O Mal Nosso de Cada Dia

Pacheco era um homem muito religioso, se dizia religioso, na verdade era um falso religioso, participava de todos os cultos e eventos da igreja, gostava muito de dizer para as pessoas que havia mudado após “encontrar o Divino,” que era outra pessoa. Ele tinha outro irmão, Renan.

Renan não ia com frequência na igreja, mas adorava dar lição de moral nas pessoas, falar bonito, mas no fundo era uma pessoa fútil que só pensava em sua oficina mecânica, gostava muito de beber e se auto intitulava como alguém que sabia beber socialmente sem ter problemas com o álcool pois “era forte para a bebida”.

Dois irmãos, diferentes, mas que no fundo adoravam criar picuinhas entre as pessoas, principalmente Pacheco. Era triste de ver ele atiçando familiares, falando pelas costas, e se achando um santo. Eram o desgosto de seu pai, Pedro e sua mãe Cristina.

Pacheco era odiado por um de seus genros, porque ele inventava histórias que sua filha traía o rapaz ou que tinha mania de grandeza. Já Renan, gostava muito de brigar nas redes sociais com outras pessoas, de ofender, dar lições de moral sem nenhum sentido.

Por motivos como esses, ninguém da família gostava dos dois, alguns até os toleravam por respeito a Pedro e Cristina.

Cristina era muito amorosa com os filhos, mas eles a usavam, ou para pedir dinheiro para Pedro ou para cuidar dos netos quando eles queriam viajar.

O tempo foi passando e cada vez mais os irmãos cometendo maldades, Pacheco era nojento, mentia descaradamente e fazia fofocas atrás de fofocas, acreditava nas próprias mentiras, e Renan cometia alguns furtos, era muito bravo com seus funcionários e pessoas com quem convivia, mas não se importava com isso, nem com os furtos nem com a forma que tratava os funcionários.

Pacheco no passado também cometia furtos, disse que havia parado, porém, era mais uma mentira que até ele acreditava.

Certo dia os dois irmãos foram viajar, passar o feriado de Ação de Graças com suas esposas, filhos, noras e pais. Foram para uma casa do campo, onde havia um lago e um velho celeiro ao lado.

Ao chegar no local, foram avisados para não irem ao celeiro, para ninguém entrar lá porque estava muito sujo e haviam madeiras e pregos velhos onde poderiam se machucar.

Chegada a noite, Pacheco criou mais uma mentira que naquele celeiro havia ouro embaixo das tábuas velhas de madeira, contou para toda a família no jantar. Sua mãe o lembrou do recado dado por Josué, dono da casa:

– Filho, lembre-se o que Josué disse ao alugar a casa para nós, para não irmos lá, pois podemos nos machucar com os pregos enferrujados e tábuas velhas. – Sabendo que o filho era muito mentiroso continuou, – e essa história você deve ter imaginado, não existe ouro lá, se existisse o senhor Josué já teria pego para ele.

– Mamãe, foi o “Divino” que falou pra mim, veio do “alto” essa mensagem e devemos ir lá pegar o ouro.

Pedro e Cristina se olharam, Pedro deu de ombros e continuou seu jantar. Ele ficava muito triste com as mentiras do filho. Quando de repente Renan se levanta gritando:

– NÃO ESTOU LIGANDO PRA SUJEIRA, VOU LÁ PEGAR ESSE OURO E SERÁ TODO MEU!

– Vai lá, pode pegar, vou ficar aqui orando por você, assim quando você voltar sei que irá dividir comigo, – retrucou Pacheco.

Renan riu e foi em direção ao celeiro, junto dele foi o seu filho, ficaram lá dentro um tempão.

Enquanto isso, Pacheco já havia contado algumas histórias maldosas sobre seus vizinhos da cidade, criticado o irmão para seus pais, mas não se importava porque dizia que era bom fazer aquilo e que o “Divino” o salvaria.

– Por que você não cala sua boca meu filho, sua língua é muito grande, vive falando mal dos outros mas não olha para si. Quando teu irmão não está por perto você fala mal dele, se não está falando dele, está falando de outro, sempre algo ruim. Do que adianta ir na igreja, dizer que mudou se na verdade continua linguarudo? – Renan chorando falou para o filho.

– Aleluia papai, eu atravessei o deserto, atravessei as noites escuras e agora o “Divino” me permite falar o que eu bem entendo, sou um instrumento Dele, papai.

Todos os membros da família ficaram quietos, somente Cristina proferiu algumas palavras de conforto para o marido, e então cessaram a conversa.

Renan voltou furioso do celeiro, estava suado e sujo, seu filho também estava sujo, porém, quieto e com medo do pai.
– Seu idiota, me enganou, por que fez isso Pacheco?

– Hahaha! Não encontrou nada? Mas está lá sim, volta lá maninho.

– Não, lá não tem nada, apenas sujeira e mais sujeira.

– Ouvimos um barulho estranho e algo parecido com um vulto – contou Joni, filho de Pacheco.

– Cala a boca menino ou eu posto nas redes sociais que meu filho é um medroso.

Assim, os irmãos maldosos ficaram discutindo por longos minutos, até que Pedro esbravejou com os filhos pedindo sossego e que parassem de discutir, pelo menos naquele feriado.

– Criamos dois filhos com muito carinho, mas vocês estão matando sua mãe e eu de desgosto, com essas discussões, mentiras, maldades, e usam o nome do “Divino” em vão. Que ser Celestial ou Divino confabula com isso? Com essa maldade que há anos está no coração de vocês meus filhos? Um só faz fofocas o outro rouba, e os dois estão sempre fazendo maldades e criando intrigas com os familiares ou amigos. Não aguento mais. – até que enfim, naquela noite o patriarca teve coragem em dizer para os filhos, e continuou, – Pacheco, essa sua língua ainda vai te matar meu filho, e você Renan, esse seu jeito machão com o peito empinado, também.

Cristina pediu que todos parassem e fossem dormir, já era tarde e ao acordar queria todos felizes e esquecessem daquele momento. Então, foram todos dormir.

Durante a madrugada, Pacheco levantou da cama para beber água e quando chegou na cozinha, se deparou com seu irmão sentado no chão.

– O que você está fazendo aí no chão, – perguntou Pacheco.

– Te esperando, vamos no celeiro, procurar o ouro, só você e eu.

– Vamos amanhã.

– Não, vamos agora, assim podemos ficar com todo o ouro e não dividir com nossos pais.

– Nossa! Você é mau, mas gostei da ideia. Vamos lá!

Os irmãos foram até a entrada do celeiro para procurar o tal ouro, chegando lá estava muito escuro, era preciso voltar para pegar uma lanterna, porém, a porta do celeiro abriu-se sozinha, havia um pouco de claridade, o suficiente para não voltar para pegar a lanterna, Pacheco baixinho soltou um aleluia. Foi quando ouviram uma gargalhada.

– Hahaha!

– Você ouviu isso meu irmão, ouviu Pacheco?

– Pensei que era você rindo de mim por eu ter dito aleluia, – respondeu o falso religioso.

– Entrem aqui, quero dar-lhes o que merecem. – Respondeu uma voz de dentro do celeiro, próximo das madeiras onde Renan estava procurando o ouro.

– Veio de lá, vamos. – Renan respondeu ao irmão.

Ao irem até o local, lá estava ele, um homem de roupa preta, capuz na cabeça, pele acinzentada, mostrando com um leve sorriso seus dentes podres, olhos grandes e negros.

– Não tenham medo, aproximem-se, eu sou um amigo.

– Amigo? Jamais, eu não conheço você, – murmurou Pacheco.

– Para você Pacheco, sou o “Divino”, o seu divino que você evoca todos os dias com seus pensamentos e palavras, e para você Renan, sou o Homem que você está sempre pedindo ajuda ao cometer suas indelicadezas e roubos. Estou aqui para libertar vocês, darei o que todos os dias estão procurando, darei o que sempre desejaram.

– Viu meu irmão, eu te falei que aqui tinha ouro e aí está o “Divino” para nos ajudar, – entusiasmado justificou Pacheco.

– Sim, darei o que vocês desejam, podem pegar o quanto conseguirem, mas não esqueçam, vocês receberão o que merecem. E o que vocês vem fazendo no dia a dia, senão o mal?

– Pacheco, então vamos receber algo ruim, porque o que você melhor faz é intrigas e fofocas, – ponderou Renan.

– Olha quem fala, o ladrãozinho machão da família, – retrucou Pacheco.

– Sirvam-se, terão o que merecem, – foram as últimas palavras do homem estranho.

No amanhecer do dia seguinte, todos foram tomar café, menos Pacheco e Renan. Ao perguntar para suas noras, Cristina se preocupou com as respostas negativas de que eles não estavam mais nos quartos quando elas acordaram para tomar café.

Foi aí que todos os membros da família se assustaram e começaram a procurá-los nos demais cômodos da casa, mas nada de encontra-los. Pedro foi correndo até o lago e também não encontrou ninguém. Só restava o celeiro. Pedro com uma sensação estranha foi até lá, a porta estava fechada, e com empurrão foi aberta. Haviam dezenas de barras de ouro no celeiro, empilhadas.

Pedro parecia não acreditar no que viu. Ao lado das barras de ouro estavam seus dois filhos, Pacheco com sua língua agora gigante que saía de sua boca e enrolava seu pescoço, e Renan com seu peito cortado e aberto ao meio. Ambos mortos, sangrando muito. Com o sangue estava escrito sobre as barras:

“As barras de ouro são para vocês, nós recebemos o que merecíamos, falar demais e pensar ser melhor que os outros, aí está O MAL NOSSO DE CADA DIA.”

Por: Agui De Rossi

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