Ela ainda está Comigo

Não me lembro quando comecei a reconhecer rostos. Mas lembro-me de minha mãe e meu pai como os dois primeiros rostos que vi e reconheci. Existem outros rostos também. Lembro-me deles me olhando no berço. São as poucas lembranças que ainda tenho do tempo de quando era bebê.

Não me lembro de nenhum outro parente naquela época. Mas eu me lembro dela claramente mais do que qualquer coisa, até mesmo mais do que da minha mãe naquela época. Quando eu cresci, folheei todos os álbuns de fotos da casa e tentei conectar os rostos que vi quando era um bebê e, além dos meus pais, não havia nenhum. Além disso, ela não estava lá.

A primeira vez que a vi foi quando estava deitado no meu berço e havia um grupo de pessoas ao meu redor me observando. Lá eu noto uma garota de pé me olhando. Naquele dia que a vi inúmeras vezes. Sempre que a vejo, minha mãe não está perto de mim ou não está me olhando. Ela usava um vestido branco e era tão linda e elegante que combinava perfeitamente com seu lindo rosto.

Ela tinha cabelos castanhos dourados cacheados que caíam em seu ombro. Pensando nela agora, ela parecia ter 18 ou 20 anos e suas roupas mostravam que ela era uma senhora europeia muito rica que vivera durante a era colonial, mais ou menos. Ela tinha o rosto e o sorriso muito amáveis.

Enquanto eu crescia, muitas vezes ficava sozinho em casa. Minha mãe me disse que eu era uma criança gentil naquela época. Mas ela ainda não tem ideia de que eu realmente não estava sozinho em casa. Cada vez que eu ficava em casa sozinho, ela estava lá comigo. Ela às vezes brincava comigo ou às vezes se sentava em um sofá e me convidava para sentar com ela. Por alguma estranha razão, eu a obedecia todas as vezes. Podia sentir o que ela queria dizer apenas olhando em seus olhos.

Seus olhos tinham uma cor marrom desbotada com um pouco de cinza. Às vezes ela olhava para mim com uma expressão triste e lembro-me de fazer o meu melhor para animá-la. Ela passava algum tempo comigo, depois levantava e saía da sala. Assim que eu a perdia de vista, muitas vezes minha mãe ou meu pai chegavam logo em seguida.

Temos uma grande floresta atrás da casa. Então um dos dias em que eu estava “sozinho” em casa, entrei lá para escalar árvores e comer e frutas. Também era como um novo mundo para minha pequena mente. Era literalmente um novo mundo.

Quando passei a entrar lá com mais frequência, às vezes via soldados marchando ou homens e mulheres caminhando ou cavalgando ou numa carruagem acompanhados por guardas. Também a vi entre eles, ainda sozinha e me olhando com olhos tristes. Sempre tive a sensação de que ela havia perdido o amado e aguardava sua volta.

Eu a vi até os 14 ou 15 anos. Depois disso, raramente a via. Eu tinha 17 anos quando percebi que posso ver fantasmas. Mas eu sei que ela ainda está perto de mim, e esse fato não me deixa com medo. Eu me sinto confortado com isso. Não gosto de fantasmas, mas gosto muito dela. Eu não sei por que, mas eu simplesmente gosto.

Quero que ela encontre paz, mas ao mesmo tempo não quero que ela vá embora. Às vezes sinto que ela está perto e quando me viro para olhar vejo algo se movendo tão rápido ou às vezes consigo ver parte de seu vestido quando ela se afasta rapidamente. Não consigo vê-la claramente como antes, mas sei que é ela. Será que essa é a maneira que ela encontrou de me dizer que ainda está me observando?

Mudei-me da casa dos meus pais para a minha própria e mesmo assim ainda consigo sentir a sua presença. Já vi muitos fantasmas e eles nunca ficam por muito tempo. Mas tenho a sensação de que ela estava comigo desde o momento em que nasci e ainda está comigo.

Eu faço uma limpeza uma vez por ano, talvez seja por isso que não consigo vê-la claramente agora ou ela que não fica o tempo suficiente comigo. Não quero chamá-la de fantasma; para mim é como um insulto à ela. Agradeço todas as vezes que ela me impediu de fazer coisas muito estúpidas ou perigosas (ela chegava perto de mim e balançava a cabeça negativamente quando eu pensava em fazer algo estúpido), eu a considero uma espécie de guardiã. Gosto de pensar nela dessa forma.

Por Buthaya

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