Finados

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Reza a lenda que a dois mil anos atrás cansados de não serem visitados por seus entes queridos, os mortos exigiam que no Dia de Finados dia 02/11 eles iriam visitar por conta própria.

01 de Novembro de 2001 dona Ana Maria foi até o cemitério no intuito de levar flores a seus amados entes queridos, entre eles, seu filho mais novo morto a 5 anos atrás vítima de bala perdida, Ana apenas adiantou um dia do dia de finados, satisfeita por achar que tinha cumprido com sua obrigação, voltou para casa e adiantou os seus afazeres pois no dia 02 iria para um clube com seu novo namorado José, que era um homem alegre e cheio de graças, Ana por si era mais reservada, mulher de poucas palavras.

Na certeza de que iria ao clube, Ana acordou de madrugada e começou a arrumar suas coisas, que iria levar consigo para o clube, só que quando ela abriu o armário, seu filho estava lá.  Gabriel, seu filho morto há 5 anos estava lá, de pé diante dela.

Assustada com o que viu, Ana correu em direção ao banheiro e se trancou lá. Ela escutava a voz do filho do lado de fora.

– Onde vai? Hoje é dia de ficarmos juntos mamãe, e se a senhora não vai até mim, eu vou até a senhora.

Ana Maria sem saída e desesperada começou a rezar pela alma do seu filho e a se desculpar com ele por ter se adiantado na sua ida ao cemitério para curtir o feriado com seu namorado. Mas Gabriel começou a bater na porta com força e a derrubou. Caminhando em direção da mãe ele abria os braços com o rosto desfigurado e coberto de terra.

– Onde vai? Hoje é dia de ficarmos juntos mamãe, e se a senhora não vai até mim, eu vou até a senhora.

Aquelas palavras eram como um golpe de faca no coração e na alma de Ana que, sem conseguir encarar seu filho, desmaiou. Quando acordou já era de manhã, ela havia desmaiado no chão do banheiro, no início ela pensou ser uma alucinação. Mas ela sabia que não era, pois as marcas estavam lá no chão, na porta. As marcas de mãos sujas de terra, e no chão, as pegadas. Ele esteve lá. E hoje era o dia de estar com ele.

Ana ligou para o namorado, desmarcando o compromisso de hoje. Ela se arrumou e foi em direção ao cemitério, levando flores e dois sanduiches de queijo com presunto, o favorito do seu filho.

Ao chegar ao cemitério, deixou as flores e um dos sanduiches em cima da sepultura. O outro ela comeu. Quando olhou para o lado seu filho estava lá. Gabriel já não aparentava aquela aparência desfigurada e sombria como na noite passada, mas sim, a de um menino saudável, limpo, com aquele sorriso feliz, como se nada tivesse acontecido. Era como se ele ainda estivesse vivo.

– Sabia que a senhora viria…

Aquelas palavras acalmaram o coração aflito de Ana, que se ajoelhou e o abraçou com lágrimas nos olhos.

Todos que passavam pelo cemitério, ali viam aquela mulher ajoelhada de frente para a sepultura e conversando em voz baixa, alegre e sorridente.

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