Colheita dos Mortos [História de Terror]

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Se alguém perguntasse a Joaquim qual o seu trabalho, ele certamente hesitaria antes de qualquer resposta.

O homem era um misto de secretário, guarda-costas, assecla, conselheiro, porta voz e pistoleiro de Alexandre Matias do Carmo, fazendeiro célebre, ex vereador, ex deputado e líder político de uma importante região de produção de cana de açúcar do sertão brasileiro que incluía dois estados. Por fim, provavelmente, Joaquim se denominaria como assistente do Dr. Alexandre. Mas obviamente isso poderia variar, dependia de quem perguntasse. Uma coisa era certa, tinha dedicado sua vida ao caudilho, sacrificando sua vida pessoal, tempo e outras coisas.

Começou a fazer parte do seu séquito quando era praticamente um adolescente. Cresceu ao lado do homem que vinha de uma família tradicional e poderosa, vendo-o também crescer em poder e popularidade. Obviamente que também viu aumentar disputas e rivais. As lutas se travaram tanto no campo político quanto em outros. Tiros e facadas nos desafetos e covas rasas para os trabalhadores baderneiros que ousassem qualquer questionamento quanto às condições de trabalho.

Dr. Alexandre teve seu auge e consolidara o poder, mas não fora apto em deixar herdeiros políticos e manter a força nesses novos tempos. Seu partido enfraquecera, ele perdeu dinheiro, prestígio e com dificuldade resistiu às investidas da justiça. Fora acusado tanto de corrupção quanto de crimes de pistolagem. Além do mais, a velhice o arrastava para o caminho sem volta… Nenhuma glória do passado ou o que ainda possuía o consolava diante da própria mortalidade. Isso o exasperava e o fazia suspeitar de inimigos imaginários. E era sobre isso que Joaquim pensava enquanto aguardava o chefe.

Ele tinha recebido a ordem de ir encontrá-lo na casa da Fazenda Velha. Assim denominada por ter sido a propriedade onde Dr. Alexandre tinha nascido. Joaquim, que possuía as chaves do imóvel, adentrou à residência e ficou esperando. Eram duas da tarde e, apesar disso, o clima da casa, mórbido a qualquer hora, o fazia pensar nas inúmeras histórias assombradas do lugar. Não bastava ter seus próprios mortos seguindo-o, agora temia ver outros fantasmas.

Joaquim às vezes ficava pensando se, em outra vida, iria ser confrontado com os homens que matara. Era estranho e brutal pensar nas pessoas que tinha assassinado sem que tivesse nada pessoal contra elas. Além disso, chegara a um ponto na vida em que devia começar a pagar pelo que tinha feito. Pelo menos era nisso que acreditava.

O homem acendeu um cigarro e ficou fumando para ajudar a passar o tempo. Enquanto isso, pensava no campo atrás da fazenda, onde ele e uns capangas tinham enterrado alguns inimigos. Isso fazia anos. Até mesmo a maioria de seus auxiliares já tinha partido dessa pra melhor. A aura pesada, no entanto, permanecia. Alguns trabalhadores já haviam falado de fantasmas novos rondando a propriedade. As almas dos pais do Dr. Alexandre constituíam espectros conhecidos que já não causavam mais espanto.

Joaquim ouviu barulhos na porta da frente e isso o deixou arrepiado, mas mesmo assim foi conferir. Na verdade, era o Dr. Alexandre com sua velha corte de seguranças e apoiadores. O caudilho olhou para Joaquim de maneira estranha. Começou a falar sem parar dizendo que se sentia abandonado, pois os seus não viam a maldade e a traição que o cercava bem de perto. Acendeu um charuto e continuou reclamando até que uma crise de tosse o interrompeu. Num gesto, chamou todos para a varanda com o pretexto de tomar ar fresco. Continuou falando de inimigos não detectados pelos seus próprios homens de confiança, mas que iria tomar providências ele mesmo.

Joaquim percebeu que ninguém sabia do que o chefe falava. Ainda assim prosseguiu falando e andando. Acabou fazendo com que todos o acompanhassem até o campo onde anos antes Joaquim enterrara pessoas. Nesse momento, o caudilho sacou uma pistola e ficou falando que só o sangue de um traidor podia lavar a sujeira em que estavam metendo ele. Os homens recuaram assustados, mas antes que pudessem perguntar ou contestar, Dr. Alexandre atirou na cabeça de um dos que tinham vindo com ele. Um jovem político conhecido pela ambição.

O caudilho então, se voltou para Joaquim e, aos gritos, mandou que ele desse um fim no corpo e que ensinasse como fazê-lo aos novatos. Também disse que era uma vergonha que um homem como ele com tantos anos de experiência não tivesse descoberto o traidor.

Após terminar de enterrar o sujeito, Joaquim acendeu um cigarro e olhou para os novos ajudantes. Teve a sensação de que aquilo viria à tona em breve. Viviam novos tempos em que só as brutalidades políticas mais refinadas tinham espaço. Seu chefe não tinha noção ou não queria admitir.

O telefone tocou, Joaquim atendeu e ficou sabendo que o Dr. Alexandre tivera um derrame. Ele voltou a olhar para os homens ali, mas parecia ver além. Obviamente porque não prestava mais atenção nos capangas, mas nos fantasmas que começavam a se levantar naquele fim de tarde.

A História de Terror “Colheita dos Mortos” foi escrita por Jorge Raskolnikov.

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