O Homem de Fogo

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Marcos era uma garoto de 7 anos muito feliz com a vida que levava. Filho do casal Kátia e George, que eram ótimos pais. Sempre tirava notas boas na escola, tinha muitos amigos tanto na escola quanto na vizinhança. Tinha muitos brinquedos, um armário cheio deles, o que fazia inveja nos filhos de alguns vizinhos. Por conta disso, era vítima de pequenos furtos por parte dos seus amiguinhos da vizinhança e, quando descobria quem furtara um determinado brinquedo, ouvia frases de deboche do tipo “achei no mato” e “achado não é roubado” ou até mesmo “bobeou, dançou”. Até então esse era o seu único problema. Um problema extremamente pequeno se comparado aos que estavam por vir.

Marcos tinha a imaginação muito fértil e sonhava em ser um super-herói. Ele tinha uma fantasia de cada um de seus heróis preferidos. Era uma coleção enorme. Mais de 10 fantasias diferentes, que eram a sua segunda pele. Marcos adorava ir para a escola usando uma delas debaixo do uniforme da para dizer que era um super-herói disfarçado.

Certo dia Marcos viu na TV o desenho animado de um super-herói novo, com super-poderes incríveis! Era o seu novo herói preferido. O super herói chamava-se “O Homem de Fogo”. A estória deste super-herói era a de um jovem cientista que descobriu uma fórmula que o transformava temporariamente em um ser feito de fogo puro, com estranhos poderes telepáticos, telecinesia entre muitos outros super-poderes diferentes. Marcos rapidamente pediu à mãe que comprasse um uniforme do Homem de Fogo.

Muitas coisas estranhas aconteceram desde então. Kátia, a mãe de Marcos, não encontrara em lugar nenhum o tal uniforme ou sequer qualquer referência sobre o mais novo super-herói da TV! As pessoas a estranhavam, a olhavam com desconfiança, perguntavam se ela tinha certeza que o nome do super-herói era aquele, perguntavam de que país era aquele super-herói, perguntaram se ela tinha ouvido direito o nome que o filho dissera e chegaram a perguntar até mesmo se ela tinha certeza que seu filho não imaginou o tal super-herói. Era como se aquele super-herói simplesmente não existisse! Katia sentou-se no banco de uma praça e raciocinou: “Este super-herói é muito recém-lançado. É lógico que ninguém tem nada dele ainda! Talvez daqui há uns dois meses estas lojas estejam cheias de produtos dele! Ou melhor! Se esse super-herói não emplacar, talvez daqui até lá o Marcos tenha esquecido esse tal Homem de Fogo.”

Voltando pra casa preparada para mais uma das famosas discussões com seu filho (que aconteciam todas as vezes em que, por um motivo qualquer ela prometia uma coisa mas voltava de mãos vazias) e exausta da sua procura em vão, Kátia não conseguiu fazer outra coisa senão tomar um banho, cair na cama e dormir um pouco até a chegada do seu marido.

Quando George chegou em casa, a mulher foi logo lhe contando sobre o seu dia de “Caça ao Homem de Fogo”. George, sempre muito bem humorado e extremamente inteligente, disse à Kátia:

— Vamos assistir com ele esse desenho amanhã. Assim quando lançarem os brinquedos do Homem de Fogo no mercado, nós saberemos só de olhar as vitrines das lojas.

— Ótima ideia, amor!

No dia seguinte, exatamente às 9:00 da manhã, Marcos já estava grudado na TV esperando o seu desenho preferido. A primeira cena da estória era de um prédio em chamas com o Corpo de Bombeiros tentando apagá-lo e então surge o Homem de Fogo dizendo ao chefe dos Bombeiros:

— Não se preocupe! Resolvo tudo em um segundo.

O chefe dos Bombeiros responde atipático e com agressividade na voz:

— Não precisamos de mais fogo aqui “Queimadinho”, precisamos é acabar com este incêndio!

Sem dizer nada o Homem de Fogo usa seus poderes de telecinesia para destruir todo o encanamento do prédio fazendo vazar água pra tudo quanto é lado, apagando assim o incêndio em segundos! Neste meio tempo, George diz a Kátia:

— Não posso me atrasar mais ou vou perder o emprego, depois você me conta como foi o resto tá bom?

— Ok, meu amor!

Os dois se beijaram e George saiu para o trabalho. Kátia raciocinou rápido: “Tá certo que ele apagou o incêndio, mas precisava destruir o encanamento do tal prédio? Que herói estranho!”. Assim que Kátia olha para a TV outra vez, um repórter está entrevistando o Homem de Fogo. O repórter pergunta:

— Quando você chegou, já sabia o que ia fazer?

O Homem de Fogo olha para a tela como se estivesse olhando para uma câmera, olha Kátia nos olhos com um sorriso maquiavélico, um olhar sinistro e aterrorizante faz Kátia gelar de cima abaixo enquanto diz:

— Eu sempre sei o que faço com os meus poderes!

O desenho termina, a TV sai do ar e Kátia fica horrorizada com a última cena do olhar sinistro do Homem de Fogo. A frase que não saía de sua cabeça. Pensou em reclamar com a emissora: “O que aquele herói incentivaria as crianças a fazer! Destruição! E que olhar era aquele!?”. Kátia ficou tonta e passou mal o resto do dia. À noite, Kátia contou ao marido o que aconteceu. George disse prontamente:

— Vamos reclamar agora!

E virando-se para Marcos perguntou:

— Em que canal passa esse Homem de Fogo, meu filho?

— Na TV Tupi, pai.

“Não é possível!” – Pensou George – “A TV Tupi não existe mais há décadas!” – Resolveu não discutir com o filho, mas combinou com Kátia que ela observaria o filho esperando o desenho começar, assim ela descobriria facilmente qual era o canal, ligaria para George no trabalho e dali mesmo ele faria a reclamação.

No dia seguinte às 8:45, Kátia acordou mais cedo e levou um susto ao ver Marcos em frente à TV fora do ar e com o receptor parabólico desligado! Com muito medo, Kátia pergunta:

— Marcos, meu filho, você está bem?

Então ela fica aliviada ao ver o filho virar-se para ela, sorrir e dizer:

— Tô bem mãe, tô esperando o desenho começar. A TV Tupi ainda não entrou no ar. Só entra faltando 5 minutos para as nove!

Kátia ficou pálida com o que ouviu, mas decidiu ficar pra ver. Afinal de contas ele pode ter errado ou confundido o nome da emissora. Ou talvez até apelidado outra emissora com esse nome! “É isso”, pensou ela, “Ele pôs esse apelido em alguma emissora!”.

De repente, a mulher vê atônita a TV entrar no ar com o logotipo da extinta TV Tupi! Então ela atenta para o fato de que apesar da imagem estar perfeita, o receptor parabólico está desligado! Por alguns segundos, ela fica paralisada de medo, mas toma coragem e pega no braço do seu filho tentando tirá-lo da frente da televisão. Marcos apenas lança um olhar que não era dele! O mesmo olhar aterrorizador do Homem de Fogo! Kátia larga imediatamente o braço do menino e quase desmaiando tenta ligar para George, mas não consegue. Todas as 3 linhas telefônicas do seu trabalho estavam ocupadas. Tentou o celular e escutou o toque dele em cima da mesa. George havia esquecido o celular em casa. O desenho começa. Kátia olha para o televisor e vê o Homem de Fogo lançar aquele mesmo olhar ao dizer:

— Não tente lutar contra o seu destino, pois minha vitória é iminente!

Kátia corre para a casa de uma vizinha. Muito descontrolada e nervosa, elanarra todos os acontecimentos, mas sua vizinha não acredita e a trata como se tivesse enlouquecido. Sem coragem de entrar em casa, ela vai ao bar tomar umas cervejas esperando anoitecer, espera George do lado de fora e conta o que aconteceu. Ao entrarem em casa, o casal vê o pequeno Marcos encolhido no sofá. E chorando de fome o menino diz:

— Mãe, você não fez almoço hoje, nem me levou pra escola, o que aconteceu? Pra onde você foi? Por que me abandonou desse jeito?

George olha para a esposa e arregala os olhos como se tivesse visto um fantasma! Ela não entendia como simplesmente havia esquecido que o filho come! Que o filho vai para a escola! Que o filho dependia dela para muitas outras coisas! Que mãe horrível ela fora neste dia! Kátia sentia vontade de morrer! Tudo por causa do olhar que o filho lhe lançara e a imagem de um desenho animado que parecia ameaçá-la!

Ela então cozinhou uma sopa pré-pronta rapidamente para o filho. Marcos quase não comeu e disse que estava com muita dor no estômago. Kátia estava com muita pena do filho mas não sabia o que fazer. George começava a duvidar da sanidade mental da esposa. Não fez amor com ela naquela noite, simplesmente a beijou e virou para dormir. Mas antes que ele dormisse, ela perguntou por que ele a havia olhado daquele jeito quando eles viram o Marcos no sofá. Ele então respondeu:

— Você me lançou um olhar sinistro. Era como se não fosse você. Como se você estivesse fora de si.

Ela sentiu o seu corpo gelar! Mas tentou dormir assim mesmo pra tentar esquecer logo aquele dia, como se tudo não tivesse passado de um pesadelo.

Na manhã seguinte, Marcos acordou com um calor muito forte. Ao abrir os olhos e olhar em volta, viu que sua casa estava em chamas! Queria ser o Homem de Fogo nessa hora! Mas antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, chegou um bombeiro que rapidamente o pegou no colo e o levou para fora da casa. Marcos perguntava aos médicos e enfermeiros do Corpo de Bombeiros onde estavam seus pais, mas eles simplesmente ignoravam a pergunta.

Marcos foi encaminhado à uma instituição de caridade, onde soube através dos comentários que alguns funcionários faziam entre si, que seus pais morreram no incêndio. Marcos preferiu não acreditar nessa hipótese, tendo a esperança e a quase certeza de que os funcionários estavam enganados, confundindo os pais dele com os pais mortos de outro garoto que fosse fisicamente parecido com ele, e de reencontrar os seus pais vivos. A saudade que Marcos tinha deles apertava a cada dia: longe do beijo de despedida da mãe na hora de entrar no colégio, a cada domingo sem sair com eles para o parque, a cada noite sem a mãe rezando com ele antes de dormir, entre muitas outras coisas.

Marcos odiava aquele lugar. Parecia uma prisão! Tinha horário pra tudo! Quase todos os dias os garotos mais fortes o espancavam e ainda o chamavam de “bicha”, de “retardado” e de “maluquinho”, apenas pelo fato dele gostar de dizer frases de super-heróis! E o pior de tudo era que ele é quem era punido e chamado de “Brigão” pela diretoria daquele lugar maldito. Parecia o inferno!

Tentou fugir duas vezes, mas era sempre alcançado e levado de volta. E ainda era obrigado a ouvir frases absurdas como: “Além de adorar uma briga ainda tenta fugir não é?”. Ora essa! Marcos odiava brigas! Era extremamente pacífico e só tentava fugir porque não aguentava mais levar tanta porrada dos garotos mais fortes e vê-los levar a razão perante a diretora. Isso o indignava. Ele se sentia sendo expulso pelos garotos mais fortes e ao mesmo tempo sendo obrigado pela diretoria a ficar naquele inferno!

Certo dia, ele pensou: “Vou ter que criar uma estratégia para sair. Não posso simplesmente tentar sair de qualquer maneira ou os garotos mais fortes vão me denunciar como fizeram das outras vezes.” Então ele esperou anoitecer. Quando foi levado para o seu quarto (que parecia mais uma cela) por um dos funcionários, ficou algumas horas pensando no que iria fazer. Então ele olhou para a fechadura do “quarto” e percebeu que era do tipo antiga. Do tipo que qualquer chave igual àquela abre! Então pegou no bolso da calça a chave que ainda tinha do quarto da sua ex-casa e testou. A fechadura abriu!

Olhou o corredor com a intenção de planejar a fuga para o dia seguinte. Ninguém no corredor! Então Marcos quis ver até onde não tinha ninguém, pensando: “Se alguém perguntar eu digo que estava no banheiro e me esqueceram do lado de fora do quarto hoje.” Analisou o corredor. Atrás de si, as portas de todos os outros quartos. À sua frente do seu lado direito, a cozinha com a luz ainda acesa, o que denunciava a presença de alguém. À sua frente do seu lado esquerdo, os banheiros dos funcionários, dos meninos e das meninas respectivamente. No fim do corredor, a porta do pátio, de onde ele sabia que existia a porta da sala de entrada da instituição e, nesta sala, a tão sonhada saída.

Andou silenciosamente até o banheiro dos funcionários, visto que os outros dois estavam trancados. Entrou e viu que haviam 3 cabines de privada. O menino levou um susto quando viu que a porta da segunda cabine estava trancada, o que denunciava que havia alguém ali dentro! Entrou rapidamente na primeira cabine, abaixou a tampa do vaso sem fazer barulho e sentou encolhendo as pernas. Quando o funcionário saiu do banheiro, Marcos esperou mais alguns segundos. O silêncio era quase absoluto. Ouviu ele caminhar pelo corredor, então ouviu de longe o guarda falar com o cozinheiro na cozinha:

— Ué, mas não era tu que “tava” no banheiro não?

— Não! Eu nem fui no banheiro hoje.

— EPA!

Marcos suou frio ao ouvir o “Epa!” do guarda e logo depois os passos apressados dele em direção ao banheiro. Mas como fugir daquela situação agora? Ele tinha que pensar rápido! Marcos então deu a descarga e ao ver que o guarda o esperava na porta da cabine, abriu a porta e o homem disse:

— Ah! É tu, Brigãozinho? Como é que tu veio parar aqui, moleque? Por que tu não tá no teu quarto?

— É que eles esqueceram a porta do quarto destrancada e me deu vontade de ir ao banheiro.

O guarda o olha com desconfiança e pergunta:

— Quem foi que te levou pro quarto hoje?

Marcos resolve não mentir para não piorar as coisas e diz:

— O Josias.

— Muito bem. Agora vamos voltar pro quarto e que ninguém fique sabendo disso entendeu?

Marcos sorri aliviado e volta para o quarto. O guarda tranca a porta, o que para Marcos era uma grande novidade, pois ele não sabia que todos os funcionários tinham as chaves dos quartos.

Na noite seguinte Marcos estava ainda determinado a executar o seu plano, ainda mais depois de ter um dente molar arrancado horas atrás com um soco dado por Claudiney, um garoto de 15 anos que tinha o corpo de um homem adulto e que, ciente da sua impunidade, adorava espancar garotos de 6 a 10 anos. Até os diretores tinham medo dele porque ele transava com a diretora-chefe da instituição, o que lhe dava quase a mesma autoridade, pois o que ele quisesse em troca do sexo que ele oferecia a ela, ela fazia. Isso incluía demitir ou contratar funcionários, ou simplesmente retirar ou aumentar bonificações salariais indevidas de quem ele quisesse. Mas para a surpresa e decepção de Marcos, as fechaduras dos quartos foram todas trocadas durante o dia por fechaduras novinhas do tipo que só a respectiva chave abriria!

Marcos ficou arrasado. Chorou ao dormir vendo seus planos serem frustrados, da saudade quase insuportável dos seus pais, de desespero por não ter conseguido aproveitar aquela oportunidade única na noite anterior. Ele pensou: “Se eu continuasse escondido naquela cabine de privada ontem e não tivesse feito nenhum barulho, aquele guarda iria começar a procurar em outros lugares e eu poderia esperar ele se distanciar o suficiente para ir silenciosamente até o pátio. Dali seria “molinho” eu ir para a saleta de entrada, pois a fechadura entre a saleta e o pátio ainda é antiga. Era só eu pegar a chave da porta de entrada na gaveta da mesa e quando ele descobrisse o que eu fiz, eu já estaria longe, dentro de um ônibus que eu pegaria primeiro pra saltar pela entrada ao dizer que estou duro depois de uns 5 quarteirões, voltando pra casa”. Mas como ele poderia adivinhar que aquela oportunidade seria única? Marcos queria voltar um dia no tempo. Apenas um dia. Para evitar um dente quebrado e sua eterna prisão naquele lugar cujo chamar de inferno agora seria até um elogio.

Naquela noite, ele sonhou com o até então esquecido Homem de Fogo. Não exatamente ele, mas o cientista que se transformava nele usando a fórmula secreta. No sonho ele disse a Marcos:

— Ainda quer se tornar o super poderoso Homem de Fogo?

— As coisas seriam totalmente diferentes na minha vida se eu pudesse.

— A fórmula que eu inventei não é difícil de se conseguir, mas o gosto a princípio é horrível, você tem certeza que quer a fórmula?

— Tenho! Encaro qualquer gosto ruim para sair deste lugar!

— Sua vida mudará totalmente, mas nem tudo será melhor. Você quer mudar sua vida sem saber o que vai acontecer?

— Quero! Pior que isso não tem como! É impossível que tenha vários “Claudineys” lá fora pra me espancar!

— Então faça exatamente o que eu vou dizer. Amanhã tente roubar um pouco de açúcar do açucareiro da cozinha na hora do almoço, escondendo numa garrafa de plástico vazia que você vai encontrar perto do bebedouro. É o primeiro ingrediente. Na hora do jantar, tente roubar a quantia equivalente a um copo do suco, escondendo na mesma garrafa. É o segundo ingrediente. Não tenha medo e confie me mim. Amanhã eu te digo o resto da fórmula.

— Mas…

O sonho é interrompido pelo funcionário com a costumeira frase:

— Acordando molecada! Não é hora de vagabundo dormir não! Hora do café!

No dia seguinte, Marcos quase não acredita na facilidade com que conseguira os primeiros ingredientes para a “fórmula pra virar o Homem de Fogo”. Naquela mesma noite, ele sonha com o cientista outra vez, que lhe diz:

— Muito bem, Marcos! Estamos quase lá! Amanhã você vai acordar mais cedo, misturar bem o açúcar no suco e esconder entre a cama e o colchão.

— Mas amanhã é o dia deles trocarem os lençóis! Eles vão descobrir!

— Você confia em mim ou não?

— Confio.

— Muito bem, então faça o que estou dizendo e preste atenção! Amanhã é o dia de folga de dois guardas. Eles vão estar bebendo cerveja e cachaça em um canto escondido da cozinha, pois beber aqui, até para os funcionários de folga é proibido. Pegue um copo de cachaça. Se eles descobrirem não vão te denunciar porque senão vão acabar se denunciando também.

— Como é que é? “Cassacha”?

— Não importa o nome da bebida agora! Tente pegar um copo da bebida transparente que não é cerveja entendeu? Um copo cheio!

— Entendi.

— Ótimo! É o penúltimo ingrediente! Volte para o quarto com cuidado para ninguém te ver e misture na garrafa onde estão o suco e o açúcar. Leve a garrafa com você, volte para o pátio e espere a hora do almoço, então pegue um pouco do suco de hoje, o sabor do suco de hoje é diferente, por isso a cor é diferente e isso é muito importante. É o último ingrediente. Quando você misturar a fórmula estará pronta!

Marcos acordou e fez tudo conforme o cientista falou. Na hora do almoço e com a “fórmula” pronta, bebeu ali mesmo o conteúdo da garrafa inteirinho para impressionar todo mundo virando o Homem de Fogo na frente de todos! Mas o que aconteceu quando Marcos acabou de beber aquele líquido que desceu queimando a sua garganta por causa da cachaça foi uma forte dor de estômago seguida de um desmaio.

No dia seguinte aparce a manchete nos jornais:

GAROTO DE 7 ANOS ENTRA EM COMA ALCOÓLICO APÓS TOMAR CAIPI-FRUTA DENTRO DE INSTITUIÇÃO DE ASSISTÊNCIA A MENORES ABANDONADOS.

Por causa disso, a instituição fechou . A maioria dos funcionários foram presos. As quase 100 crianças e adolescentes voltaram às ruas e Marcos foi então encaminhado a um hospital público, onde ficou em coma por quase uma semana.

Ao acordar, Marcos sentiu muita dor de cabeça. Ao ver tudo à sua volta meio escuro, calculou que fosse aquele entardecer entre 17 e 19 horas da noite. Voltou a dormir. Acordou no dia seguinte, ainda com muita dor de cabeça. Sentiu vontade de vomitar, mas não conseguia sair da cama. Seus braços e pernas estavam dormentes como nunca sentira antes. Uma enfermeira entra no quarto para atender outro paciente e se espanta ao ver Marcos acordado. Ela chama o médico dizendo:

— Dr. Pereira! O garoto que estava em coma acordou!

Rapidamente surge um senhor aparentando uns 40 anos, calvo, vestindo um jaleco branco por cima da roupa, com um cavanhaque e óculos de aro fino. Ele senta-se em frente à maca de Marcos e pergunta:

— Como está se sentindo?

— Com muita dor de cabeça e meu corpo está todo dormente. O que aconteceu? Eu virei o Homem de Fogo?

Se segurando para não rir o médico responde:

— Não, meu garoto. Por que? Alguém naquela instituição te disse que você ia virar o Homem de Fogo?

— Bom, aquela bebida que eu bebi era a fórmula pra virar o Homem de Fogo, mas não sei porque não deu certo.

O médico arregala um pouco os olhos chegando a cabeça para trás ao dizer:

– Huuummm.

Ele pensa: “Que crueldade! Induzir um garoto de 7 anos a ingerir uma bebida alcoólica que poderia tê-lo matado, fazendo-o pensar ser a fórmula para virar um Super-Herói! Que absurdo! Que instituição de caridade era aquela!?”

O médico então pergunta a Marcos:

— E você saberia identificar quem te deu essa fórmula pra virar o Homem de Fogo?

— Sim, mas…ééé…

Sem saber que a instituição fora fechada e os funcionários presos, ele pensou: “Como eu vou dizer que sonhei com o cientista que fez a fórmula e eu mesmo roubei os ingredientes e a fiz? Isso faria com que eu voltasse pra aquele lugar outra vez! Tenho que pensar numa resposta!”

Então Marcos disse com um certo medo:

— ééé… que eu não lembro direito.

O médico pensa rápido: “Ele está com medo de entregar o funcionário da instituição e sofrer represálias depois. Não denunciar o funcionário é até melhor para a segurança dele. A polícia com certeza vai investigar e descobrir o canalha que fez isso. Não vou induzir o garoto a ficar com mais problemas do que já está.” Então o médico sorri e diz:

— Tudo bem, esquece isso tá bem?

Marcos fez um sim com a cabeça e o médico continuou:

— Ninguém mais vai te perguntar isso tá bom? Agora é só descansar e recuperar-se.

O médico saiu do quarto.

Marcos sonhou naquela noite com o cientista outra vez. Ao ver o cientista Marcos diz:

— Você me enganou!

— Eu te enganei?

— É! Eu não sei que fórmula era aquela, mas eu não virei o Homem de Fogo e ainda quase morri!

— Se bem me lembro, você queria virar o Homem de Fogo pra poder sair da instituição, certo?

— É, mas não foi isso que aconteceu!

— Você não está mais na instituição, certo?

— Mas eu ainda não sou o Homem de Fogo! Você me deu a fórmula errada! E eu ainda vim parar no hospital com a sua fórmula maluca!

— Mas o que você queria, você conseguiu. Os funcionários estão presos e todos os outros garotos nas ruas. A instituição foi fechada e você está livre! Não seja ingrato agora! Você tem nas mãos a liberdade que sonhou há quase um ano!

— Mas então… o Claudiney está na rua também! Ele vai me pegar assim que eu sair daqui! Você não disse que ele ia ser solto também! Isso não muda quase nada! A não ser se eu sumir pra outro lugar, mas e se o Claudiney me seguir? E se ele me achar? O que é que eu faço agora?

— Eu te disse que sua vida mudaria totalmente, mas nem tudo seria melhor.

— Mas no caso do Claudiney, a minha vida não mudou! O que significa que não mudou totalmente como você disse que ia ser!

— Nem sempre as coisas são o que parecem. Leia as notícias da primeira página dos jornais ao passar por uma banca qualquer assim que você sair do hospital.

— Como é que eu vou arrumar dinheiro pra comprar jornal?

— Não precisa comprar. É só olhar a notícia que vai estar logo na primeira página.

No dia seguinte, o médico aparece no quarto e esquecendo que Marcos saiu de uma instituição de caridade, que agora estava fechada, diz:

— Você vai receber alta hoje, meu garoto. Vai poder ir pra casa.

Às 16 horas, Marcos recebe alta e sai sem saber direito em que rua está. Aos poucos percebe que está em outra cidade, mas não se importa com isso a princípio e procura uma banca de jornais. Ao encontrar uma, vê admirado a foto do seu inimigo e da ex-diretora-chefe da recém-fechada Instituição na primeira página dos jornais com a seguinte manchete:

CRIME PASSIONAL: EMPRESÁRIO FLAGRA ESPOSA COM GAROTO DE 15 ANOS NA CAMA E MATA OS DOIS

O cientista estava certo sobre a mudança total na sua vida! O seu pior inimigo estava morto! Agora sua vida ia mudar pra melhor! Muito Melhor!

Mas nem tudo na vida são flores. Marcos ainda não tinha onde dormir ou o que comer. Não iria de jeito nenhum pedir ajuda em outra Instituição de Caridade, pois tinha medo de virar saco-de-pancadas outra vez. Pensou em pedir ajuda aos amigos da família, mas estava em outra cidade onde não conhecia ninguém e ninguém o conhecia. Sentiu fome. Estava longe do hospital agora e estava começando a entardecer. Marcos pediu ajuda a uma senhora que passou por ele:

— Moça, eu moro em outra cidade, preciso voltar pra casa, estou perdido e com fome. será que a senhora pode me ajudar?

A Senhora coloca a mão no bolso dizendo:

— Deixa ver quanto é que eu tenho.

Sem entender direito, Marcos ficou olhando pra ver o que ela iria fazer. Pois afinal de contas ele disse que estava perdido e, por conta de estar perdido, é que ele estava com fome. Será que ela teria um mapa da cidade ou do estado no bolso? A senhora então retira umas moedas e diz:

— Toma meu filho, é tudo que eu poso te dar, tá?

Marcos pensa em dizer: “Mas a Senhora não entendeu!”, mas já que estava em uma cidade estranha, resolveu não prolongar conversas com pessoas que ele não conhecia. Marcos então simplesmente diz:

— Tá bom. Obrigado.

— De nada. Tchau.

Dinheiro não era exatamente o que Marcos tinha em mente, mas aqueles centavos eram o suficiente para matar a fome. Pelo menos durante aquele dia. Mas onde ele iria dormir? Como encontraria o caminho de volta para sua cidade? Onde, mesmo que não tivesse mais família, estaria entre amigos.

20 anos depois, Marcos nunca conseguiu sair daquela cidade, vivia de esmolas e dormia na rua. Quando era adolescente conheceu outra vez o que era cachaça e atualmente não tinha mais noção de quem era ou de onde viera. Vivia bêbado e cambaleando pela cidade, pedindo esmolas para tomar mais uma dose.

Esqueceu totalmente do seu passado…

Não tinha mais futuro…

Andava sujo e maltrapilho e, de vez em quando, era visto dormindo nas calçadas. Era conhecido como o Homem de Fogo que perturbava todos que chegassem perto pedindo dinheiro pra tomar mais cachaça. No fim das contas Marcos conseguiu o que queria. Não como ele pensava que ia ser, mas ele se tornou um bêbado de rua, ou seja, um homem de fogo.

Marcos morreu de cirrose hepática no meio da calçada, aos 27 anos de idade. Bêbado, sujo, barbudo, com unhas grandes, maltrapilho e com um fedor que se misturava entre o cheiro de 20 anos sem tomar banho e o fortíssimo e podre bafo de cachaça. Foi enterrado como indigente e sua morte foi vista como um alívio para os cidadãos, que já estavam cansados de serem perturbados durante anos por um “bebum” que ninguém sabia de onde viera.

Nesse exato instante e naquela mesma cidade, um garoto de 7 anos chamado Lucas, vê pela primeira vez o desenho animado de um novo super-herói chamado Homem de Fogo…

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