A Ária Perfeita

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Toda vez que os holofotes a apresentavam ao público e ela, com aquele sorriso contagiante, abraçava-nos com sua voz de veludo nos mais agudos timbres, nossos corações pulsavam mais rápido e nossos olhos enchiam-se de lágrimas. Era a coisa mais linda de se ver. Algo como o sibilar dos pássaros em uma manhã ensolarada de domingo. Ela era demais.

Estou falando da minha irmã mais velha. Cantora Lírica profissional que nos enchia de orgulho com sua voz maravilhosa e seus trejeitos perfeitos em cima dos palcos dos melhores teatros do Estado.

Desde pequena ela cantarolava tudo e em todos os lugares. Sempre achava um jeito e uma hora pra cantar. Não havia tempo triste com ela pois, mesmo em momentos de tristeza, melhorava tudo após cantar suas músicas preferidas. Por causa disso, ainda pequena, resolveu fazer aulas de canto em um conservatório da cidade, onde lá, acabou se apaixonando pelo Canto Lírico.

Confesso que meus ouvidos doíam sempre que ela ensaiava em casa, mas mesmo assim, a cada dia que se passava, algo nela mudava e ia se tornando melhor, melhor e mais ainda.

Por conseguinte, com o passar dos anos, muitas oportunidades ótimas bateram à sua porta: foi chamada para fazer parte de um coral bastante conhecido na cidade, fez inúmeros testes com maestros famosos, gravou discos, dentre muitas outras coisas que ela estava começando a fazer.

Só que sua vida de cantora não andava como ela tanto queria, já que, além de se dedicar ao canto, ela também estudava muito na faculdade de nutrição, e isso a consumia bastante. Às vezes ela se via numa montanha russa. Ora ia mal na faculdade e bem no canto, ora acontecia o contrário. Porém, a garra dela era invejável e, com certeza, não desistiria fácil do seu sonho de ser uma cantora lírica de renome.

Todos os dias pela madrugada eu a ouvia. Ela ficava trancada em seu quarto solfejando incansavelmente as mais belas notas musicais das mais belas Árias existentes no mundo erudito. Porém, havia uma Ária em especial na qual ela ainda não conseguira ser perfeita: a Ária da Rainha da Noite.

Essa Ária integra a ópera ‘A Flauta Mágica’ de Mozart e é considerada uma das mais famosas árias de ópera. Ela representa um acesso de fúria vingativa, em que a Rainha da Noite coloca um punhal na mão da sua filha, Pamina, e a exorta a assassinar Sarastro, rival da Rainha.

Por essa ária ser tão famosa, a minha irmã desejava do fundo da sua alma poder apresentá-la com perfeição para os olheiros que estariam em um festival de ópera que aconteceria na nossa cidade, para o qual ela tinha sido convidada.

Dessa forma, ela largou a faculdade e passou a se empenhar ao máximo naquela linda música. Passava horas em seu quarto cantando e treinando nota por nota, palavra por palavra. Ela queria que tudo fosse perfeito no dia, pois a vida e o sucesso dela dependiam daquela música.

Com os meses se passando e o dia do festival chegando, notava-se que, cada vez menos ela saía do seu quarto. Os pratos de comida chegavam a apodrecer na frente da sua porta. O cheiro que ficava no ar era cada vez mais forte, mas mesmo assim, ela não parava de cantar e tudo era cada vez mais lindo e mais perfeito aos meus ouvidos. Eu já não ligava mais para qualquer cheiro ou para as noites sem dormir, pois a Ária estava ficando perfeita.

Um dia antes do início do festival, por volta das 22hs da noite, um ‘silêncio ensurdecedor’ tomou conta da nossa casa e eu acabei dormindo.

Logo pela manhã, a porta do quarto dela abriu-se e minha irmã saiu do seu quarto já pronta para o festival. Ela estava sorridente e linda, apesar de sua aparência raquítica e de não ter muita força em suas pernas para se manter em pé. Nada importava naquele momento, pois a Ária estava perfeita.

Já prontos, partimos eu, ela e nossa mãe rumo ao festival de ópera que aconteceria no meio da cidade.

Lá estavam os maiores nomes da ópera do país à procura da cantora lírica perfeita e minha linda irmã estava muito confiante, pois sabia que tinha treinado o bastante para aquele momento.

Chegada a hora da sua apresentação, do centro do palco, ela, com toda a sua genialidade e beleza, começou a cantar lindamente a Ária da Rainha da Noite. Cada nota que saída de sua boca penetrava em nossas almas e fazia com que os nossos olhos derramassem lágrimas de orgulho e felicidade por ela ter conquistado o que tanto queria: a Ária Perfeita.

Porém algo trágico naquela noite aconteceu. Por estar tão fraca e debilitada, ao final de sua apresentação, com todos gritando seu nome e a aplaudindo de pé, seu corpo não aguentou tanto esforço e ela desabou ao chão, deixando todos no teatro atônitos e assustados.

Ela foi rapidamente levada ao hospital, mas já estava sem vida. O médico nos disse que ela tinha morrido de inanição, justamente pelo fato de passar muito tempo sem comer e sem tomar água. Ele ficou chocado ao saber que a minha irmã teria passado mais de quatro meses sem comida e sem água trancada em seu quarto cantando sem parar. Isso era impossível para um ser humano comum, pelo menos foi o que ele disse, mas eu sempre soube que ela era especial e que, de certa forma, a música a “alimentava”.

Após o seu enterro, minha mãe e eu nos mudamos daquela cidade a fim de esquecermos a fatalidade que um simples sonho causou à minha irmã.

Muitos anos depois, acabei perdendo também a minha mãe que lutava já há alguns anos contra o câncer. Agora eu estava sozinho no mundo. Não tinha mais ninguém, não tinha mais as pessoas que eu tanto amava ao meu lado. Eu estava perdido.

Com a morte de minha mãe, resolvi que seria bom enterrá-la junto ao túmulo de minha irmã no Cemitério das Rosas, que ficava no fim da cidade de onde partimos depois do fatídico festival de ópera que levou embora a minha querida irmã.

Feito o velório e terminado o enterro, procurei o primeiro bar que encontrei e me afoguei na bebida. Eu sabia que seria impossível esquecê-las, mas eu tentei. Bebi até quase não conseguir ficar em pé. Durante goles e mais goles de cachaça que eu entornava, me bateu uma saudade delirante de ouvir as lindas Árias que minha irmã tanto gostava de cantar. Então, para tentar matar aquela saudade que me corroía por dentro, tive a brilhante ideia, ou não, de ir visitar o teatro da cidade onde ela fez a sua última apresentação.

Chegando no edifício, mesmo bêbado, percebi que o prédio estava em condições precárias, literalmente caindo aos pedaços. Isso porque, desde o dia do festival, o teatro foi fechado e esquecido pelo povo. Ele estava realmente abandonado.

Forcei a entrada, que já podre, não segurou muito bem a grande porta de madeira do teatro. Com muita dificuldade em ver no escuro e ainda mais, bêbado, andei pelo corredor do imenso teatro e me sentei em uma cadeira podre da primeira fila.

Assim que fechei os meus olhos, comecei a escutar a bela voz da minha irmã cantando a Ária Perfeita que ela tanto ensaiou antes de morrer. Todas as lembranças voltavam e me alma inundava-se de alegria através das lágrimas que escorriam dos meus olhos. Mas, ao abri-los, o silêncio tomou conta novamente daquele lugar agora sombrio.

Então, de relance, pensei tê-la visto por entre as cortinas vermelhas e velhas abertas no palco. Não sei se era por causa bebida, mas eu queria muito vê-la novamente, nem que fosse uma última vez.

Sem pensar duas vezes, levantei rapidamente da cadeira. Porém, meu movimento foi tão brusco que terminou de quebrá-la e eu, cambaleante por causa do álcool, caí de cabeça em uma das armações afiadas que a suportava.

Então, acho que vocês já perceberam o que aconteceu comigo, não é mesmo? Pois é, eu morri! Sozinho, bêbado e empalado por uma simples cadeira quebrada.

Mas até que esse acontecimento não foi de todo ruim. Agora, eu posso, por todas as noites da eternidade e de braços dados com minha mãe da primeira fila do teatro, ouvir minha irmã cantar sob a luz de holofotes a sua Ária Perfeita.

História de Terror escrita por Luca Esteves

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