, causada pelo impacto contra a estante, e posterior óbito, visto que Alexandre já se encontrava em condições físicas frágeis, por não alimentar-se adequadamente havia vários  dias.

Na tela do computador, o conto finalizado, intitulado “Minha linda Amiga”. Uma história na qual ele falava sobre o fantasma que  habitava seu quarto. Um fantasma sem nome, mas de extrema beleza e hálito agradável, e cabelos cor de fogo. Uma companhia que lhe causava medo, mas também prazer. O conto foi lido pelo editor do projeto, porém  considerado medíocre, cheio de clichês e sem originalidade, tanto que foi, posteriormente,  descartado da antologia. Um dos mais promissores escritores da nova geração havia, finalmente, criado um texto ruim. A família mudou, depois de algum tempo, colocando a casa para locação,  e hoje é raro quem consiga, por mais de um mês, lá morar,  pois sempre, durante as madrugadas, Alexandre é visto perambulando pela cozinha, em busca da refeição preparada e reservada carinhosamente pela zelosa mãe.


ESCRITO POR: Sergio Kuns

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